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Renault Cacia "mete" nova velocidade em 2020

À fábrica da Renault não "chegava" uma nova caixa de velocidades há 20 anos. Em 2020, será a única do grupo a produzir a nova geração, sob um investimento de 100 milhões de euros.

Rute Barbedo | Paulo Duarte - fotografia 29 de Novembro de 2018 às 17:30
Paulo Duarte
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Todo o suposto caos que reina hoje na fábrica da Renault em Cacia é, afinal, uma operação organizada. Há máquinas de um lado para o outro, novas disposições nas linhas de produção e um vaivém de veículos autónomos a circular pela "auto-estrada", como lhe chamam os trabalhadores. Num movimento comum a outras indústrias, as tradicionais empilhadoras são substituídas por AGV (veículos guiados automatizados, na sigla em inglês), cujos sensores detectam a aproximação de qualquer ser humano ou objecto. Há 50 a circular na unidade e vão chegar mais 25.

Em Cacia, existem 1.043 trabalhadores (estando 700 na área de produção de caixas de velocidades), 670 máquinas e 67 robôs (quatro dos quais colaborativos, ou seja, que podem auxiliar directamente os trabalhadores nos seus movimentos). Todos se preparam para produzir, em exclusivo e a partir de 2020, a nova caixa de seis velocidades para a aliança Renault-Nissan-Mitsubishi (já depois da reportagem, a parceria entre as marcas foi abalada pela detenção e afastamento de Carlos Ghosn da presidência do conselho de administração da Nissan, no Japão, pela suspeita de ter ocultado o equivalente a 39 milhões de euros ao fisco). "Vamos ter uma caixa que vai pesar menos e vai fazer consumir menos, contribuindo para a redução das emissões de CO2", explica Michel Domingues, director da fábrica.


1.043
Trabalhadores
Mais de mil pessoas trabalham na fábrica de Cacia, 378 em regime temporário.

64%
Produção
A maioria das vendas deve-se às caixas JR, mas há outros componentes.

347
Facturação
A Renault Cacia facturou no ano passado 347 milhões de euros.



Em curso está um investimento de 100 milhões de euros (iniciado em 2017) que implica a chegada de 150 novos equipamentos. "Vão entrar novas máquinas de acabamento, de tratamento térmico, de rectificação, de rodagem, sobretudo para o pós-tratamento", enumera Manuel Brandão, gestor de projectos. Só o novo forno representa mais de 10% do orçamento. Em paralelo, está a ser construída uma central de fluídos, entre o edifício dos serviços administrativos e a área de produção. "De resto, a fábrica não aumenta", clarifica Michel Domingues. O objectivo do grupo é, aliás, manter o volume de produção, de trabalhadores e de negócios a partir de 2020. Mas, em 2019, é possível que a quantidade de peças a sair das linhas da fábrica diminua 10%, estima o responsável.


Entre 2013 e 2016, pelo contrário, a facturação registada na unidade aveirense subiu de 278 milhões para 313 milhões de euros, segundo os dados que a Informa D&B partilhou com o Negócios. E 2017 foi um ano recorde para a fábrica portuguesa, que facturou 347 milhões de euros. Praticamente toda a produção segue para o exterior, com Espanha na liderança (41%), França como segundo destino (24%) e Marrocos em terceiro lugar (16%).

3500 caixas por dia

Relatada, uma parte do processo de produção parece a natureza ao contrário, mas o director da fábrica está mesmo a falar de caixas de velocidades. "Temos cinco pinhões diferentes que depois são encaixados em cada árvore", diz Michel Domingues, que conta 20 anos de experiência no sector automóvel - antes das caixas de velocidade e bombas de óleo, passou pela ciência dos tubos de escape e assentos.

As pequenas peças vão-se encaixando nos interstícios de um corpo metálico e, no final, saem diariamente de Cacia 3500 caixas de velocidades JR e ND (esta última já em quantidades residuais), representando 64% do volume de vendas da fábrica. O restante deve-se às bombas de óleo (5%) - que são exclusivamente produzidas em Aveiro e entram em "mais de um terço dos carros hoje produzidos" - e outros componentes.

A fábrica da Renault de Cacia vai receber um investimento que permitirá produzir uma nova caixa de velocidade a partir de 2020. O investimento é de 100 milhões de euros.
A fábrica da Renault de Cacia vai receber um investimento que permitirá produzir uma nova caixa de velocidade a partir de 2020. O investimento é de 100 milhões de euros. Paulo Duarte

Numa fábrica com mais de 70 mil metros quadrados e mais de 1.000 trabalhadores, a pedra no sapato são os "enormes" consumos energéticos, reconhece o director. "A nossa energia eléctrica sofreu, este ano, um aumento de cerca de 25% e não podemos ter uma fábrica pensando que vamos gastar a mesma quantidade amanhã". Cacia está, assim, a tentar reduzir os consumos, através de medidas como a mudança para a tecnologia LED, que decorre até ao final do ano.

E será a fábrica de Aveiro, para sempre, uma produtora de caixas manuais de velocidades? "Alguém tem de o fazer e Cacia fá-lo bem", responde Michel Domingues. No complexo inaugurado em 1981, no entanto, já se fabricaram motores e chegou a existir um projecto de baterias, que em 2012 foi abortado. Produzi-las "teria sido óptimo", admite o director, mas as baterias seguiram para o Japão.


Perguntas a Michel Domingues
Director-geral da Renault Cacia

"Vamos crescer mas sem grande revolução"

Vão contratar mas mantêm "mais ou menos" o número total de trabalhadores. Vão ter novo equipamento mas sem ampliar as instalações. Vão produzir uma nova caixa de velocidades mas o volume de produção irá manter-se.

Que impacto terá no negócio esta nova produção?
O volume de caixas que iremos vender será basicamente igual. O que muda é que vamos ter mais cerca de 64% de [tipos de] peças. Portanto, isto representa um acréscimo de tecnologia. No volume de negócios, vamos crescer um bocadinho mas sem grande revolução.

Esta nova caixa de velocidades será produzida noutras fábricas do grupo?
Vamos ter a exclusividade mundial, pelo menos por enquanto. É uma grande responsabilidade, porque vamos produzir para vários países.

Este foi o ano em que produzimos mais caixas JR: cerca de 730 mil. MICHEL DOMINGUES
Directora-geral da Renault Cacia


Vão iniciar a produção em 2020. Até lá, serão meses de preparação?
Sim, mas sem perder uma caixa. Posso dizer que 2018 foi o ano em que produzimos mais caixas JR: cerca de 730 mil. E estamos já a preparar o futuro. Já mudámos, este Verão, cerca de 60 máquinas de lugar e não perdemos a produção de uma única caixa. E estaremos em mudanças até Março de 2020.

A nova caixa serve que tipo de veículos?
Vai entrar em veículos como o Clio, o Kadjar, o Capture, o Mégane, ou seja, toda a nova geração dos motores a gasolina, à volta dos 1.300 mm3.

Já antecipando o fim do gasóleo?

Podemos dizer isso. Mas se fosse preciso, a caixa também poderia ser usada em motores a gasóleo… Mas sim, o futuro próximo são, claramente, os carros a gasolina.

E os eléctricos…
Isso já é completamente diferente. A nossa fábrica está focada em caixas manuais.

A Renault Cacia será sempre a fábrica das caixas de velocidades?
Claramente, Cacia é boa no que faz. A caixa de velocidades manual vai acabar um dia mas não é para já. E temos um produto que tem uma duração de vida de 15 a 20 anos. Em paralelo, se continuarmos a fazer caixas de velocidades manuais boas, no futuro, que será mais híbrido e eléctrico, também teremos a oportunidade de fazer caixas, isto é, redutores [as "caixas de velocidades" dos veículos híbridos e eléctricos]. Eles também têm árvores, pinhões e 'carters'. Isso quer dizer que, se hoje Cacia consegue ser eficiente e provar que tem qualidade no que faz, no futuro, esses novos redutores poderão vir para cá. 

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