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Garland: Aposta nos serviços "taylor made"

Para a Garland, empresa de transportes e logística com mais de dois séculos de história, o futuro passa por dar um acompanhamento mais personalizado aos seus clientes.

Helena C. Peralta 19 de Março de 2019 às 14:00
Mariline Alves/Cofina
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Dizem as estatísticas que poucas são as empresas que sobrevivem à terceira geração. Muito menos são aquelas que chegam a centenárias e que conseguem fazer com mestria a transição dos tempos adaptando os seus negócios. Casos mais raros são companhias como a Garland que se mantém no ativo há perto de 250 anos, embora reinventando-se constantemente, conforme as necessidades. "Passamos pela monarquia, pela república, pela ditadura e pela democracia. Apenas fechámos os escritórios durante as guerras napoleónicas", afirma Peter Dawson, presidente do grupo familiar.

Fundada em 1776, pelo inglês Thomas Garland, destinada ao comércio internacional, a companhia foi passando diversas fases e diferentes projetos. A família entrou no negócio mais de 100 anos depois da sua fundação quando o bisavô de Peter Dawson fugiu de Inglaterra e em Portugal pediu emprego a esta companhia. No final do século XIX o bisavô de Peter ficou a liderar os destinos da empresa com o marido de uma das filhas de Garland. "O meu bisavô ainda ia ao escritório aos 92 anos. Depois entrou o meu avô, o meu pai, e finalmente eu e o meu irmão", diz. A quarta geração também já está integrada nos negócios. Pelo meio a companhia foi ainda autorizada a imprimir notas bancárias, iniciou-se no negócio da navegação marítima, entrou nos transportes ferroviários, e em 1994 entrou na logística, que é o seu principal vetor de crescimento.


Em 2018 a companhia avançou com uma importante reestruturação interna, que resultou na organização do grupo em quatro áreas de negócio: Logística, Transportes, Navegação e Corporativa. Já há algum tempo que se vinha a desfazer de negócios que não eram do "core business", como o caso do transporte de pneus. Surgiu então a Garland Transports Solutions, que acumula a fusão de três empresas extintas, a Garland Transportes, a Garland Paletes Expresso e a Garland Transitários.

A reestruturação visou agrupar os serviços de transportes numa única divisão, procurando ainda uma melhor gestão dos recursos. Esta nova empresa atingiu um volume de negócios de 51,3 milhões de euros em 2017 e foi uma das maiores exportadoras do concelho de Cascais, com vendas externas totais que ascendem a 18,1 milhões de euros.

Serviços especializados

A Garland Transport Solutions oferece serviços de transportes terrestre, com saídas regulares para quase todos os destinos europeus, marítimo e aéreo. As mercadorias dos seus clientes podem ser transportadas em cargas completas, parciais ou de grupagem, estando ainda especializada em produtos pendurados, a temperatura controlada ou materiais perigosos. "Temos também um serviço especial que parte do norte, destinado a Paris, que é só para a área têxtil, que é o que chamamos 'pendurados', ou seja, são camiões fixos, não de lona, com barras onde os vestidos e fatos vão todos pendurados em sacos. E captamos boa parte das marcas grandes de Paris. Fazemos cinco ou seis camiões por semana, só focados no vestuário", explica o presidente. A empresa também está muito focada na área do automóvel, já que trabalha com a Autoeuropa, e tem cerca de 80 a 100 camiões por semana a entrar e sair de Palmela.

Pedro Dawson explica a importância desta reestruturação para o fortalecimento do negócio, que pretende agora oferecer aos seus clientes soluções bastante mais diversificadas e competitivas. "Focamo-nos muito em servir melhor a nossa clientela, e procuramos criar uma parceria com cada cliente", diz. Para este responsável, não "pretendemos concorrer com eles, mas queremos fazer parte da sua linha de produção". E, para isso, a Garland criou os chamados "key account managers" em que, cada um, toma conta de um cliente, e de tudo o que necessite, seja carga aérea, seja marítima ou rodoviária. "No fundo queremos ser consultores e aconselhar o melhor serviço", explica o presidente da companhia.


Flexibilidade precisa-se

Ao concentrar as atividades em unidades de negócio, a Garland viu assim uma forma de aumentar a sua flexibilidade e ainda otimizar a sua capacidade tecnológica, criando sinergias. A área tecnológica tem sido alvo de investimento, na qual já foram aplicados cerca de dois milhões de euros. A libertação total de papéis e a aposta no acompanhamento digital de todos os processos é a sua estratégia. "Temos muitos clientes que já dependem 100% da tecnologia e por isso estamos a instalar processos que permitam gastar menos tempo nesse contacto", explica. Peter Dawson acredita que, em pouco tempo, a Garland será umas das mais avançadas nesta área. Existe já, neste momento, uma equipa de 25 informáticos inteiramente dedicados a esta transformação.

Mas a tecnologia não foi a única área de investimentos. Foram igualmente canalizados dois milhões de euros para modernizar as instalações e aumentar a capacidade logística. Na sede, em S. Domingos de Rana, foram melhorados os armazéns e os escritórios. Na Maia, a capacidade instalada de armazenamento passou para 28 mil paletes e 12 mil metros quadrados de "mezzanine" destinados às plataformas de e-commerce, área onde a empresa tem cerca de 15 clientes, a maioria na área do têxtil e do calçado. "Estamos a prever fazer mais investimentos em logística, criando novos armazéns mas isso vai acontecer conforme as oportunidades de negócio que surjam".

Desde 2015 que a média de crescimento anual consolidado do grupo Garland tem sido de quase 10% ao ano. Em 2017, o grupo registou um volume de negócios de 128,2 milhões de euros e um crescimento de 14% face ao ano anterior. Cerca de 85% deste negócio foi gerado em Portugal e o restante a partir de Espanha e Marrocos, os dois países onde tem presença direta. Os seus mercados principais são a Alemanha, a Suécia, a Itália e também Espanha. "Na parte marítima podemos cobrir Estados Unidos, Marrocos, Extremo Oriente, para onde enviamos vinhos e papel, pedra até pranchas de surf", explica Peter Dawson.

Perguntas a Peter Dawson
Presidente do grupo Garland 

Reinventar o negócio é fundamental
Com mais de dois séculos de história, a Garland conseguiu manter-se ativa apesar de ir adapatando os seus negócios às necessidades de cada época. Atualmente aposta tudo nos transportes e logística onde tem maior potencial de crescimento.

Como conseguem reinventar o negócio e adaptar-se aos novos desafios?
É fundamental para a sobrevivência do negócio conseguir essa adaptação. Reorganizamos e renovamos os nossos armazéns e os nossos escritórios e estamos a colocar o foco na área da qualidade, na comunicação, na resposta ao cliente, na flexibilidade. O preço também é importante mas estas variáveis têm sempre de estar por trás. Há muitos novos negócios, sobretudo no norte, liderados por estrangeiros, e que para eles a qualidade tem muita importância, a sustentabilidade tem muito peso. Há companhias estrangeiras que não trabalhariam connosco se não fossemos sustentáveis. Esta é a nossa visão para o negócio.

Quando decidiram fazer uma reestruturação do vosso negócio?
Há uns anos decidimos sair de todo o negócio que não era o core business de transportes e logística e é nisso que estamos a apostar. Decidimos desenvolver toda a parte da logística e nos últimos 10 anos passamos de 10 mil metros quadrados de armazéns para ter 80 mil metros quadrados. Assistimos a um crescimento do negócio todos os dias, também pelo facto de termos uma equipa muito jovem e dinâmica.

O volume de negócios da Garland Transport Solutions foi de 51,3 milhões de euros em 2017. Qual foi o crescimento de 2018?
O ano passado o nosso volume de negócio chegou aos 56 milhões de euros. Estamos a crescer a um ritmo de 4% a 7% ao ano na nossa faturação. Nós movimentamos na área de Transport Solutions qualquer coisa como dois mil camiões ao mês, isto em ida e volta.

Qual é o vosso principal eixo de crescimento do negócio no futuro?
Não há dúvida que vai ser este em apostamos mais, o dos transportes terrestres e o da logística. As companhias mais pequenas não fazem logística dos seus negócios, como fazem, por exemplo os supermercados, e necessitam de recorrer a serviços externos. Esta área tem a um elevado potencial de crescimento.

Qual tem sido a evolução das vossas exportações?
As exportações estão a crescer globalmente e já fazemos 15 camiões semanais daquilo que chamamos consolidação em carro, e que há quatro anos era só metade.