Os riscos de um mercado feito por bancos centrais

Em termos de curto prazo, os riscos mais elevados são aqueles que têm um potencial de surpresa mais elevado. Por exemplo, com o Brexit já aconteceu de quase tudo, está quase tudo descontado porque talvez não haja nenhum evento que não tenha sido dissecado.
Os riscos de um mercado feito por bancos centrais
No painel "Tendências de Investimento" foram abordados temas como o Brexit e a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China.
Inês Gomes Lourenço
Filipe S. Fernandes 03 de abril de 2019 às 12:30

No curto prazo, "o mercado está sempre confiante que as coisas correm sempre bem, isto é, de que não haverá um hard Brexit, que vai hacer um acordo comercial entre a China e os Estados Unidos, de que não haverá o impeachment de Donald Trump, de que nas eleições europeias vai correr tudo bem", começou por dizer Filipe Garcia, economista, Informação Mercados Financeiros. Mas, cada um destes fatores, se correr mal, é, per si, "capaz de fazer descarrilar o comboio a curto prazo".

"Estritamente não temos de temer nada, mas de estudar mais para combater o medo porque a raiz do medo é a ignorância", disse Rui Alpalhão do departamento de Finança do ISCTE-IUL Business School e presidente executivo da FundBox SGFIM. Em termos de curto prazo, os riscos mais elevados são aqueles que têm um potencial de surpresa mais elevado. Por exemplo, com o Brexit já aconteceu de quase tudo, há quilos papel sobre o tema, "está quase tudo descontado porque talvez não haja nenhum evento que não tenha sido dissecado". O maior potencial de surpresa vem do conflito comercial entre a China e os Estados Unidos, "porque os agentes são imprevisíveis, de um lado, um opaco Comité Central e, do outro, o imprevisível Donald Trump".

O grande receio de João Duque, professor do ISEG, está ligado à tecnologia porque "hoje o mercado está assente sobre plataformas tecnológicas, a possibilidade de um evento que as possa colocar em causa, rasgar a estabilidade da base, acaba com o mercado num ai". Pode-se pensar que tem uma probabilidade muito baixa mas há um paralelismo que é o recente apagão energético na Venezuela. "Já tivemos um mas foi provocado por uma cegonha e a recuperação foi rápida", ironizou João Duque.

Barómetro americano

"Não sei quais são os sistemas nem a multiplicidade de sistemas de substituição que existem para as grandes instituições. Acredito, mas também acreditava que os auditores faziam a sua verificação quando foi o subprime. Há uma pressão grande para as empresas serem muito eficientes, que pode levar a corte de custos e o que, em caso de falha, poder levar ao desastre absoluto", concluiu João Duque.

Mário Carvalho Fernandes, diretor de investimentos do Banco Carregosa, partiu do mercado norte-americano como barómetro para referir que as grandes crises que em termos históricos afetaram a Bolsa tiveram "sempre origem em situações que impactaram nos Estados Unidos, que acabam assim por ser resilientes a todos os choques que acontecem um pouco por todo o Mundo, mesmo choques que ficaram na nossa memória como a crise financeira asiática em 1997-98 ou a crise soberana financeira na Europa". Os principais riscos de poderiam afetar S&P teriam de ter a sua génese nos EUA. Mas não se prevê um risco de recessão.

O maior potencial de surpresa vem do conflito comercial entre a China e os EUA porque os dois lados são imprevisíveis. De um lado, um opaco Comité Central e, do outro, o imprevisível Donald Trump. Rui Alpalhão
Departamento de Finança do ISCTE-IUL Business School


Em termos globais, a preocupação na Europa com o acentuado abrandamento da economia que se concentra muito na produção industrial da Alemanha e da Itália, que poderá estar relacionada com o setor automóvel, ao mesmo tempo que a queda da aquisição de automóveis na China, o maior mercado comercial de veículos novos, com o fim da subsidiação à compra de automóveis.

Filipe Garcia diz que, desde 2008, que tem sido um mercado de bancos centrais. O melhor exemplo foi em novembro e dezembro de 2018 em que, perante uma perspetiva de desaceleração económica e com quedas expressivas nos mercados, os bancos centrais responderam com a política monetária com o BCE a fazer saber que não vai aumentar as taxas de juro e a FED dando a entender que acabaria com o seu ciclo de contração monetária. Esta forma de os bancos centrais atenuarem os ciclos económicos tem um risco, que "é perder o controlo". Por isso, o maior risco é os "bancos centrais perderem a mão do mercado".

O peso do banco central

A longo prazo faz confusão a Rui Alpalhão, "o ganho de peso do banco central porque antigamente os balanços dos bancos centrais engordavam e emagreciam". Este ganho de peso é uma espécie de dopagem e, "por isso, seria de esperar que uma economia dopada corresse, mas não corre, a longo prazo parece-me inconsistente, a menos que a Europa se expanda muito para acomodar o tamanho do BCE". Rui Alpalhão é muito cético em relação ao controlo dos ciclos porque a "economia capitalista é cíclica, as alternativas ao capitalismo não são cíclicas, e combater o ciclo é uma coisa muito pouco fundamentada do ponto de vista teórico".

Os participantes

Moderada por André Veríssimo, diretor do Jornal de Negócios, a mesa-redonda, "Tendências de Investimento", contou com Filipe Garcia, economista e presidente da IMF, Informação de Mercados Financeiros, João Duque, professor no ISEG, Mário Carvalho Fernandes, diretor de Investimentos do Banco Carregosa, e Rui Alpalhão, professor no departamento de Finanças ISCTE-IUL Business School e presidente e administrador delegado da FundBox SGFIM.




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