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Marcelo Rebelo de Sousa é o Mais Poderoso de 2017

Não é primeiro-ministro, mas manda. E muito. Marcelo usa o cargo de uma forma diferente. Dá a mão ao Governo, elogia, ajuda a desbloquear problemas. Também deixa avisos. Condiciona. Mas fá-lo com a cautela suficiente para não abrir brechas. Cultiva afectos com os portugueses: aparece, dá o ombro. Mostra que é um deles, faz coisas banais: toma banho no mar. Marcelo parece uma espécie de "pop star" com a fama lá no alto. O povo gosta.

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Porque sobe

Num ano, o Presidente da República consolidou o poder. Pela forma como encara o seu papel, Marcelo Rebelo de Sousa é actualmente uma peça-chave em Portugal, no plano político, social e até económico. O chefe de Estado protege o Governo, condiciona a sua actuação - e a da oposição. O Presidente dos afectos - como é conhecido - quer estar em todas. E está. Mesmo naquelas que não são habituais para um Presidente. Continua a tomar banho no mar em Cascais, como antes.

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Em Junho de 2016, quando Marcelo e Costa estiveram juntos em Paris por altura das comemorações do Dia de Portugal, o Presidente falava para a comunidade portuguesa em cima de um palco quando começou a chover. O primeiro-ministro, mesmo ali ao lado, aproximou-se, abriu o chapéu e ficou ali a segurá-lo, evitando que Marcelo se molhasse. De vez em quando, a comunicação social recorre a esta fotografia para ilustrar a boa relação entre o Governo e o Presidente da República. A foto é quase perfeita. 

Imagens à parte, o dia-a-dia de Marcelo e Costa funciona quase sempre ao contrário. Quando o Governo corre o risco de se molhar, Marcelo aproxima-se e abre o chapéu - que serve como uma espécie de escudo protector. Foi assim desde o início e continua a ser.
Marcelo Rebelo de Sousa com o Papa Francisco que visitou Fátima em Maio de 2017.
Marcelo Rebelo de Sousa com o Papa Francisco que visitou Fátima em Maio de 2017. João Relvas/Reuters
A forma como Marcelo Rebelo de Sousa encara os poderes do Presidente vale-lhe, assim, o primeiro lugar na lista de poderosos que o Negócios elabora todos os Verões. No ano passado, entrou directamente para a terceira posição. Este ano chega ao topo.

Depois da tragédia de Pedrógão e do assalto aos paióis de Tancos, o Governo esteve sob pressão. O chefe de Estado veio a terreno para tentar compensar a ausência do Executivo - que adiou o apuramento de responsabilidades e viu o primeiro-ministro ir de férias no meio de uma crise. Marcelo assumiu as rédeas do dossiê: foi a Tancos e anunciou que vai passar o Natal em Pedrógão Grande, sinalizando assim que: 1) a tragédia não vai ser esquecida; 2) têm de ser encontrados os responsáveis "doa a quem doer".


O Presidente da República ajuda, apoia, em linguagem popular dá uma mãozinha, mas também condiciona a acção do Governo: há decretos que não seguem como o Executivo pretende, há mudanças que ficam pelo caminho mesmo antes de acontecerem. Em Setembro do ano passado vetou o diploma sobre acesso do Fisco a informação bancária por "inoportunidade política" - o Governo avançou apenas com a parte que não tinha sido vetada. O ministro da Educação tentou avançar com uma reforma curricular, mas Marcelo travou-a antes mesmo desta ter dado o primeiro passo.

No último ano, o Presidente ajudou a resolver vários dossiês. Desdramatizou a mudança do presidente da Caixa Geral de Depósitos, depois de meses de polémica, deu o aval ao novo líder do banco público, Paulo Macedo. Mais: Marcelo chegou a participar num encontro da Caixa com gestores e empresários do Norte por altura da emissão de dívida e interveio na primeira tensão da era Macedo, o fecho de balcões, quando recebeu os responsáveis da agência de Almeida no Palácio de Belém.

Considera-se que a obrigação de declaração vincula a administração da Caixa Geral de Depósitos. Marcelo Rebelo de Sousa
4 de Novembro de 2016

Feriado [1.º de Dezembro] nunca devia ter sido suspenso. Marcelo Rebelo de Sousa
1 de Dezembro de 2016

Causa da década é crescer acima de 2%.  Marcelo Rebelo de Sousa
25 de Março de 2017

Não era possível fazer mais, há situações que são situações imprevisíveis e quando ocorrem não há capacidade de prevenção que possa ocorrer, a capacidade de resposta tem sido indómita.  Marcelo Rebelo de Sousa
18 de Junho de 2017

Não desdramatizo Tancos. É grave.  Marcelo Rebelo de Sousa
30 de Junho de 2017


A interferência de Marcelo é tal que em Fevereiro, depois de ter recebido informações sobre alegados SMS trocados entre Mário Centeno e António Domingues, fez um comunicado a dizer que aceita a posição do primeiro-ministro de manter ministro das Finanças devido ao "interesse nacional" e à "estabilidade financeira". Uma posição que lhe valeu críticas dos socialistas, que o acusam de pisar o risco dos poderes do Presidente. Este é, aliás, um debate recorrente quando se fala da forma como Marcelo encara o seu papel. "Embora seja visto como o Presidente dos afectos, Marcelo Rebelo de Sousa é o Presidente que mais manda", dizia há um ano ao Negócios Luís Marques Mendes, membro do Conselho de Estado e seu amigo.

A tensão com o PSD

As ajudas e os elogios ao Governo e à geringonça - em Fevereiro disse numa entrevista ao El País que a actual solução governativa "superou as expectativas" - alimentam um foco de tensão permanente à direita. Apesar de ser do PSD, já protagonizou episódios de confronto com o líder social-democrata, Pedro Passos Coelho, como quando disse que o feriado do 1.º de Dezembro nunca devia ter sido suspenso ou quando optou por criticar a presidente do Conselho de Finanças Públicas, Teodora Cardoso, quando esta disse que os resultados do défice tinham sido conseguidos à custa de um "milagre".
As selfies que Marcelo tira com os portugueses são, desde o início, uma marca do seu mandato. É o Presidente dos afectos.
As selfies que Marcelo tira com os portugueses são, desde o início, uma marca do seu mandato. É o Presidente dos afectos. Tiago Sousa Dias/Correio da Manhã
Fala sobre (quase) tudo - uma sondagem da Aximage de Março dizia que, entre os maiores defeitos, os portugueses identificam o facto de ser demasiado interventivo/exposto e comportar-se como um demagogo/um fala-barato, apontavam mais de 15% dos que responderam ao inquérito. Apesar disso, mantém níveis de popularidade elevados. Na sondagem mais recente da Aximage para o Negócios, 87,4% dos inquiridos entre os dias 29 e 30 de Agosto acham que Marcelo esteve bem no último mês. Talvez por isso, em Março, quando fez um ano em Belém, a maior qualidade que lhe era reconhecida era o facto de estar próximo das pessoas. Vai a todas - esteve no acidente da aeronave em Tires, na queda da árvore na Madeira, foi o primeiro a chegar a Pedrógão.

Quer ser o Presidente dos afectos e tenta mostrar que é igual a qualquer cidadão. Continua a ir à praia em Cascais para nadar, engraxa os sapatos na rua, tira selfies com toda a gente que lhe pede, faz corridas com miúdos na visita a uma escola, entra numa dança na Escola Portuguesa em Moçambique. O chefe de Estado parece uma espécie de "pop star" com a fama lá no alto.

Bilhete de identidade

 Cargo: Presidente da República
 Naturalidade: Nasceu em Lisboa em 1948
 Formação: Licenciatura em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa. 




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