Mercado interno reduzido incentiva internacionalização

Portugal tem falta de capital, e para atrair investidores menos exigentes na rentabilidade seria necessária estabilidade dos regimes tributário, regulatório e legislativo, refere Ivo Faria da PwC.
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Filipe S. Fernandes 16 de maio de 2018 às 10:55

"A reduzida dimensão do nosso mercado interno, ao contrário de representar uma limitação ao desenvolvimento dos negócios, tem constituído um forte incentivo à capacidade empreendedora dos nossos empresários, motivando-os na procura de soluções de integração dos produtos em mercados externos de maior dimensão", diz Ivo Faria, Advisory Lead Partner da PwC.
É membro do Territory Leadership Team e sócio da área de Transacções, com experiência internacional na Europa, Brasil, EUA e Angola. Na PwC desde 1997, quando terminou a sua licenciatura na Faculdade de Economia do Porto, tem liderado múltiplos projectos de due diligence financeiro, estudos de viabilidade, projectos de investimento, reestruturação e análise financeira, avaliações e corporate finance.
Fez formações avançadas na Kellogg School of Management em Chicago, na Hong Kong School of Business e na Universidade Católica. Escuteiro desde 1979, Ivo Faria é, desde Janeiro de 2017, chefe nacional do Corpo Nacional de Escutas.
Portugal é um bom sítio para investir. Tem como foco o seu mercado? O seu mercado interno ainda é apetecível, além dos negócios no turismo e imobiliário?
Estou convencido de que sim. O nosso país tem recursos humanos bastante qualificados, tem tido estabilidade política nos últimos anos e goza de um tecido empresarial com unidades industriais com elevado nível de capacidade produtiva, soluções inovadoras e uma forte capacidade de adaptação aos desafios do mercado.
A reduzida dimensão do nosso mercado interno, ao contrário de representar uma limitação ao desenvolvimento dos negócios, tem constituído um forte incentivo à capacidade empreendedora dos nossos empresários, motivando-os na procura de soluções de integração dos produtos em mercados externos de maior dimensão.
Quais são as principais oportunidades e os principais riscos?
As principais oportunidades são, na minha opinião, na produção de bens com especificação técnica e tecnológica, com base numa capacitação técnica humana que as nossas universidades e centros de investigação científica conferem, complementado por um sentido apurado de captura de oportunidades de negócio que uma nova geração de empresários aporta para a nossa economia.
Os principais riscos tendem para a excessiva incerteza em alguns factores de sucesso, como seja a estabilidade legislativa, principalmente ao nível da tributação, quer do rendimento do trabalho quer do rendimento de capital.
Por outro lado, a insuficiência de recursos financeiros para o investimento, no contexto de uma maturidade relativamente elevada do perfil de retorno, afasta investidores que dêem preferência a retornos com um perfil de prazos mais reduzidos (consistentes com maior instabilidade e maior risco).
Para atrair investidores menos exigentes, em termos de taxas de rentabilidade, seria necessária uma maior estabilidade dos factores críticos de contexto (regimes tributários, regulatório e legislativos, etc.).
Quais são os principais factores de atracção que Portugal tem para investimento, sobretudo estrangeiro, tendo em vista tanto o mercado interno como a exportação?
Penso que um desses factores de atracção é, sem dúvida, a qualificação dos nossos recursos humanos, bem como a sua capacidade de perseverar, esforço e dedicação, adaptabilidade e escalabilidade.
O nível da nossa integração nos mercados internacionais constitui um outro elemento relevante, dado que a nossa cultura, bastante aberta ao exterior, funciona muito bem com a necessidade de integrar capacidades e recursos com empresas situadas em várias nações.
O facto de o nosso tecido empresarial estar relativamente aberto ao investimento, constitui um forte incentivo, dada a relação entre a oferta de capital, restrita, ao nível interno, e a maior disponibilidade que o mercado internacional de investimento oferece.
Por fim, existem muitas unidades empresariais com desafios ao nível da sucessão dos empresários, fundadores dos negócios, que constitui uma oportunidade interessante de investimento para novos investidores, financeiros ou de negócio.

Em alguns sectores e áreas do país, começa a sentir-se escassez de mão-de-obra qualificada. Penso que será necessário investir na requalificação da nossa mão-de-obra, que permita a sua transferência para sectores mais activos. Ivo Faria
Advisory Lead Partner da PwC 

E quais são os factores mais preocupantes para o investimento? A falta de mão-de-obra? Os custos de contexto?
Em alguns sectores e áreas do país, começa a sentir-se escassez de mão-de-obra qualificada. Penso que será necessário investir na requalificação da nossa mão-de-obra, que permita a sua transferência para sectores mais activos.
A modernização do sector público administrativo é uma área na qual considero que temos feito um percurso notável, mas que está ainda muito aquém do nível desejável de digitalização que permita ganhos indirectos de eficiência para as empresas.
A educação dos nossos jovens carece também de uma evolução substancial, no sentido de preparar as novas gerações para a revolução industrial 4.0 que está em curso, que vai pressionar a escola a formar competências e não apenas conhecimentos.
O sector financeiro (bancos e seguros), as principais empresas como a EDP, a PT, a Nos, a TAP entre outras, são controladas por estrangeiros ou têm uma forte componente internacional. Quais podem ser as consequências para o futuro? Podem induzir o crescimento da mesma forma?
Penso que sim, que poderá induzir crescimento. Por um lado, pela integração de oportunidades de negócio noutros países e mercados. Já não é tão verdade como era no passado que as empresas referidas acima, servindo ou oferecendo produtos essencialmente vocacionados para o sector doméstico, tratando-se de bens não transaccionáveis, não consigam crescer de forma significativa... principalmente aproveitando oportunidades em outros mercados geográficos.
O nível de abertura que o nosso país sempre teve ao exterior foi sempre uma forte motivação para o desenvolvimento e para a exploração de novas oportunidades.
Indicadores-chave
O peso do investimento na economia portuguesa é o segundo mais baixo da União Europeia. O investimento directo estrangeiro corresponde a 61% do PIB.
Investimento
Em 2017, o peso do investimento na economia portuguesa é o segundo mais baixo da União Europeia, segundo os dados do Eurostat. Correspondeu a 16,2% do PIB português, mais 0,9 pontos percentuais do que em 2016. Este é o nível mais elevado desde 2011, quando atingiu os 18,4%. Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), o investimento (8,4%) aumentou a um ritmo superior do que o PIB (2,7%) no total do ano. Em 2017 deu-se o maior crescimento do investimento desde 1998, num valor de 31,1 mil milhões de euros, mais 2,9 mil milhões do que em 2016. O grosso do investimento é privado (27,7 mil milhões), e apenas 3,4 mil milhões de euros são investimento público.
Investimento estrangeiro
Com excepção de 2011, ano em que se deu a intervenção da troika, desde 2008 que o investimento directo estrangeiro tem vindo a subir no país, atingindo em junho deste ano 119 mil milhões de euros. Entre 2008 e metade de 2017 cresceu 56,6%, segundo um estudo de Rita Tavares da Silva, publicado pelo gabinete de estudos (GEE) do Ministério da Economia.
Na comparação com outros países da zona euro, verifica-se que o investimento estrangeiro directo em Portugal é correspondente a 61% do produto Interno Bruto (PIB) segundo dados de 2015, numa taxa muito superior à de Espanha (47%), França (29%), Alemanha (26%) ou Itália (20%).
Crescimento do PIB
Em 2017 a economia portuguesa cresceu 2,7% mais 1,2 pontos percentuais que o verificado no ano anterior, segundo o Instituto Nacional de Estatística. Esta evolução resultou do aumento do contributo da procura interna, reflectindo principalmente a aceleração do Investimento, uma vez que a procura externa líquida apresentou um contributo idêntico ao registado em 2016. Foi o crescimento mais elevado desde 2000, sendo que esse ano a economia subiu 3,8%.
O investimento directo estrangeiro em Portugal tem vindo a subir desde 2008. Até Junho deste ano atingiu 119 mil milhões de euros. 

Emprego
Taxa de desemprego de 2017 caiu para 8,9%, 2,2 pontos percentuais do que em 2016, segundo o INE. A taxa de desemprego de jovens (15 a 24 anos) situou-se em 23,9% em 2017, menos 4,1 p.p. em relação ao ano anterior. A população empregada em 207 estima-se em 4 756,6 mil pessoas e aumentou, num ano, 3,3% (mais 151,4 mil). A taxa de actividade da população em idade activa situou-se em 59%, valor superior em 0,5 p.p. ao de 2016. A população desempregada estimada era de 462,8 mil pessoas em 2017.
Exportações
As exportações portuguesas atingiram 42% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2017. O Governo tem como objectivo que as exportações tenham um peso de 50% no PIB até 2025. As projecções do Banco de Portugal para 2020 apontam para um valor inferior no entanto assinalam que "em 2020, as exportações deverão atingir um nível 68% superior ao registado em 2008".

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