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Jogo da Bolsa: Preços eficientes, competição e concorrência

Artigo de João Queiroz, Head of Trading do banco Carregosa

Negócios 21 de Novembro de 2022 às 15:00
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Na universidade e nas salas de mercados ouve-se muito a frase "se existisse eficiência de preços não haveria intermediários" e foi algo que acompanhou e enriqueceu a evolução de muitas gerações. O que esta frase tem subjacente é que a estrutura da sociedade e a dificuldade de ser humanamente impossível cobrir todas as dimensões relevantes da nossa existência levam-nos a efetuar "escolhas ótimas" que nos facilitem a troca do fruto do nosso esforço de trabalho, de produção intelectual, braçal, etc., por bens e serviços úteis que nos permitam uma vida digna e preenchida.

No ecossistema dos mercados financeiros, a par dos de energia e outros produtos tangíveis, parte-se da teoria de que "o preço eficiente dos bens & serviços se baseia na melhor informação disponível de forma generalizada para toda a sociedade", ou seja, ambas as teorias seriam simbióticas para serem eficientes. É um bom pressuposto não fosse o enviesamento, das "fake news", diferentes perceções para a mesma realidade, sistemas de tributários e jurídicos concorrenciais, que permitem diversas arbitragens para obter uma cotação, passando por diversos trajetos e percursos.

É o que se verifica atualmente também na intermediação de instrumentos financeiros, em que temos diversos modelos, como o clássico, em que se remunera a execução de uma ordem aplicando um preçário (para a maioria dos serviços), ou de uma forma mais agressiva "com custo zero" (diferente de comissão de corretagem zero mas com um encargo único por serviço). Atendendo que os intermediários têm de suportar estruturas e tecnologias para receber a ordem, garantir segurança em adequadas comunicações (com velocidade elevada e baixa latência), registar a operação, encontrar a parte contrária, liquidar física e financeiramente a operação, produzir estatísticas, responder aos órgãos de controlo & supervisão…, todo este circuito representa um encargo que o utilizador tem de pagar. Se no modelo clássico de aplicação do preçário, ao qual são deduzidos os custos e encargos, a transparência está lá, no modelo de "eu não pago comissões" não se assemelha possível, pois alguém terá de pagar a fatura.

Neste último valerá a pena despender umas letras: obviamente o utilizador do serviço vai pagar, ou com um preço pior do que o mercado está a praticar ou com um tempo de execução muito diferente dos padrões e boas práticas do setor, permitindo que em ambos o intermediário vá gerar a receita para não ter prejuízo e prosseguir o princípio de continuidade das operações. Mas ainda poderemos adicionar mais um enviesamento: se a jurisdição em que se encontra autoriza esse intermediário a receber contrapartida pela ordem do seu cliente, que atualmente apenas vigora para as empresas de direito alemão.

E agora fechamos o círculo voltando ao princípio: modelos sem encargos para o utilizador tendem a criar obstáculos e anulam a teoria dos preços eficientes atendendo aos diversos fatores atrás referidos, como adicionalmente (esta parte é a mais importante): 1. Não refletem nem geram naquele momento a melhor informação disponível; e 2. Não surgem num mercado transparente, pelo contrário, tornam-no mais opaco. Tal não cria um mercado concorrencial em que estaremos a licitar por um instrumento financeiro representativo de uma empresa ou fundo de investimento.

O modelo de "pagar pelo que se consome" parece ter mais racional porque: 1. As estatísticas de comparações efetuadas e publicadas pela regulação referem que a qualidade dos preços obtidos é pior; e 2. Os traders e investidores mais experientes utilizam mais os modelos de preços justos e transparentes enquanto que os investidores passivos tendem a selecionar os da "perceção que nada pagam". Qual é o seu modelo preferido?

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