Europa devia defender mais as suas empresas

A Europa deve atuar para combater a concorrência assimétrica da China. Em Portugal é preciso medir as consequências da fiscalidade ambiental e avançar com regulação que facilite a competitividade das empresas. A qualificação da mão-de-obra é outra das prioridades.
Europa devia defender mais as suas empresas
O workshop sobre as eleições europeias, políticas públicas de crescimento e inovação empresarial decorreu na Nerlei, em Leiria.
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Filipe S. Fernandes 11 de julho de 2019 às 13:15
As empresas chinesas têm subsídios à exportação e, em certos casos, ainda acabam por receber subsídios europeus em nome da mobilidade limpa e partilhada, referiu Jorge Pinto, CEO da Caetano Bus, durante o segundo workshop Exportadoras Outstanding, uma iniciativa do Fórum para a Competitividade, com o tema "As Eleições Europeias, as políticas públicas de crescimento, desenvolvimento e inovação empresarial", moderado por António Poças, presidente da Nerlei, a Associação Empresarial da Região de Leiria.

"Nos Estados Unidos existe o ‘American Buy Act’ em que para se vender para entidades públicas têm de se ter uma incorporação de 50%, "mas na Europa não é assim, e a economia chinesa não tem a mesma abertura às empresas europeias que a Europa tem em relação às chinesas", referiu Jorge Pinto durante o debate que se realizou no dia 3 de julho, em Leiria.

A Caetano Bus detém o Cobus, líder no mercado de autocarros de aeroporto com 75%, produz ainda, na mobilidade elétrica, o autocarro urbano e.City Gold e chassis elétricos para autocarros urbanos. A empresa do grupo Salvador Caetano decidiu fazer uma aliança estratégica com o grupo japonês, Mitsui, que passou a deter 42% da Caetano Bus, para conseguir entrar em muitos mercados de exportação.

Pressão ambiental

Os transportes e a logística foram das questões mais debatidas. Os transportes, tal como a energia, encontram-se numa encruzilhada, face à tendência de agravamento da fiscalidade ambiental no futuro, agravando os custos das empresas. Rui Brogueira, CEO da Repsol, que opera no mercado dos derivados de resina do pinheiro, criticou o aumento da carga fiscal e sugeriu a possibilidade de "aligeirar esta carga fiscal e alguns custos de contexto, como os custos energéticos. Isso tornaria as empresas mais competitivas".

Gabriel Oliveira, administrador executivo da Transportes Pascoal, sublinhou as diferenças entre Portugal e Espanha: "comparativamente com as empresas espanholas, temos constrangimentos que eles não têm, como a questão das portagens e do estado de algumas vias".

A China não tem a mesma abertura às empresas europeias que a Europa em relação às chinesas. Jorge pinto
CEO da Caetano Bus

Pedro Ferraz da Costa, presidente do Fórum para a Competitividade, chamou a atenção, durante o discurso de encerramento, para a discussão de uma medida que poderá limitar o transporte rodoviário de mercadorias a um máximo de 300 quilómetros. O que seria fatal para um sistema de exportações, como o português, que se baseia no transporte rodoviário. "Em Portugal, a opção multimodal é difícil porque a ferrovia não existe e a via marítima, apesar dos esforços, não tem apoios e depois existem todas as questões portuárias", referiu Gabriel Oliveira.

O peso da regulação

A otimização dos serviços e a modernização da estrutura do Estado foram outros dos temas debatidos. A sobrevivência da unidade industrial da Tabaqueira em Portugal depende da inovação e capacidade industrial, mas também de uma regulação que torne mais fácil em Portugal a passagem do tabaco de combustão para o tabaco aquecido, o grande desafio industrial do futuro.

A Phillip Morris entrou na Tabaqueira em 1997 através de uma privatização. Desde então, já investiu mais de 300 milhões de euros na transformação de uma empresa que passou de uma produção 12 mil milhões de cigarros para o mercado interno para 25 mil milhões de cigarros, dos quais exporta 20,9 mil milhões. Mas o tabaco aquecido, segundo Miguel Matos, diretor geral da Tabaqueira, é "o nosso contributo positivo para a saúde pública e assumimos um compromisso de sustentabilidade mediante a menor nocividade dos nossos produtos".

Mão-de-obra

Também a Allianz invoca questões regulatórias, neste caso a aplicação do RGPD. "A forma como a nova lei europeia da proteção de dados foi transposta para a lei nacional condiciona muito a atuação dos seguros. Se cumprirmos exatamente o que diz a lei, isso vai impedir as seguradoras de venderem seguros de saúde. Isto se não houver regulamentação e alterações", afirmou Luís Ferreira, do comité executivo da Allianz Portugal. Estas dificuldades tornam mais complexo o desafio digital que o setor atravessa, que obrigou a mudar a conceção, a distribuição, a venda e o pós-serviço.

Uma outra chamada de atenção de Pedro Ferraz da Costa foi a questão da disponibilidade e qualificação de mão-de-obra, com destaque para os quadros qualificados. Sublinhou a importância que deve ser dada à educação e questionou algumas opções como o facto de se "empurrar os alunos menos bons para o sistema de ensino profissional, uma forma errada de ingresso que vai à partida debilitar a qualidade desse tipo de ensino. O modelo de educação e formação deve ser revisto e melhorado".



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