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Piriquita em Sintra: Adoçar o Inverno sem quebrar a tradição

É sob o olhar atento de Maria Leonor Cunha que se fazem os Travesseiros, iguaria que transformou a Piriquita em paragem obrigatória para quem visita Sintra. Levam 165 anos de história mas têm os olhos postos no futuro.

22 de Setembro de 2015 às 00:01
Bruno Simão
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A conversa começa à mesa e acompanhada de uma Noz Dourada, sugestão de Fernando Cunha, um dos herdeiros e gestores da Piriquita, a pastelaria tradicional sintrense com 165 anos de história, paragem obrigatória – e gulosa - para quem visita o centro da vila de Sintra.

Os turistas que se passeiam pelas ruas estreitas vão entrando e saindo do estabelecimento. O rodopio é grande. No Verão, conta o sócio-gerente, chegam a receber 2.500 pessoas nas duas pastelarias, a sede, onde nos encontramos, e a Piriquita 2, que fica a escassos metros no topo da rua. "No inverno (puff), se atender 300 ou 400 pessoas [por dia] já é
Se há uns anos
eu vivia do nacional, agora vive-se mais
do turismo. Há mais turistas, mas não
há tanto poder
de compra.
Fernando cunha
Sócio-gerente da Piriquita
bom". 

A sazonalidade é um dos maiores desafios da Piriquita, capaz de facturar "de cinco a seis mil euros" por dia  no Verão, um valor que recua para cerca de mil euros/dia quando o tempo esfria. "A gente no Inverno está sempre à espera do fim-de-semana", explica  Fernando.

Aqui trabalham 45 pessoas, família incluída. "A vantagem que  temos é que cada um sabe o que tem de fazer. São autónomos e são uma grande ajuda, mas isso leva anos a formar", salienta Fernando. Que o diga Maria Leonor Cunha, a matriarca, agora com 83 anos, que se mantém na fábrica, sozinha, enquanto os pasteleiros fazem a pausa do almoço. Leva 60 anos de trabalho aqui. "Ela não se sente como sentia há seis ou sete anos, mas gosta de estar ali [na fábrica]. É uma pessoa que já tem muita experiência de vida, e que ensina muito e que eles [pasteleiros] respeitam", conta Fernando.

A Piriquita "está na génese" desta família. "Estamos envolvidos nisto como se fosse hoje que tivéssemos criado um negócio novo", assume. É olhando para o futuro que termina esta conversa: "O objectivo é manter esta qualidade, isso é ponto marcante. Depois, é estudar a viabilidade de alargarmos os nossos horizontes, mas com os pés  bem assentes na terra", diz Fernando. Exportar? "Para já não", mas é preciso crescer "porque o Inverno aqui [em Sintra] é muito comprido" e é preciso "alguma margem de manobra", adianta.

Entretanto, na fábrica, os pasteleiros estão de regresso e tudo voltou ao ritmo normal. Há já terrinas de doce de ovos à espera que a massa dos Travesseiros fique pronta. Em cima da bancada estão uns Pastéis da Cruz Alta, que somos convidados a provar. Afinal, a Piriquita não são só Travesseiros e Queijadas de Sintra. Fernando bem o sabe, o seu bolo favorito é a Noz Dourada, uma pequena mas intensa iguaria que serviu de ponto de partida para esta conversa, e quem sabe, para muitas mais.

Tome nota: As hipóteses para sair de Sintra
A Piriquita abriu este Verão uma loja em Cascais em sociedade com Pedro Silva Neves, mas a experiência ficou aquém do esperado. "Talvez tenha sido um erro de cálculo", assume Fernando Cunha.

Era "fundamental ir alguém" de Sintra para Cascais

"A ideia foi irmos para Cascais para defendermos um pouco o Inverno daqui [de Sintra], para podermos ter alguma margem de manobra. Cometemos um erro: não foi ninguém de Sintra, com a experiência da loja de Sintra, para Cascais", conta Fernando Cunha.

O "corner Piriquita"

Está a ser negociada entre as partes do negócio em Cascais um novo modelo de parceria, que poderá passar pela Piriquita "sair da sociedade", mas continuar a fornecer o novo estabelecimento "como revenda" e ter um "corner Piriquita" a vender os bolos da marca sintrense.

Avançar "por nós"

"Embora tenhamos muitos pedidos de franchising, neste momento, com a experiência de Cascais, estamos a reflectir sobre o que iremos fazer no futuro", conta Fernando, Cunha, adiantando que o fundamental é "manter a qualidade". A ideia é "repensar toda esta estratégia" e avançar "por nós", diz o sócio-gerente. "Temos de ter alguém sempre presente, o que não foi o caso [em Cascais], mas eu faço ‘mea culpa’".

E montar uma fábrica maior noutro sítio?

"Não dá, as pessoas gostam de comer o Travesseiro quentinho aqui", diz Fernando. "A nossa fábrica é aqui, é pequena, e a gente não quer sair daqui", adianta, dando voz a uma tradição que já leva 165 anos e vai na sétima geração. Tudo começou com Constância Gomes, apelidada de Piriquita pelo rei D. Carlos, que costumava comprar o pão na sua padaria e a quem Sua Majestade deu a receita das queijadas.

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