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Saúde: modelos centrados no doente ganham terreno

Os sistemas baseados em valor e na medição de resultados influenciam cada vez mais projetos como o VIH 360º, da Abraço, ou o Value for Health CoLAB, da Universidade Nova.Mas os projetos promovidos pelo ICHOM em Portugal mostram algumas das fragilidades do sistema de saúde.

Filipe S. Fernandes 10 de Setembro de 2019 às 17:39
Gonçalo Lobo lidera a associação Abraço.
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A Associação Abraço, em conjunto com a NOVA School of Bussiness and Economics, lança este mês o projeto VIH 360º em que contam com o apoio de Martin Ingvar, do Karolinska Institutet e co-fundador do ICHOM (International Consortium for Health Outcomes Measurement), que é um dos pioneiros de um sistema de saúde baseado em valor e medição de resultados para o paciente (Value Based Healthcare).

"Este projeto pretende desenvolver um questionário que permite ir ao encontro dos standard-sets do ICHOM. Isto é, criar uma linha basal de indicadores a serem monitorizados que permitam uma avaliação holística da pessoa que vive com a infeção pelo VIH", refere Gonçalo Lobo, presidente da Associação Abraço.

Tem por objetivo criar uma "maior sensibilização dos profissionais de saúde para a necessidade de monitorização de outros fatores, tais como, vida sexual, solidão, indicadores de saúde mental, entre outros, e, maior participação das pessoas infetadas pelo VIH nos processos de tomada de decisão em saúde, colocando a pessoa no centro dos cuidados de saúde", explica Gonçalo Lobo.

Este exemplo mostra a crescente influência do Value-based healthcare (VBH), que tem por base a comparação através de conjuntos padronizados de resultados que medem os cuidados de saúde com base no valor produzido efetivamente para o doente. Com a noção de valor muda-se de paradigma. Passa-se dos indicadores globais como a mortalidade e outros, que têm a sua importância, para indicadores como a sobrevivência e a qualidade de vida.

Literacia na saúde

O Value for Health CoLAB começou a funcionar em março destes ano e surgiu pela iniciativa do José Fragata, vice-reitor da Universidade Nova de Lisboa e com longa experiência como cirurgião cardiotorácico e diretor de serviço no Hospital de Santa Marta, que idealizou o conceito deste laboratório colaborativo e mobilizou os parceiros fundadores que são a Universidade Nova de Lisboa, a José de Mello Saúde, a Vodafone Portugal e a Fraunhofer Portugal.

"O grande objetivo do CoLAB é apoiar a inovação e a implementação de metodologias de Saúde baseada em Valor, considerando todo o ciclo de cuidados. As tecnologias digitais têm um papel muito relevante neste projeto. As competências do CoLAB neste domínio tecnológico apoiarão a medida de resultados em Saúde, a longo prazo, nas estruturas hospitalares e na vida quotidiana do doente. A Literacia em Saúde é uma área que o CoLAB vai desenvolver para apoiar a medida de resultados reportados pelos doentes", refere Ana Londral, diretora do Value for Health CoLAB.

O primeiro projeto demonstrador vai ser no Hospital de Santa Marta com a implementação de medida de resultados na cirurgia cardiotorácica. "O CoLAB fará a integração dos dados que já são recolhidos neste contexto hospitalar e também em contexto domiciliário por enfermeiros, acrescentando dados provenientes de dispositivos IoT e uma aplicação móvel", explica Ana Londral.

Paciente no centro

Estes são dois casos mostram o impacto do sistema baseado nos resultados e no seu valor, que é conhecido por Value Based Healthcare, que começou por ser desenvolvido por Michael Porter e Elizabeth Teisberg. "O VBH sugere que os sistemas de saúde devem passar de um sistema de "supply-driven" para um sistema centrado no paciente, organizado em torno das necessidades dos pacientes. Além disso, visa mudar o foco do lucro e do volume de serviços oferecidos para os resultados alcançados pelos pacientes", sublinha Cláudia Vaz, consultora do International Consortium for Health Outcomes Measurement (ICHOM).

O ICHOM resulta de uma parceria entre a Harvard Business School, o Karolinska Institutet e o The Boston Consulting Group e "tem como missão desbloquear o potencial de VBHC definindo standards de referência globais focados no paciente, para as condições médicas mais relevantes e subsequentemente impulsionando a sua adoção global e relatório dos resultados obtidos", como refere Cláudia Vaz.

Obstáculos ao VBH

Este organismo já teve dois projetos em Portugal. O primeiro como o Health Cluster Portugal que decorreu entre 2016-17 enfocado na implementação de standards de referência para catarata e DMI (Degenerescência Macular da Idade). Neste projeto estiveram envolvidas 12 instituições de renome nacional, tanto do setor público como privado e o grande catalisador foi Joaquim Murta, Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra.

Desde 2017, o IPO-Porto está envolvido, com mais 11 instituições, "num dos consórcios mais marcantes para o ICHOM", como diz Cláudia Vaz, a iniciativa internacional All.Can que trabalha para melhorar a eficiência do tratamento do cancro, concentrando-se no que é importante para os pacientes. O IPO-Porto está a implementar o standard de referência ICHOM para o cancro do pulmão.

Esta experiência permite fazer um ponto de situação sobre as dificuldades de aplicação do VBH em Portugal. Para Cláudia Vaz, "o balanço é positivo, que Portugal está bem representado e credibilizado na área, com clínicos de renome internacional. Seria importante salientar, no entanto, que os projetos também demonstraram a fragilidade dos sistemas de IT, falta de interoperabilidade entre instituições hospitalares e dificuldade na incorporação eletrónica de sistemas de recolha de dados de pacientes essenciais para a adoção das metodologias de VBH, como por exemplo os PROM = Patient Reported Outcomes Measures".

Os novos projetos da Abraço

A Associação Abraço candidatou-se ao Programa Comunitário Alentejo 2020 para a construção de uma Unidade de Cuidados Continuados Integrados de Saúde Mental com capacidade para 42 pessoas, em Alcácer do Sal. "Caso este projeto seja aprovado, também esta unidade de saúde seguirá a metodologia VBH", garante Gonçalo Lobo. Adianta que estão "constantemente a desenvolver novas intervenções e a procurar oportunidades de melhorar os serviços prestados, por isso, novas metodologias serão de esperar em termos de rastreio, serviço de apoio domiciliário e a integração, cada vez mais, do digital".

Estão também à procura de investidores para uma clínica comunitária. Em breve vão abrir uma creche em Lisboa com a capacidade para 40 crianças até aos 3 anos de idade e dois apartamentos para crianças provenientes de outras regiões de Portugal, incluindo as regiões autónomas e dos PALOP. Estes apartamentos resultam de uma parceria entre a Abraço e o Serviço de Pediatria do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, dirigido por Ana Isabel Lopes.