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Efeito janeiro

Este ano, de 2020, foi devastador para os particulares, e para os negócios, pelo impacto súbito da pandemia e seus efeitos conexos

Negócios 14 de Dezembro de 2020 às 16:00
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João Queiroz, Head of Trading do Banco Carregosa

Este ano, de 2020, foi devastador para os particulares, e para os negócios, pelo impacto súbito da pandemia e seus efeitos conexos, como a suspensão da atividade, contração da economia, diminuição dos rendimentos e assimetrias nos rendimentos, mas, apesar disso, poderá ainda terminar com avaliações acima das de 2019, como já se verificam nos mercados acionistas da Ásia, incluindo Japão, e também nos EUA e Canadá.

As condições de crédito muito favoráveis estabelecidas pelos bancos centrais que mantêm as taxas de juros baixas, perante a forte emissão monetária, dotando os bancos de ferramentas adicionais para suportarem a economia real, a atividade empresarial e sustentar o mercado de emprego, bem como o atual feito da humanidade para conter a pandemia, que em nove meses criou uma solução para a saúde pública, estão a criar um contexto bastante favorável para o investimento e alguns índices registam máximos históricos (exemplos do S&P 500 ou o Russell 2000).

Desde o anúncio da eficácia da primeira vacina, e a aprovação de terapias desenhadas para auxiliar a recuperação dos casos positivos do atual vírus, o fluxo monetário, alocado aos fundos de investimento, proveniente do perfil de retalho, ou particular, aumentou e permitiu antecipar o "efeito janeiro" que se caracteriza por um aumento da avaliação dos ativos de risco pela maior entrada de capitais face ao resto do ano.

O seu impacto tende a ser generoso, sobretudo, para algumas empresas de áreas como a tecnológica, sobre o tema da energia verde e dos veículos elétricos. Também tem auxiliado alguma rotação das "social media", processadores e "marketplaces" que ganharam visibilidade durante os períodos de maior confinamento, para as "cíclicas" (mais relacionadas com a evolução da economia), e as de "valor" (detêm elevada capacidade de autofinanciamento, crescimento orgânico, equilíbrio patrimonial), numa inteligente diversificação que também envolve uma alocação geográfica diferente, já consistente com a recalibração das economias a prazo: deslocação da centralidade, e da importância, das economias desenvolvidas para as emergentes.

Esta nova ordem mundial, fomentada pela pandemia, parece ter cristalizado algumas mudanças que deverão figurar como alterações dos históricos padrões de trabalho, consumo, viagens e lazer, resultando na aceleração da digitalização com maior recurso a meios eletrónicos, bem como no exponencial incremento da robotização e da gestão inteligente dos muitos dados que se geram. Esta nova ordenação global promete constituir uma drástica modificação das diversas indústrias, constituindo mais um marco na civilização humana para uma concentrada, e alargada, introdução da ciência, que poderá determinar também a redução da subjetividade e o menor recurso à ideologia pelas sociedades (essa dimensão será estudada pelos Sociólogos, Psicólogos, Antropólogos e outras disciplinas humanísticas).

Apesar de Portugal deter, no mundo, um dos maiores rácios de endividamento público, face à riqueza que gera num ano, e de registar uma contração da sua economia este ano e de manter a divergência com os restantes países da Zona Euro, a sua taxa de juro implícita nos dez anos atingiu valores negativos há dias. Este facto não deverá causar estranheza, atendendo que a taxa da Grécia, um país que reestruturou a sua dívida e penalizou as poupanças de muitos investidores, se encontra nos 0,60% e próxima da taxa italiana de 0,58%. Tal estimula a imaginação dos que não apreciam o mecanismo do euro, são críticos sistemáticos da evolução do projeto europeu e não observam virtudes nessa construção.

Teremos diversos efeitos e virtudes a marcar este final de ano, e na transição para o próximo, com abundância de recursos financeiros por largo tempo, mas saindo robustecidos com a enorme montanha de dívida com que vamos sair desta epidemia. Um aforrador avisado vai exigir cautela, e seletividade, nas alocações de risco para abandonar a zona de conforto, porque os ativos sem risco não possuem remuneração e em alguns casos é negativa.


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