Período excecional pede decisões excecionais

Um empresário pede “a suspensão do pagamento da Segurança Social para todas as empresas, a redução das obrigações fiscais e medidas de apoio à tesouraria” para se evitar uma crise social depois do controlo da pandemia da covid-19, que desde 2 de março fustiga Portugal
Período excecional pede decisões excecionais
Daniel Bessa sublinha que a duração desta crise é uma incógnita.
Inês Gomes Lourenço
Filipe S. Fernandes 26 de março de 2020 às 11:15
"Quem se sente mais responsável oscila entre a necessidade de ir dizendo que a situação é muito grave e a obrigação de não contribuir para criar um pânico exagerado que, além do mais, não resolverá coisa nenhuma", diz Daniel Bessa, professor catedrático jubilado da Faculdade de Economia do Porto e profundo conhecedor da economia das empresas. Acrescenta que "limito-me a dizer que não sei, que é grave, que poderá ser mesmo muito grave mas não quero, também por medo (e por me parecer inútil), estar a formular já previsões catastróficas.

As empresas vão reagindo aos sinais dos dias. O grupo Moldoeste, na área dos moldes, tem como principais clientes a indústria automóvel, tanto na área de injeção como dos moldes. "A decisão de formalização de encomendas adia-se, os pedidos de fornecimento de peças plásticas suspende-se, a dificuldade de adquirir determinada matéria-prima plástica começa a existir, os atrasos na entrega ou fornecimento começam a ficar condicionados", refere Pedro Rodrigues, CEO do Grupo Moldoeste. Acrescenta que como se trata "de atividades de capital intensivo e estruturas técnicas pesadas, qualquer quebra exige capacidade de liquidez para assegurar a estrutura fixa". Este gestor tem a esperança de que "no espaço de dois meses consigamos suster e controlar esta situação".

Contradições de negócio

"A atual situação pandémica é preocupante, com uma grande quebra de receção de encomendas e redução de quantidades e cancelamento de encomendas porque o consumo parou repentinamente e o poder de compra não vai ser o mesmo nos próximos tempos, refere Albano Miguel Fernandes, CEO da AMF Shoes, fundada em 1999.

Este empresário vive uma experiência contraditória num grupo com 200 trabalhadores. Por um lado a Aloft, empresa de solas que comprou em 2015, está praticamente parada, pois os grandes grupos de distribuição internacionais cancelaram as encomendas. Por outro lado, a AMF Shoes, que faz calçado técnico que tem um consumo lento e contínuo, ao contrário do calçado de moda, mantém a maior parte das encomendas e nestes primeiros 15 dias de março, o ritmo de crescimento ronda os 10%, mas Albano Miguel Fernandes admite que em abril e maio, mesmo no calçado técnico o consumo vai cair e o número de clientes será cada vez menor.

Diz que se vivemos um período excecional "também deveriam ser tomadas decisões excepcionais, tais como a suspensão do pagamento da Segurança Social para todas as empresas, a redução das obrigações fiscais e medidas de apoio à tesouraria". Refere ainda que têm de se preparar para as consequências sociais e para isso é necessário que se apoie as empresas nos próximos tempos após a crise, para evitar um desemprego massivo.

Não se sabe…

Às 22 horas de 16 de março de 2020 o grupo Plateform anunciou o encerramento dos seus 150 restaurantes "por tempo indeterminado", como medida de prevenção devido ao surto da covid-19. Incluíam-se os restaurantes como o Alma (Lisboa), de Henrique Sá Pessoa, com duas estrelas Michelin, as cadeias Vitaminas, Honorato ZeroZero e Wok to Walk. Como escreveu Rui Sanches, o proprietário, "não foi uma decisão fácil: levou tempo para considerar tudo o que estava em jogo, começando pelo bem-estar dos nossos quase 2000 funcionários e também dos nossos fornecedores e parceiros, sem jamais imaginar uma crise desta magnitude. Não poderíamos ter decidido o contrário: só assim é possível garantir a segurança total das nossas equipas e clientes, no momento a nossa prioridade mais elevada e absoluta".

Como diz Daniel Bessa, "não sabemos quanto tempo vai durar a crise em Portugal, nos países clientes, nos países fornecedores. Não sabemos quanto é que o PIB vai cair em cada um destes mercados. Não sabemos quanto é que as Finanças Públicas e a banca estarão em condições de aguentar, em função, desde logo, dos quadros regulatórios que hão de ser criados. Não sabemos como vão sair da crise os consumidores domésticos, os clientes externos, os investidores, etc.".

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