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Amtrol-Alfa: o "peso pesado" das bilhas de gás

A metalomecânica vimaranense é a maior exportadora mundial. Feita de braços musculosos, robôs que dançam e capital americano, a criadora da Pluma depende da inovação para sobreviver.

António Larguesa alarguesa@negocios.pt 30 de Junho de 2016 às 00:01
Paulo Duarte
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Na freguesia de Brito há sempre três bandeiras hasteadas: a "the stars and stripes" a recordar que desde 1997 os proprietários são os americanos da Amtrol; uma portuguesa para assinalar a equipa e gestão 100% nacionais; e outra, escolhida numa colecção de 120, para dar as boas-vindas aos estrangeiros de visita ao complexo de 25 mil metros quadrados e seis fábricas. A cada quatro segundos sai uma garrafa de gás das linhas de produção, o que faz desta metalomecânica a maior produtora europeia e a maior exportadora mundial do sector.

Com clientes numa centena de países e vendas regulares para 60, em 2015 a Amtrol-Alfa aumentou a facturação em 19%, para 86 milhões de euros. O GPL (propano e butano) é a utilização para 70% das garrafas, que vende a grandes empresas energéticas, como a Shell, Total, Cepsa, Galp, Repsol, Rubis ou Prio. O resto do negócio é direccionado para os gases técnicos e também os de alta pressão, que são usados, por exemplo, em hospitais, nas áreas industriais ou nas feiras para encher os balões de hélio.

A quota de exportação nunca sai do intervalo entre 93% e 97%. No último exercício surgiram Espanha, Inglaterra e França como melhores compradores europeus e Camarões, Angola e Kuwait na lista extra-comunitária. Mas a fatia que foi agora dos espanhóis, já foi noutros anos da Colômbia ou Polónia. "Quando as empresas decidem investir em garrafas de gás, compram muitas quantidades. Somos bons a agarrar essas oportunidades: surgem e temos de ser os primeiros a chegar lá", explica o administrador, Tiago Oliveira.

É o que vão fazer em 2017 na Rússia, "dos poucos países em que ainda não [estão]" e com tanto potencial como complexidade e barreiras à entrada de fornecedores estrangeiros. Sobre a internacionalização, o engenheiro mecânico, 48 anos, assegura que "olham várias vezes" para a hipótese, que "faria sentido" em África mas onde é "difícil fazer acontecer". Além disso, este produto é "difícil de descentralizar, pois os investimentos são grandes e o país tem de ter um mercado próprio suficientemente grande para absorver a produção pelo menos durante três anos".

Leve com peso

Para já, contam com os 600 trabalhadores dos quadros e 200 temporários que chamam quando há um pico de procura. O que ocupa seis centenas, há 15 anos ocupava 1.200 operários. A automação revolucionou esta indústria vizinha do rio Ave mas continua a "não [haver] margem para erro" na segurança. Além das certificações, há repetidas verificações de procedimentos. O trabalho é pesado e só começam a aparecer as mulheres quando se sobe na hierarquia.

É com discos de chapa de aço, cortados num armazém satélite e arrumados como gigantes moedas empilhadas, que arranca a produção em todas as linhas. Seja naquelas em que se sente o óleo debaixo dos sapatos e um calor sufoca; seja naquelas de materiais compósitos, que o gestor anuncia como "o século XXI" e em que os robôs dançam em movimentos repetidos com o "coração" das botijas.

Fundada em 1962 para fazer bombas de gasolina para a antiga Sacor, a Alfa manteve-se na esfera do Estado até ser comprada em 1990 pela concorrente Comanor (a quem se juntara anos antes para dar resposta a uma grande encomenda do Iraque). Além de aportarem capital, os americanos "nunca bloquearam as ideias inovadoras" que surgem nas reuniões quinzenais que juntam os departamentos da empresa, garante Oliveira.

Foi em 2003 que a inovação passou de incremental a radical. Os "cliques" foram o declínio das garrafas descartáveis – tinha motivado a compra pela Amtrol – e a busca por soluções leves que os clientes começavam a pedir. Em parceria com a Galp, criou então a Pluma, que em dois anos chegaria com estrondo ao mercado e até obrigou a construir uma fábrica de raiz.

As garrafas desenvolvidas a partir de 2005 valem hoje mais de metade das vendas e impediram que esta indústria vimaranense fosse "devorada por indianos e tailandeses". O anúncio publicitário em que uma jovem atraente carrega uma bilha com facilidade, trouxe notoriedade até a nível internacional, recorda o gestor, expressando, entre risos, um único lamento: "Infelizmente, a modelo nunca cá veio".

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