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Bruno Bernardes: “Deve-se evitar o desencontro entre as expectativas das pessoas e as soluções criadas”

“The Dilemma of Smart Things” é a terceira das cinco tendências detetadas pelo Accenture Technology Vision 2020. Mostra que “o investimento em soluções tecnológicas que aumentem a relevância das empresas junto dos seus públicos deve ser sempre feito numa perspetiva de longo prazo”.

Filipe S. Fernandes 15 de Setembro de 2020 às 12:00
Bruno Bernardes, Associate Director da Accenture Portugal Pedro da Silva
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"É insustentável para muitas organizações que um produto seja concebido para o presente sem que se projete o seu valor num futuro próximo", diz Bruno Bernardes, 42 anos, que é associate director na Accenture Portugal, responsável por tecnologia para as indústrias de energia, utilities e recursos naturais. Licenciado em Economia pela Universidade de Coimbra ingressou de imediato na Accenture em 2005. No seu percurso profissional destacam-se um conjunto de projetos complexos desenvolvidos na área de resources, nomeadamente na definição e implementação de projetos de SAP e Oracle em empresas da área de transporte, distribuição e comercialização de energia.

Quais são as principais vantagens e riscos das experiências e dos produtos em que se fundem ciclos longos com um constante fluxo de atualizações, ou seja, em que o produto pressupõe quase um serviço?
À medida que as empresas mantêm cada vez mais propriedade e controlo sobre os dispositivos, mesmo após a sua compra por parte de clientes, deparamo-nos com um aumento da frustração de consumidores que experienciam mudanças constantes em produtos que consideravam seus.

Por outro lado, e no atual contexto da pandemia covid-19, temos sentido um acréscimo de dispositivos inteligentes e de rápida atualização, com grande potencial em termos de saúde pública e que têm sido úteis para utilizadores. Estes produtos podem ajudar a identificar sintomas, monitorizar pacientes e obter dados valiosos que apoiam a investigação e decisões governamentais. Em determinados contextos, a apresentação de novas funcionalidades e novas features permite a consolidação da relação com as pessoas.

Neste caso específico, foram adaptados e atualizados inúmeros dispositivos, úteis na manutenção do distanciamento social, higienização das mãos e muito mais. No decorrer da pandemia, as pessoas estão a recorrer a mais aplicações e dispositivos inteligentes no seu dia-a-dia, muitas das quais estão mais disponíveis para partilhar dados pessoais relativos à sua saúde, o que gera um risco acrescido da suposição de utilização destes dados num futuro próximo.

Quais são os impactos na organização e na inovação destas mudanças?
A definição clara do limite de utilização de dados é crucial para a integração de dispositivos inteligentes, sobretudo se os mesmos passam, de alguma forma, pela leitura de dados pessoais como a análise de informações sobre saúde ou a localização do indivíduo. Todas as garantias de privacidade têm de ser asseguradas. Por exemplo, a Google e a Apple estão a inserir mudanças em Android e iOS para permitir que certas aplicações de entidades governamentais consigam rastrear o contacto do utilizador.

Este sistema, baseado em Bluetooth, deteta a proximidade física entre telemóveis, alertando os utilizadores da possível exposição ao vírus, tendo por base informações de casos ativos de covid-19. Esta funcionalidade não recolhe dados de pessoas que não foram diagnosticadas e tem uma política de privacidade e tratamento de dados altamente rigorosa. Independentemente da intenção, todas as empresas devem ter em consideração estes limites para não ultrapassarem o razoável aquando da exposição dos utilizadores às suas novas features.

Implica a criação de produtos de maior valor e um pipeline de produtos a longo prazo?
O investimento em soluções tecnológicas que aumentem a relevância das empresas junto dos seus públicos deve ser sempre feito numa perspetiva de longo prazo, ou construída por forma a poder-se desenvolver sem que se estagne no tempo. É insustentável para muitas organizações que um produto seja concebido para o presente sem que se projete o seu valor num futuro próximo. E neste caso em concreto, em que falamos da implementação de dispositivos inteligentes, os mesmos devem ser pensados como elementos facilitadores na vida do seu target, por forma a evitar o tal tech-lash que a Accenture evidencia no Relatório Technology Vision 2020.

Este desencontro entre as expectativas das pessoas e as soluções que lhes são criadas não pode acontecer. E para o prevenir, neste tema em específico, é necessário que se evite ao máximo o sentimento de invasão de privacidade ou insegurança de utilização de dados no longo prazo e que se criem produtos com caráter inovador e aptos para a reconfiguração ou reinvenção, de modo a ajustarem-se às mutações da organização.

Predições Em três anos a portabilidade de dados será um requisito para todos os produtos conectados vendidos nos EUA e União Europeia.

Em sete anos os produtos vão oferecer "garantias digitais vitalícias ", permitindo que os clientes possam substituir sem custo os dispositivos que se tornem obsoletos.
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