O mundo digital exige líderes, não chefes

"Os principais instrumentos do mundo digital são os "servidores de carbono"; isto é, nós humanos. E quando os lideres não comandam as tropas na frente de batalha, são meros chefes. E o mundo não é compatível com chefes", refere José Tribolet.
O mundo digital exige líderes, não chefes
José Tribolet lembra que os principais instrumentos do mundo digital são os humanos.
Marta Poppe
Filipe S. Fernandes 22 de novembro de 2018 às 16:00
"A maior resistência à concepção e execução dos processos de transformação digital reside nas lideranças executivas de topo", diz José Tribolet, professor catedrático do Instituto Superior Técnico e presidente da comissão executiva do INESC. Refere-se nomeadamente às lideranças que "resistem culturalmente a esta dinâmica, não têm vivências reais e operacionais do que é estar e trabalhar numa organização digital, e que pensam que com bons consultores, que trazem excelente práticas nesta matéria, conseguirão transformar as suas empresas sem se transformarem a eles próprios".

Quando os líderes não comandam as tropas na frente de batalha, são meros chefes. E o mundo não é compatível com chefes. José Tribolet
Professor catedrático do Instituto Superior Técnico

Baseado na sua experiência de 20 anos, como investigador e professor, José Tribolet considera que "os principais instrumentos do mundo digital são os servidores de carbono"; isto é, nós humanos. E quando os líderes não comandam as tropas na frente de batalha, são meros chefes. E o mundo não é compatível com chefes!", sublinha com ênfase.

Por isso, o professor do Técnico propõe que nas próximas edições do Portugal Digital Awards se devia criar a categoria de "Best Digital Transformation Executive Leaders". Na sua opinião o seu reconhecimento e exemplo seriam inspiradores e acelerariam "a transformação mental dos nossos dirigentes organizacionais". Destaca, neste particular, os dirigentes da administração pública central e local, os dirigentes governamentais e da Assembleia da Republica, "a maioria dos quais precisa mesmo de ser transformados digitalmente, salvo notáveis e exemplares excepções", conclui.

Digitalização massiva

Na sua análise a transformação digital das organizações em Portugal, sejam empresas ou outras instituições e organizações, encontra-se em estados muito diferenciados, dependendo da sua maturidade, nas diversas dimensões relevantes para esta profunda transformação em curso.


A maioria das empresas está nas fases iniciais da digitalização massiva, sendo que não envolve à partida uma concepção estratégica holística. José Tribolet
Professor catedrático do Instituto Superior Técnico

José Tribolet observa que grande maioria das empresas está nas fases iniciais da "digitalização massiva", "sendo que, por falta de enquadramento metodológico e de preparação dos seus corpos dirigentes, não envolve à partida uma concepção estratégica holística e uma táctica de transformação progressiva e integrada que envolva mais do que tecnologias e processos digitais, a capacitação profunda e o envolvimento motivado dos seus colaboradores".

Este estado das coisas implica que a produção de resultados finais serão muito inferiores aos que poderiam ser alcançados se a transformação digital envolvesse as componentes adequadas, fosse progressiva, tivesse instrumentos de Governação claros e com poder real, e procurasse explicitar os benefícios esperados, medisse progressivamente os resultados, adaptasse dinamicamente as fases da transformação à capacidade real da organização as executar bem. Em resumo, "fosse um Processo de Transformação envolvente, aprendente, humilde e persistente".

As boas notícias para José Tribolet são a existência de muitos bons exemplos de processos de transformação em curso, em todos os sectores empresariais, em pequenas, médias e grandes empresas, e, até, na administração pública.

A surpresa na qualidade das start-ups

Para José Tribolet a iniciativa Portugal Digital Awards tem sido "um instrumento de aprendizagem colectiva, de captura e disseminação de conhecimento e de boas práticas extremamente valioso para Portugal".

Duas coisas o surpreenderam nesta edição. Por um lado, "o crescente impacto que algumas iniciativas estão a ter na transformação das suas organizações e na sua qualificação diferenciada nas prestações dos serviços que oferecem ao mercado". Em segundo lugar a qualidade das candidaturas de start-ups à categoria "Best Digital Idea". Considera que é um conjunto notável de propostas de valor baseadas no digital. Afirma que, como membro do júri, "a simples análise permitiu-me tomar conhecimento dos seus conteúdos e maturidade que dificilmente poderia adquirir sem grande investimento pessoal de pesquisa". Na sua opinião, "este contributo do Portugal Digital Awards ir-se-á revelar cada vez mais relevante no futuro, quer para os empreendedores, quer para os potenciais clientes destas novas ofertas.




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