João Queiroz: "Existe relevante espaço corretivo" nas ações

Apesar de ver espaço para uma correção nas bolsas, João Queiroz continua otimista para as ações, sobretudo das empresas que "lideram os setores que integram". Nas obrigações as perspetivas são mais pessimistas.
João Queiroz: "Existe relevante espaço corretivo" nas ações
Joaquim Norte de Sousa
Nuno Carregueiro 18 de novembro de 2019 às 12:00

O evento do jogo de Bolsa que vai na 17.ª edição atinge já uma maturidade robustecida por eventos de que são exemplos: os impactos pós-bolha tecnologia (ou "dot com"); a crise financeira e bancária de 2007; a crise das dívidas soberanas de 2010; a defesa do euro pelo presidente do BCE em 2012; a redução das empresas do PSI20 em 2014 (exemplos: BES, ESF; Portugal Telecom); e o Banif no final de 2015; tudo bem enquadrado num dos ciclos de valorização das ações que deverá ficar registado como dos mais prolongados.

 

Os participantes continuam a registar-se em número significativo e a dar relevância ao evento que anualmente se constitui como dos mais significativos/importantes dos mercados de capitais e que é composto pela conferência onde oradores relevantes (de renome) debatem e partilham importantes pontos de vista sobre a economia local e global, dando um riquíssimo enquadramento e perspetivas que não servem apenas a investidores, mas a todos os agentes económicos.

 

João Queiroz, diretor de banca online do Banco Carregosa, respondeu por e-mail a várias questões colocadas pelo Negócios sobre o atual momento dos mercados.

 

Os mercados acionistas negoceiam em máximos na Europa e EUA. Há espaço para mais ganhos? Ou será mais provável uma correção?

Maiores valorizações poderão ser mais difíceis sem um contexto de consolidação dos ganhos acumulados neste ano, apesar de em alguns setores e geografias podermos assistir a algum espaço de maior capitalização. A Ibéria parece ser um espaço de oportunidades e os serviços de comunicações parecem atrativos, mas já existem muitas avaliações que estão acima da atual realidade económico-financeira e a descontar um futuro muito mais construtivo que o atual. Assim, existindo um relevante espaço corretivo e para maior volatilidade dos preços para a média das empresas (Assim, um mercado que revela cada vez mais um potencial espaço para correções e crescente aumento da volatilidade das cotações em relação às médias das respetivas empresas, nos títulos/ações geradores de valor… ), nas empresa de valor (equilíbrio de Balanço e elevada geração de meios libertos), pode existir ainda espaço de valorização e de sincronização com o atual ciclo económico.

 

No final de 2018 as bolsas desceram de forma violenta. A próxima correção pode ser semelhante?

A correção verificada no último trimestre de 2018 baseou-se muito na ausência de um forte sinal da Fed que apenas ocorreu em 2019 com três subidas consecutivas das taxas de juros, a que se adicionou o tema da imposição das tarifas à segunda maior economia mundial, (a China), pela nação que lidera "ainda" o ranking das maiores, (os EUA). Neste período que decorreu temos novamente uma elevadíssima oferta monetária com taxas de juros em níveis muito baixos, sem ritmos de crescimento de preços e assíncronos com a maior empregabilidade, o que cria uma menor sensibilidade às incertezas que perduram e criam uma rede de segurança capaz de não alterar de forma significativa o apetite pelo risco.

 

Quais os fatores que terão maior preponderância na tendência dos mercados acionistas? 

Atualmente são as expectativas de taxas de juros, programas de recompras de ações próprias, operações de fusões e aquisições e políticas governamentais orçamentais e fiscais mais expansionistas. É notória a prevalência da atuação dos bancos centrais face às ausentes políticas dos Governos que não reestruturam os seus aparelhos, nem relevantes setores de atividade ou mesmo parecem estar preparados para significativas alterações de paradigmas como a recalibração da ordem mundial, pelo que vai ficando mais próximo o momento de se trocar de protagonista (o excesso de endividamento público não poderá ser um argumento de longo-prazo). Esta modificação é tão mais importante para a Europa (que tem de aprender a competir no espaço tecnológico com a China e os EUA) como para algumas economias emergentes ainda muito dependentes das exportações de matérias-primas.

 

Quais os eventos que poderão originar um "sell-off" nas bolsas?

Um hipotético surgimento de aceleração de preços como da energia, por via de uma crise de petróleo, ou uma forte correção das obrigações, que estão em máximos de 30 anos, poderia contaminar/penalizar e impactar negativamente as ações que valorizaram por serem uma importante alternativa na procura de rendimento (os dividendos tornaram-se importantes face às clássicas remunerações), mas este cenário parece mais um "cisne negro" quando estamos num contexto de "japonização" da economia global com redução das trocas e do fluxo do comércio internacional.

Seriam determinantes as surpresas negativas de incerteza que decorrem do rompimento do processo do Brexit, do diálogo entre as duas principais economias como China e EUA; e a Alemanha (1ª na Europa e 4ª mundial) tardar em implementar medidas expansionistas e que alterem a estrutura da sua economia por via da redução dos seus excedentes.

 

Em 2019 o PSI-20 apresenta desempenho inferior aos índices europeus. Pode inverter?

O conjunto do PSI20 dificilmente deverá conseguir obter igual rentabilidade acumulada mas existem setores e empresas que deverão conseguir superar as que lhes são comparáveis, porque as suas estratégias de internacionalização permanecem eficazes e apenas a sua dimensão impede a obtenção de uma maior liderança.

 

As obrigações soberanas europeias têm desvalorizado nas últimas semanas. As "yields" já não regressam a mínimos?

Se as políticas e instrumentos que estão em prática para recuperar a evolução dos preços e do crescimento económico se revelarem ineficazes poderemos voltar a revisitar aqueles mínimos em 2020, mas as expectativas de momento são de que apenas numa em situação/situações limite e extraordinárias nos conduziriam àquelas referências. O montante de endividamento no mundo é bastante elevado pelo que apesar do contexto de baixas taxas de juros e abrandamento económico, os investidores deverão ficar mais seletivos e criteriosos na concessão de crédito, o que tenderia a reduzir a pressão da procura, sobretudo nas emissões de maior prémio de risco.

 

Quais são as classes de ativos para as quais está mais otimista?

Mantenho o otimismo pelas ações de algumas empresas como as que lideram os setores que integram, que mantêm uma forte proposta de valor para o seus clientes, adequadas políticas sociais e sustentáveis, e margens de receitas como de lucros que lhes permite libertar recursos e meios para remunerar todos os stakeholders como colaboradores, fornecedores, consumidores, acionistas, obrigacionistas, …

 

E mais pessimista?

No que se refere às obrigações, porque possui relevante espaço das cotações ajustarem em baixa, em que é imperioso começar a existir mais critério que está difuso pelas baixas taxas de juros e na perspetiva de que se mantenham por um excessivo longo período prolongado de tempo (entre uma a duas décadas). Também mais conservador sobre setores de atividade cujas avaliações necessitam de estarem sincronizadas com o ciclo económico, com as suas margens de lucros e de geração de cash-flow.

 

Quais as perspetivas para o ouro e o petróleo?

A evolução da cotação do crude tende a estar muito correlacionado com os ciclos de abrandamento / aceleração do ritmo de crescimento económico, pontualmente ajustado por eventos geopolíticos, pelo que atendendo às revisões em baixa do crescimento económico global e os focos de tensão a que se assiste no médio oriente, não permitem alterar as atuais expectativas de que o crude WTI abandone o atual intervalo de variação entre os $ 50 a 60 / barril. A admissão à negociação das ações da maior petrolífera mundial – Saudi Aramco – deverá ter um impacto neutral neste específico.

O Ouro tende a estar mais dependente da evolução da inflação, que teima em não surgir, pelo que ficará mais dependente dos programas de compras dos Bancos Centrais da China e da Rússia pelas usuais operações de mercado conversão de USD e outras divisas.




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