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Rui Constantino: “O fator mais determinante dos impactos é a duração da pandemia”

“O empresário português é resiliente e otimista, e anseia pela brevidade da ‘resolução’ da atual conjuntura e incertezas do mercado, para ultrapassar as dificuldades de planeamento da atividade”, assinala Rui Constantino, economista-chefe do Santander Portugal.

Filipe S. Fernandes 02 de Abril de 2020 às 13:45
Rui Constantino diz que esta crise exige uma enorme flexibilidade por parte das empresas.
Rui Constantino diz que esta crise exige uma enorme flexibilidade por parte das empresas. DR
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Quais têm sido os principais impactos na economia e no tecido empresarial da região provocados pela pandemia do Covid-19? 

Os dados em tempo real são muito limitados. Podemos destacar dois, o consumo de energia e as transações na rede Multibanco.

 

Ao nível do consumo de eletricidade, até 18 de março estava a crescer cerca de 4% face ao mesmo período de 2019 (dados da REN, ajustados de temperatura). Após essa data, regista uma contração de 7% face ao mesmo período de 2019, o que é bem sintomático da contração da atividade.

 

Também as transações por Multibanco, de acordo com os dados da SIBS, registam uma quebra de cerca de 50%, em número, mas com um aumento do valor médio de transação (+21%). No entanto, o valor total de pagamentos ter-se-á reduzido em 1/3.

 

As medidas de contenção implementadas têm impactos diferenciados por setor:

  • forte redução do Turismo, de forma transversal no País, mas com dinâmicas regionais distintas:
    1. Norte, Alentejo e Açores, onde o crescimento nos últimos anos foi superior ao da média nacional;
    2. Algarve e Madeira, fruto do peso que o setor tem nas economias regionais (24% e 14%, em termos de contributos para o VAB, e 20% e 12% para o emprego).
  • Redução da produção na indústria transformadora, de forma relativamente transversal:
    1. Perturbações nas cadeias globais de valor, pelas quarentenas na China, numa primeira vaga, e agora na Europa e economias desenvolvidas;
    2. Impactos dos encerramentos temporários de fábricas, de forma transversal, mas em especial as linhas de montagem do setor automóvel, igualmente com impacto mais visível sobre as exportações.
  • Esta evolução é uniforme ao longo do País, embora haja regiões em que, pelo maior peso do turismo e/ou indústria, por um lado, e de medidas de contenção mais forte, por outro (como Ovar, por exemplo), os efeitos podem ser mais fortes numa fase inicial.

 

Sendo relevante a profundidade do ajustamento, o fator mais determinante dos impactos a médio prazo decorre da duração da pandemia e das medidas de contenção.

 

Se o efeito for de curto prazo, maior será a capacidade de as PME ultrapassarem esta fase de forma bem-sucedida, considerando as medidas anunciadas recentemente.

 

De igual modo, a capacidade de transformação das empresas, na resposta aos desafios imediatos colocados pela pandemia, é um excelente sinal da sua resiliência e capacidade de adaptação a um entorno adverso.

 

Qual pode ser o efeito da aplicação das medidas de política pública, como as linhas de financiamento, a adiamento das obrigações fiscais, e do próprio sistema financeiro? 

As medidas são importantes, mas o seu efeito depende da duração da pandemia e das medidas de contenção.

 

Ou seja, assegurar a liquidez das empresas – e das famílias – é fundamental, para um choque profundo sobre a atividade e o rendimento, mas que se revele um choque de duração reduzida. Evitar que as empresas tenham pressão sobre a sua tesouraria, num momento de paragem temporária da atividade permite-lhes manter a operacionalidade, de forma que retomem a laboração, uma vez passada a fase de maior risco.

 

É necessário assegurar, de qualquer modo, um período de transição, para que as empresas não tenham um "súbito" regresso à normalidade em termos de encargos, enquanto em termos de atividade pode ser mais gradual.

 

Se o choque for mais prolongado, a perda de rendimento torna-se permanente e pode colocar em causa a sobrevivência do tecido empresarial. Neste campo, podem ser necessárias medidas adicionais, do ponto de vista fiscal, mas que deverão ser adotadas no conjunto da União Europeia / Zona Euro, já que a crise é comum a todo o espaço europeu, para não dizer mundial.

 

Apesar da incerteza, podemos dizer que haverá um regresso à "normalidade", com a recuperação da procura, por bens e serviços. Assim, a orientação das autoridades, em Portugal, como nos demais países, deverá ser a de assegurar que o tecido produtivo tem as condições para sobreviver a este choque significativo, e que, no futuro, estarão disponíveis para responder, como sempre o fizeram, às solicitações dos seus clientes.

 

Isso implica dois fatores essenciais: a manutenção da confiança dos agentes económicos e a manutenção dos postos de trabalho. Este é o desafio que se coloca.

 

O setor financeiro está a dar o seu contributo, destacando-se, entre outras medidas (i) a pronta disponibilidade para conceder as linhas de crédito anunciadas pelo Governo e (ii) o anúncio de moratórias sobre os empréstimos dos seus clientes, mesmo antes ainda da publicação do diploma governamental. No caso do Santander, com a particularidade de poder ser solicitada por todos os seus clientes (sujeitos a algumas condições), enquanto a moratória governamental tem um âmbito mais restrito.

 

Qual tem sido a resiliência do setor empresarial? Há alguns casos exemplares? 

A nível empresarial o impacto fez-se sentir de imediato, embora de forma diferenciada por setores de atividade. Contudo, importa recordar que, em resultado da crise financeira de 2008 e seguintes, uma parte do tecido empresarial português fortaleceu-se e está hoje mais sólido, com melhor autonomia financeira, e, em consequência, com mais capacidade para enfrentar um previsível período de recessão económica.

 

O empresário português é resiliente e otimista, e anseia pela brevidade da "resolução" da atual conjuntura e incertezas do mercado, para ultrapassar as dificuldades de planeamento da atividade. No imediato, esta crise exige, por parte das empresas, uma enorme flexibilidade e capacidade de ajustamento, sobretudo nos setores de atividade onde o impacto é mais evidente. As restrições a nível de mobilidade pessoal e comercial, geram nas empresas significativos constrangimentos e novos desafios a nível do restabelecimento das cadeias de abastecimento ou da própria procura, decorrente do previsível abrandamento das exportações, que afeta a economia como um todo.

 

Os impactos serão diferentes de setor para setor, mas assistimos já a empresas a implementarem novas soluções, quer em termos de flexibilização laboral, como por exemplo com a implementação do teletrabalho, quer em termos da própria atividade comercial com o foco na dinamização do negócio via plataformas digitais e no e-commerce (vendas online). Os setores tecnológicos, de media e das comunicações, viram reforçada a janela de oportunidade de crescimento, já que as empresas do setor são vitais para contribuir para a transformação digital das empresas, promover o comércio digital ou mesmo o entretenimento das famílias. Na área da restauração, dos setores mais afetados no imediato, muitos adaptaram-se e, à porta fechada, promovem a atividade através do take-away ou da utilização de plataformas digitais, para manter o maior volume de vendas possível. Empresas industriais readaptaram-se e estão a produzir, por exemplo, equipamento de proteção. O pequeno comércio demonstrou igualmente ser uma excelente alternativa ao grande retalho. Na hotelaria, existem casos de cedência gratuita das instalações para receber os profissionais de saúde requisitados pelo SNS para combater a severa crise de saúde pública.

 

Para exemplificar a capacidade de gestão das nossas empresas, apresentamos alguns casos exemplares que atestam as qualidades acima relatadas:

 

- No setor Agroalimentar, destacamos três bons exemplos. Primeiro, o de um jovem empresário que passou de vender microleafs e outros ingredientes gourmet a restaurantes para uma plataforma digital de takeaway de hortícolas e carne com entregas ao domicílio. Segundo, empresas de comércio especializado (como vinho) que relançaram a publicidade do seu negócio online com entregas ao domicílio. E por último, o caso dos agricultores que encaram com espírito de missão o cultivo para que o alimento não falte às populações.

 

- Na Hotelaria, multiplicam-se exemplos de resiliência e solidariedade. São muitos os hotéis que estão a alojar e a proporcionar momentos de recuperação a profissionais de saúde sem qualquer contrapartida financeira, contribuindo de forma decisiva para a causa comum.

 

- Na fileira do Têxtil, verificam-se exemplos de empresas que ajustaram a sua produção para produzir máscaras cirúrgicas, tão necessárias à contenção da proliferação da doença COVID-19.

 

- No setor da Economia Social, multiplicam-se os exemplos de grande sentido de missão e de responsabilidade, pois encontram-se na linha da frente da exposição ao "combate" desta pandemia. São pessoas com família que assumem com "amor e dever" o sentido patriótico de tratarem dos nossos (Pais, Avós, Filhos e Família). São muitos os que se voluntariam para ficar permanentemente nos lares, pernoitando inclusivamente em condições limitadas. É de sublinhar o espírito de solidariedade num setor que emprega 200.000 pessoas, em que mais de 50% usufrui do ordenado mínimo e no qual as direções das instituições não são remuneradas.

 

A dificuldade apela ao melhor que há em nós e, nestas circunstâncias extraordinárias, verificamos que o engenho e a capacidade humana são insuperáveis. Nestes tempos de dificuldade e incerteza, é francamente positivo verificar que existem bons exemplos de empresas que foram capazes de ajustar a atividade, apesar dos constrangimentos e da descrença geral. Estamos ainda numa fase inicial mas, com determinação e resiliência, as empresas serão capazes de superar uma crise, ainda sem fim anunciado. Tomemos, pois, como referência estes bons exemplos para nos dar esperança e nos fazer acreditar num futuro melhor.

 

Neste enquadramento, o Santander Portugal reforça o compromisso com as empresas portuguesas e está ao lado dos nossos Clientes, em todos os momentos.

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