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Notícia

Mario Draghi é o 5.º Mais Poderoso de 2017

As frágeis condições económicas da Zona Euro e a criação da União Bancária garantem a Frankfurt um enorme poder sobre a economia nacional. A intervenção directa de Draghi foi menor no último ano do que no anterior, mas continuou a ser decisivo a garantir custos de financiamento baixo da economia e a acompanhar a reestruturação da banca - com destaque para Novo Banco e CGD. Estas são áreas que continuarão a marcar o país no próximo ano.

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Porque desce

A intervenção do BCE no último ano foi menor do que a verificada entre os Verões de 2015 e 2016, quando consolidou a implementação do programa de compra de dívida pública, acompanhou a entrada em funções do novo Governo, interveio na resolução e venda do Banif e chumbou vários nomes para a administração da CGD. Ainda assim, os poderes do banco central sobre Portugal permanecem, tanto a baixar os juros do país, como a acompanhar a reestruturação da banca.

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A agenda do presidente do BCE ilustra bem por que razão desce este ano três lugares no ranking dos poderosos. Entre Novembro de 2015 e o Verão de 2016, Mario Draghi reuniu-se, em Dezembro, com Mário Centeno e António Costa e, em Abril, com Marcelo Rebelo de Sousa, participando até no Conselho de Estado. Desde então, não teve qualquer outro encontro oficial com responsáveis nacionais.

A frequência de encontros com personalidades nacionais relembra as intervenções que levaram Mario Draghi ao segundo lugar do pódio na edição dos mais poderosos de 2016: nesse ano acompanhou de perto a entrada em funções do novo Governo, consolidou a implementação do programa de compra de dívida pública na Europa, foi decisivo na resolução do Banif e venda ao Santander, e chumbou vários nomes para a administração da Caixa Geral de Depósitos. Do Verão de 2016 para cá não fez nada comparável. Mas a descida não deve desviar a atenção da influência que mantém, e que resulta tanto das políticas não convencionais de compra de dívida pública, como do seu papel de supervisor da banca - tendo sido chamado a aprovar a nova administração da CGD no final de 2016 e o seu plano de recapitalização.
O BCE organizou mais uma vez a sua conferência anual em Sintra
O BCE organizou mais uma vez a sua conferência anual em Sintra Bruno Simão
Estes são poderes ainda mais importantes nas economias frágeis da periferia, o que ajuda a explicar a distância entre o quinto lugar ocupado este ano por Mario Draghi e o 32.º de Carlos Costa. Este ano, o poder do BCE é ainda sublinhado na rentrée política e económica europeia pela provável travagem nas políticas de estímulo monetário que anunciará até ao final do ano, e que terá impactos difíceis de prever nos custos de financiamento do Estado e das empresas.

Um ano mais calmo

A menor intervenção do BCE na economia portuguesa é, em parte, explicada pelo melhor momento económico e financeiro da Zona Euro e de Portugal, ao qual o banco central não é alheio. A política monetária decidida em Frankfurt, em particular o programa de compra de dívida pública e empresarial, baixou os custos de financiamento do Estado, das famílias e das empresas, numa dimensão que alguns estudos quantificam em quase um ponto percentual para empréstimos a 10 anos na periferia. Este efeito ajudou a estimular o consumo e o investimento, que entretanto se afirmaram como os motores de crescimento da Zona Euro. Por outro lado, os juros baixos no curto e longo prazos pressionaram em baixa o valor do euro, fomentado as exportações. Juntam-se ainda a concessão de empréstimos aos bancos em condições muito favoráveis, o que contribuiu para a recuperação da concessão de crédito na região (embora ainda em queda em Portugal), uma condição para sustentar o necessário aumento do investimento. São estas as razões que levam um número significativo de analistas a colocar o banco central no centro da recuperação da Zona Euro. Nesta dinâmica, Portugal surge em destaque: nos últimos três trimestres bateu o crescimento médio da Zona Euro e chegou ao Verão de 2017 com o desemprego abaixo que a média da união monetária pela primeira vez em onze anos.

Muitos desafios pela frente

O poder de Draghi é também evidenciado pela importância das escolhas que terá de fazer nos próximos meses. A sua capacidade em gerir a saída da crise voltará a pôr à prova Mario Draghi, com efeitos relevantes para Portugal. Depois da implementação de estímulos, é preciso agora retirá-los à medida que a recuperação ganha sustentação.

Portugal registou progressos significativos em todas as dimensões. Este é o primeiro ponto que devemos ter presente. Permanecem, no entanto, muitas vulnerabilidades, especialmente no sector bancário, onde ainda há um nível muito elevado de crédito malparado, como aconteceu noutros países da periferia. Mario Draghi
Declarações no Parlamento Europeu, 29 de Maio 

se aumentarmos taxas de juro no momento errado, podemos cair numa nova recessão, e uma recessão não é boa para os millennials, nem para os não millennials. Mario Draghi
Declarações no ISEG, no primeiro "Encontro com a Juventude", organizado pelo BCE a 26 de Junho

Os que consideram que ao longo da crise o BCE chegou tarde demais a políticas essenciais como a compra de dívida pública, temem agora que, sob pressão dos seus críticos, em particular na Alemanha, o banco central se precipite a sair de cena. Tal poderia implicar subidas de juros que seriam especialmente perigosas para economias muito endividadas como a nacional. Isto para além de poder acentuar a valorização do euro que, desde o início do ano até ao final de Agosto, já somou cerca de 12% face ao dólar e 8% face à libra, penalizando as exportações da Zona Euro.
Este ano visitou também o ISEG para um encontro com estudantes portugueses.
Este ano visitou também o ISEG para um encontro com estudantes portugueses. Bruno Simão
Nos meses que aí vêm, o BCE será também relevante a lidar com o sistema financeiro nacional, pelo menos em duas dimensões. Por um lado, está por finalizar a venda parcial do Novo Banco aos norte-americanos da Lone Star, que deverá acontecer este semestre; por outro, e de forma mais transversal, falta uma estratégia convincente do Governo e das autoridades europeias para lidar com elevado nível de malparado e baixa rendibilidade da banca. Se é certo que tem puxado o tema para o topo da agenda - veja-se por exemplo o recente apelo de Vítor Constâncio, é igualmente verdade que o contributo de Frankfurt para uma solução europeia parece tímido.

Bilhete de identidade

 Cargo: Presidente do Banco Central Europeu
 Naturalidade: Nasceu em Roma em 1947
• Formação: Economista
 Outras funções relevantes: Foi director-geral do Tesouro em Itália entre 1991 e 2011, governador do Banco de Itália entre 2006 e 2011 e vice-presidente do Goldman Sachs entre 2002 e 2005. 


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