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Europa alinhada, países europeus com dinâmicas diferentes

A Europa reagiu à crise pandémica alinhada e até emitiu pela primeira vez dívida europeia, mas nos países há intervenções de apoio à economia de diferentes calibres. A Alemanha têm espaço fiscal, foi rápida a implementar medidas, os outros países dependem mais do plano de recuperação europeu.

Filipe S. Fernandes 20 de Novembro de 2020 às 18:00
Mário Carvalho Fernandes diz que o facto de a recuperação não estar a ser igual em todos os setores explica o comportamento dos mercados.
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A contração da economia em 2020 foi uma das mais violentas da história pela sua dimensão mas também poderá ser uma das curtas uma vez que se terá concentrado no primeiro semestre. Mário Carvalho Fernandes, Chief Investment Officer do Banco Carregosa, destacou que a recuperação não está a ser igual em todos os setores. Por exemplo, os serviços, em que se inclui o turismo, continuam com níveis deprimidos de atividade e as economias mais dependentes deste setor são mais atingidas.

"Isto explica porque é que, por exemplo, os mercados acionistas estão a ter um comportamento distinto do que sentimos na realidade do dia a dia da economia como em Portugal. A economia portuguesa está mais exposta a setores mais penalizados pela pandemia, enquanto nos mercados acionistas, como o americano, acabam por ter uma maior preponderância de setores que até estão a ser beneficiados pela pandemia, como o setor tecnológico", afirmou Mário Carvalho Fernandes.

Em termos de política monetária global considerou que não há pressões inflacionistas à vista no globo. Os bancos centrais apenas têm um papel a cumprir que é apoiar a economia com política monetária e dessa forma também a valorização dos ativos financeiros.

Juros e inflação

A prazo, no caso de surgirem tendências inflacionistas, haverá decisões difíceis que os bancos centrais terão de tomar. Será um teste à independência o aumento das taxas de juro quando os governos não estiverem capacitados para suportar taxas de juro mais elevadas. "Mas enquanto a inflação estiver deprimida e o risco for de deflação, os interesses estão todos alinhados", salientou Mário Carvalho Fernandes.

O Chief Investment Officer do Banco Carregosa viu diferenças na reação da União Europeia à crise atual em relação às anteriores. "A Europa surpreendeu pela positiva, mostrou-se alinhada e conseguiu pela primeira vez emitir dívida conjunta, uma construção nova que é de assinalar. O que tem sido discutido do plano de recuperação europeu para iniciar em 2021 revela apostas na construção de infraestruturas de transportes ferroviários, veículos elétricos, economia digital. Nos Estados Unidos, o programa de apoio à economia passa por um momento de indefinição pois não houve a extensão das medidas adotadas a seguir à pandemia. A economia vai perder dinâmica e perder ímpeto."

Destacou que mesmo assim na Europa há intervenções de apoio à economia de diferentes calibres. Há países como a Alemanha que têm espaço fiscal, foi rápida a implementar medidas que já estão a suportar as economias, nomeadamente, o corte da taxa do IVA. Outros países dependem mais do plano de recuperação europeu e só quando este dinheiro chegar é que poderão começar a injetar nas suas economias e, portanto, esses estímulos dar-se-ão em 2021. "Verificam-se assim dinamismos diferentes entre os vários blocos e será expectável que a Alemanha comece a mostrar números mais expectáveis em termos económicos mais cedo e por essa via acabe por puxar pelos países mais periféricos", proferiu Mário Carvalho Fernandes.

O duelo ações e obrigações As obrigações soberanas apresentam níveis de remuneração muito pouco atrativos, inferiores à taxa de inflação e isto acontece há cerca de quatro anos. "Mesmo um compósito de obrigações soberanas, EUA e Alemanha, apresenta níveis reais de retorno negativo. O investidor necessita de procurar retorno noutras classes de ativos mais arriscados para evitar que o seu património perca poder de compra ao longo dos anos", sublinhou Mário Carvalho Fernandes.

Na generalidade dos mercados acionistas encontram-se com múltiplo elevado face aos resultados estimados para os próximos 12 meses. O mercado atingiu durante 2020 os níveis mais caros da última década e ainda se encontra 20 vezes os lucros, um valor historicamente elevado. "As taxas de juro baixas acabam por justificar os EPS (Resultados por ação) mais elevados e o mercado já olha se os resultados por ação em 2021 vão ser mais próximos de 2019 ou 2020 e poderá haver margem para os resultados subam", explicou Mário Carvalho Fernandes.