Imobiliário em Portugal: "Há preços acima do que seria justo"

Os especialistas dizem que não há bolha imobiliária, mas os preços, em determinadas zonas de Lisboa, Porto, Algarve e Madeira, são determinados pela procura global.
Imobiliário em Portugal: "Há preços acima do que seria justo"
Ricardo Sousa, CEO da Century 21, apresentou o primeiro observatório do mercado da habitação, numa sessão na Central Tejo em Lisboa.
David Martins
Filipe S. Fernandes 02 de outubro de 2018 às 16:00

"Se me pergunta se os preços no centro da cidade estão a preços justos? Digo que não, estão acima do que acho que seria justo, mas é o mercado a funcionar. Os preços em Portugal ainda não acompanham os preços da Europa. O mesmo activo em Lisboa vale metade de Paris, um quarto de Londres e é mais barato do que Madrid. Mas os portugueses também não têm o mesmo nível de vida", esclareceu Luís Lima, presidente da APEMIP (Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal).

 

Por sua vez, Pedro Vicente, CEO da Level Constellation, considera que "há algum abuso de proprietários e mediadores em mercados limítrofes às áreas prime em Lisboa, em que um apartamento que valia 100 mil euros passou, de um dia para o outro, para 250 mil euros. Temos de ser auto-reguladores do mercado. Mas não me parece que o mercado se esteja a comportar de uma forma preocupante, está um mercado estável e sólido".

 

Luís Lima acrescentou que, "em algumas zonas de Lisboa, Porto e Algarve, os preços estão acima do que será aceitável", mas investir no imobiliário é como no mercado financeiro, há o baixo, médio e alto risco. O investimento nessas zonas é de alto risco.

 

Sem bolha no passado

 

Lembrou que Portugal não teve bolha imobiliária no passado, mas "uma bolha no sector financeiro que afectou o imobiliário". Recordou que entre 2001 e 2008 os preços do imobiliário cresceram em Portugal, 14%, em Espanha, 70%, na Irlanda, 110% e nos EUA, 140%. "Não há qualquer razão para haver uma bolha imobiliária nos próximos dois a três anos porque a situação é diferente, não há tanto endividamento, há muito investimento com capitais próprios", defendeu Luís Lima.

 

Mas, se acabarem com os clientes, com medidas como o fim dos vistos gold ou do programa de residentes não habituais, "é que vai haver uma bolha de imobiliário e, por arrasto, a economia nacional. O imobiliário é muito importante para a economia", referiu Luís Lima. Hoje existem mais de "6 mil imobiliárias reguladas… Hoje qualquer português é um potencial mediador imobiliário", ironizou.

 

Sobre a taxa contra a especulação imobiliária proposta pelo Bloco de Esquerda, vulgarmente conhecida por "taxa Robles", Helena Roseta considerou que revela "má consciência em relação a um caso desagradável que tiveram". Discorda da medida e diz que, se acham que o imposto sobre as mais-valias imobiliárias "está mal calibrado, deve-se propor a sua alteração e não colocar uma taxa sobre um imposto".

 

Para a presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, "muitas vezes as pessoas confundem os problemas com as soluções. Falou-se do problema e tenta-se reagir. Existe especulação imobiliária mas não é assim que se combate."

 

A especulação imobiliária tem uma fonte que é a "escala global, e nós em Portugal não podemos fazer muita coisa, mas se tivermos mais transparência no mercado, os próprios agentes regulam-se entre si".

 

O poder local tem hoje de fazer frente a pressões globais de mercados planetários. "É uma luta de David contra Golias", concluiu Helena Roseta.

A habitação na Assembleia da República

• Lei de Bases da Habitação (projecto de lei 843/XIII do PS) - uma iniciativa apresentada em Abril e a aguardar agendamento

• Pacote legislativo sobre a habitação - 27 iniciativas apresentadas em Maio, 24 pendentes em Setembro

• Alojamento local - cinco iniciativas apresentadas entre 2017 e 2018

Aprovados 

• Suspensão dos despejos - lei 30/2018, em vigor desde 17 de Julho

• Direito de preferência dos inquilinos - veto do PR, aprovada a 21 Setembro de 2018

• Alojamento Local (5 iniciativas) - lei  62/2018, de 22 de Agosto

Em debate na 11.ª Comissão em Setembro:

• Código Civil, NRAU e regime de obras em prédios arrendados

• Fiscalidade na habitação e no imobiliário e arrendamento acessível

• Subsídio de renda, seguro de renda e património público







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