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Goucam entra nos EUA e na Alemanha

A Goucam é um dos maiores exportadores do concelho de Viseu, onde concentra o grosso do seu quadro de pessoal. Quase tudo o que produz é vendido fora de Portugal.

Maria Ana Barroso | Nuno André Ferreira - Fotografia 30 de Outubro de 2019 às 14:30
Nuno André Ferreira
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O CEO da Gouveia e Campos (Goucam), José Carlos Castanheira, não é propriamente aquilo que se poderia apelidar de um otimista. Há alguns anos, numa outra visita do Negócios a este grupo, o responsável temia já anos complicados, ainda não se sonhava com tempestades como o Brexit, as mudanças no xadrez político mundial ou mesmo a perspetiva de um regresso da crise económica.

O responsável defende, no entanto, que não se trata de ser pessimista mas sim daquilo que é a sua visão do que são os riscos da indústria têxtil. Este seu perfil mais conservador da gestão tem permitido à Goucam resistir às sucessivas instabilidades que vão afetando o setor. Até pela volatilidade existente. E dá um exemplo: "nós no ano passado chegámos a agosto a crescer muito. De agosto até ao final do ano foi muito complicado, perdemos o que tínhamos ganho até agosto e fechámos o ano a perder quase 10%. Este ano até junho estávamos abaixo do ano passado. E de repente começámos desde então a crescer porque felizmente estamos em contraciclo com o mercado". Este ano, o responsável conta registar algum crescimento mas prefere não fazer estimativas que possam não se confirmar.

Seja como for, estima que a indústria têxtil venha a ter grandes problemas a médio prazo por dificuldades em atrair mão de obra. Na indústria têxtil ganha-se por regra o salário mínimo mas "num centro comercial também e trabalha-se à noite e ao fim de semana". "O nosso maior concorrente nem é o salário. É a imagem".

Sempre que podemos compramos em Portugal embora em geral as compras sejam definidas pelos nossos clientes.

O nosso maior concorrente [para a angariação de mão de obra] nem é o salário. É a imagem.

Ainda assim, quando questionado sobre a razão de ser de não pagarem mais para compensar a falta de mão de obra disponível, o CEO da Goucam diz que não é possível. "Não digo que não pudéssemos até pagar um pouco mais durante alguns anos. Mas estamos ao sabor das oscilações do mercado e de quem são os nossos concorrentes", diz, o que significa que "sabemos perfeitamente que há anos bons e há anos menos bons" e que a política atual permite que, mesmo apesar das crises, não falhe o pagamento de salários e a manutenção de postos de trabalho.

Itália e EUA são os mercados mais recentes

Este ano a Goucam entrou em novos mercados, caso de Itália, da Alemanha e dos EUA. O primeiro não é prioritário, tendo a entrada ocorrido quase por acaso, porque lhes bateu à porta um cliente. Já no caso do mercado norte-americano, há muito que a empresa andava a estudá-lo. "Estamos neste momento com um cliente com pés para andar. E outro em perspetiva", adianta.
Nas unidades de Coimbrões, nos arredores de Viseu, trabalham quase apenas mulheres, divididas entre as que trabalham na elaboração de casacos e as que estão nas calças.
Nas unidades de Coimbrões, nos arredores de Viseu, trabalham quase apenas mulheres, divididas entre as que trabalham na elaboração de casacos e as que estão nas calças. Nuno André Ferreira
Seja como for, o principal mercado da Goucam é Espanha "de longe". A Inditex é um dos maiores clientes e dentro das várias marcas do gigante do vestuário a Massimo Dutti é a principal dos produtos feitos por este grupo português. "Nós trabalhamos com as melhores marcas espanholas", assegura, caso da Purificación García.

Vendem também para a Dinamarca, Inglaterra - "que vai decrescer porque temos um cliente que está muito assustado com o Brexit" - e França onde têm clientes mas que é um mercado "muito complicado e que não desenvolve".

Por oposição, a Goucam tem em Itália um dos seus principais fornecedores, juntamente com Portugal. "Sempre que podemos compramos em Portugal embora em geral as compras [de tecidos e outra matéria-prima] sejam definidas pelos nossos clientes", diz. E, em menor escala, a Turquia.



95%
Exportações
Quase tudo o que é produzido pela Goucam é vendido para fora do país.

400
Pessoas
Tem 400 pessoas, estando 270 em Viseu, 70 em Castelo Branco e o resto em Arganil.

2000
Peças
A Goucam produz cerca de mil calças e mil casacos diariamente.

13,7
Milhões de euros
O volume de negócios atingido no ano passado foi de 13,7 milhões de euros.


Em média, a Goucam produz 1000 casacos e 1000 calças por dia. Com mais de 40 anos de idade, a empresa mantém-se na mesma família. Este era um negócio dos sogros de José Carlos Castanheira que assumiu depois a gestão e já há alguns anos que também a filha, Ângela Castanheira, está na administração da empresa. O grupo está a ponderar a hipótese de investir numa nova unidade, algo que vai decidir até ao final do ano, mais evoluída tecnologicamente.

Quanto aos próximos tempos, o gestor mantém as preocupações e teme que venha aí uma nova crise mas que, ao contrário da de 2008, não afete só as classes mais baixas. "Agora pode vir de cima, o que significa que não existirá ninguém a puxar por nós", a fazer depois o processo de recuperação da economia.


Perguntas a José Carlos Castanheira
CEO da Goucam

"A Turquia e a Roménia são os maiores concorrentes"

O empresário explica os fatores que influenciam a competitividade de uma empresa nesta indústria e porque é tão grande a amplitude de preços finais praticados.

Num setor como o têxtil que foi tão afetado pela globalização, é da Ásia que vem a maior concorrência?
Os nossos concorrentes são locais de produção com salários muito mais baixos. No nosso setor e, em particular, no nosso nível de atividade e na maior parte das empresas que ainda existem em Portugal, concorre-se com o Leste da Europa e com a Turquia. A Turquia e a Roménia são neste momento os nossos principais concorrentes, nomeadamente pela via da desvalorização da moeda.

Tendo em conta que a competição é tão aguerrida nos custos de produção, não é por essa via que a Goucam tem vingado...
É. É muito importante neste negócio.

A ideia, porventura errada, que existe é que empresas de países pequenos como o nosso não conseguem competir por essa via, por faltar escala. E que é pela qualidade que se afirma.
Claro. Mas também no custo. Pode ter toda a qualidade do mundo. Se não tiver o custo correto, não vende a ninguém. Não tenhamos ilusões. Agora o que tentamos fazer é ter uma boa relação qualidade, custo e serviço. Os três são fundamentais. E, felizmente, temos clientes que privilegiam isso, mesmo quando a concorrência pela via do custo é maior.

Há um problema muito grande na indústria da moda que são os finais de época, as sobras.

É isso que vos permite vingar?
Há também o facto de a produção de proximidade ser cada vez mais uma opção. Há um problema muito grande que são os finais de época, as sobras. A proximidade da produção permite gerir melhor as entradas e as vendas e ter um preço médio ao longo da época mais próximo do preço pretendido inicialmente.

O que justifica as diferenças tão impressionantes por vezes de preços?
Há produtos de qualidade nas várias gamas de preços. Há produtos muito bons com preços baixos e produtos muito maus com preços altos. Nós nas mesmas linhas de produção fazemos da mesma maneira produtos para uma marca que vende um casaco ao público a 90 euros e outro idêntico que está à venda por 700. Muitas vezes é uma questão de "branding" e de custos para colocar os produtos no mercado. Neste setor como noutros.
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