Uma experiência em Portugal

“Tem de se acreditar que no longo prazo se nos focarmos no que interessa aos doentes, a nossa conta de resultados e de custos também vão melhorar a longo prazo, mesmo que no curto prazo se tenha de fazer investimentos”, considera Francisco Rocha Gonçalves
Uma experiência em Portugal
Francisco Rocha Gonçalves afirma que nos hospitais públicos há coragem para entregar aos doentes produtos não comparticipados pelo Estado.
Vítor Chi
Filipe S. Fernandes 02 de outubro de 2019 às 12:00
"No IPO na clínica de patologia doença da mama foram publicados os dados e, em termos de custos, foi de 60% na consulta, por causa da normalização que se faz dentro da consulta, desde a prescrição de MTDT até à própria dinâmica das consultas e da agenda do médico em função os interesses do doente", explicou Francisco Rocha Gonçalves, diretor Healthcare Technologies Management da Luz Saúde, mas que entre 2011 e 2018 foi administrador do Instituto Português de Oncologia (IPO-Porto).

"Tem de se acreditar que no longo prazo se nos focarmos no que interessa aos doentes, a nossa conta de resultados e de custos também vão melhorar a longo prazo, mesmo que no curto prazo se tenha de fazer investimentos. Isto é importante para convencer o poder político, porque é não só o dono dos hospitais como o principal pagador", considera Francisco Rocha Gonçalves.

É importante a forma como se traça o caminho do doente, a forma de tratar o doente desde o diagnóstico até à alta, com todas as exceções que possam acontecer, sublinhou Francisco Rocha Gonçalves. "É uma obrigação para os profissionais cumprir estes passos, e é uma promessa para o doente porque passa a ter uma perspetiva e um compromisso de prazo. Por exemplo, desde que faz o PET até que o relatório esteja pronta eram três dias no máximo.

São compromissos com o doente que ele vai cobrar mais à frente", acentuou.

Impacto na organização

"Em termos de gestão do hospital passa a estar tudo organizado", salientou, porque "quando desenhamos uma clínica sabemos à partida quantos médicos vamos alocar, quantos doentes por dia vão ser atendidos e otimizar esta combinação toda"

Em termos de gestão do hospital passa a estar tudo organizado. Francisco Rocha Gonçalves
Diretor Healthcare Technologies Management da Luz Saúde (entre 2011 e 2018 foi administrador do Instituto Português de Oncologia (IPO-Porto)

As métricas são respeitadas em 40 a 50% dos casos, restantes temos exceções. "Não há problema com o imprevisto, tem é de ser justificado. Se por exemplo se prevê que o doente vai fazer uma avaliação por TAC, mas o médico prescreve uma ressonância ou há uma boa razão ou está a haver uma má prática, porque a ressonância é mais difícil de agendar uma vez que só há um aparelho no hospital e é mais cara que o TAC. Quem supervisiona é a direção clínica e, nas exceções, o médico tem de defender o caso perante os colegas. Era uma avaliação da decisão, não era uma decisão puramente individual", resume Francisco Rocha Gonçalves.

Preço fixo e liberdade

Para este economista, que se se tornou gestor na área da Saúde, uma das implicações mais fortes do Value Based Healthcare é financiamento. "Se os hospitais não fossem financiados por itens, depois se surge um teste novo não se pode comprar porque não tem código e ser faturado, por volume, como o número de consultas, número de sessões de quimioterapia. Se fossem financiados pelos resultados e pelos sucessos das intervenções, por exemplo, com um preço fixo, o hospital teria depois a liberdade para organizar uma cadeia de cuidados adequada e personalizada ao caso de cada doente sem estar preocupado com o que incluiria lá dentro porque era pago por resultado e não pelos itens que incluía", salienta Francisco Rocha Gonçalves. Faz notar que "nos hospitais públicos há a coragem de entregar aos doentes produtos que não são comparticipados pelo Estado central mas que são importantes para este ou aquele doente".



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