TMG Automotive, o poder da inovação

A maior empresa do Grupo TMG tem 19 patentes, algumas partilhadas como clientes como a BMW, a Daimler e a Toyota e 33 patentes registadas em parceria com universidade e institutos portugueses. "Nos próximos anos, aparecerão produtos interessantes, alguns focados nas novas tendências da mobilidade", antecipa Isabel Furtado, CEO da TMG Automotive.
TOZE Canaveira
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Filipe S. Fernandes 20 de junho de 2018 às 11:40

Em 2008 quando Isabel Furtado chegou à liderança da TMG Automotive, esta facturava menos de 20 milhões de euros, estava a meio de um investimento de 30 milhões e embateu de frente na crise económica e financeira mundial em 2008. A produção automóvel caiu a pique e passou de 73 milhões de automóveis em 2008 para 61 milhões em 2009. Em 2017 a produção ficou próxima dos cem milhões.
Nesta crise de 2008, a maior dificuldade foi manter o sangue-frio e não vender os activos. "Foi necessária paciência e resiliência, que, por vezes, é tão necessária em gestão. Aproveitou-se a capacidade produtiva existente, e na altura sub-ocupada, para aumentar a experimentação e aprofundar o conhecimento dos produtos e processos a todos os níveis", como explica Isabel Furtado. Isto permitiu "que após a crise estivéssemos preparados para um time-to-market rapidíssimo, usando a flexibilidade criada, e retomar as oportunidades que surgiram. Se assim não tivesse sido, muito dificilmente teríamos atingido a posição actual", relembra Isabel Furtado.
A TMG Automotive é, por natureza do seu negócio core, um fornecedor Tier 2, ou seja, tem como clientes os fornecedores da indústria automóvel. A aposta foi ter inovação e produto para subir na cadeia de valor e ser nomeada directamente pelas OEM (Original Equipment Manufacturer). "Permitiu uma maior antecipação no negócio, um relacionamento mais estreito com o cliente e a possibilidade de maior inovação, pelo simples facto de estar incluída desde o início no desenvolvimento dos materiais para o automóvel e na definição de tendências. Acontece assim com a BMW, Daimler, Volvo, Porsche, Jaguar...", refere Isabel Furtado.
Patentes e produção
Admite que o facto de trabalhar directamente com as OEM na fase inicial dos projectos, permite escalar na apresentação de ideias, em produtos inovadores e em patentes. "De momento, temos 19 patentes, algumas com os clientes, como é o caso da BMW, Daimler e Toyota. Nos próximos anos, aparecerão produtos interessantes, alguns focados nas novas tendências da mobilidade", sublinha Isabel Furtado. Além disso, a TMG Automotive tem 3 patentes registadas em parceria com universidades e institutos portugueses.

Nos próximos anos, aparecerão produtos interessantes, alguns focados nas novas tendências da mobilidade.
Foi necessária paciência e resiliência, que, por vezes, é tão necessária em gestão. Aproveitou-se a capacidade produtiva existente, e na altura sub-ocupada, para aumentar a experimentação e aprofundar o conhecimento dos produtos e processos a todos os níveis. 
Isabel Furtado
CEO da TMG Automotive 

Os produtos da TMG são, por exemplo, têxteis técnicos capazes de resistir sem desbotar aos 80º graus centígrados do deserto na Arábia Saudita e aos 50 º negativos da Sibéria , ou como o PVU que, utilizado nos interiores dos automóveis da Daimler e da Toyota, que está à prova de todos o tipo de suores (sintéticos, ácidos ou alcalinos), ketchup ou produtos solares.
No entanto a TMG continua a ser fornecedor nomeado pelos Tier 1 (fornecedores directos das OEM) como a Faurecia, a Lear e Johnson Control, que fornecem a Opel, Toyota entre outros, onde há menor necessidade de inovação, mas mais pressão no preço. "Tratando-se de plataformas globais, as quantidades por artigo são mais atractivas, o que é um factor muito importante na indústria transformadora", referiu Isabel Furtado.
China e EUA
Em 2009, os três maiores clientes eram a Opel (27%), Toyota (24%) e KIA (11%) e a TMG Automotive facturava pouco mais de 19 milhões de euros. Em 2017 facturou cinco vezes mais e os maiores clientes são a BMW e a Mercedes com 55%, seguidos pela Volvo Cars e marcas como a Jaguar, Porsche ou Maseratti.
A TMG Automotive exporta 99% da sua produção, destinando-se 85% das exportações para a Europa e cerca de 9% para China. Ainda não estão a produzir na China, mas "este mercado, assim como o mercado Norte Americano tem de estar, claramente, no radar de objectivos a concretizar se quisermos ser um parceiro global dos nossos clientes europeus que, também eles, por inerência do mercado, são globais", refere Isabel Furtado.
A 31 dezembro de 2017, contava com 550 trabalhadores, mas actualmente, com o arranque da nova unidade de fabril, são 614. Isabel Furtado assinala que as mulheres predominam nos quadros superiores, o que é invulgar numa empresa industrial do ramo automóvel. Dos 77 colaboradores com ensino superior (licenciatura, mestrados e 4 doutorados), 45 são mulheres.
3 Perguntas a Isabel Furtado CEO da TMG Automotive
"A TMG Automotive passou de smart follower a trend-setter"
Isabel Furtado nasceu em Famalicão em 25 de junho de 1961, é neta de Manuel Gonçalves, fundador da TMG. Licenciada em Economia pela Universidade de Manchester, com especialização em Tecnologia Têxtil. No Verão Quente de 1975, com a ocupação da Têxtil Manuel Gonçalves, a mãe, Maria Helena Gonçalves foi para o Canadá, fixando-se durante três anos no Canadá. Depois Isabel estudou em Inglaterra. Entrou para a TMG em 1985, que lidera desde 2008. Tomou posse recentemente como presidente da Cotec, a primeira mulher a ocupar o cargo.
Quais são as perspectivas da TMG Automotive nos próximos cinco anos?
Assumindo que não haverá surpresas com impactos económico-financeiros globais de maior gravidade, a perspectiva é de continuar a crescer de forma constante e sustentada. Ultrapassada a barreira dos 100 milhões, o objectivo é de aumentar a posição nos actuais clientes com novos modelos e, em simultâneo, alargar a base a novos clientes.
Temos uma grande dificuldade em encontrar mão-de-obra disponível para a nova fábrica. Isabel Furtado
CEO da TMG Automotive

Quais foram os momentos mais difíceis da TMG Automotive?
Francamente falando, o actual. Internamente, em 2017 foi atingida a capacidade máxima na fábrica existente e foi feita a extensão da capacidade produtiva numa nova unidade industrial, inaugurada em janeiro de 2018, um investimento de 60 milhões de euros. Mas deparamos com uma grande dificuldade em encontrar mão-de-obra disponível, quer ao nível de chão de fábrica, quer ao nível de engenharia. Acresce a esta dificuldade, os longos períodos de formação, que nesta indústria é bastante relevante.
Externamente, o mercado geograficamente é cada vez mais disperso, o que nos obriga a uma mudança e adequação às realidades locais, quer nos aspectos comerciais, quer nos aspectos de gestão.
Quais foram os factores chave para a TMG se afirmar?
Sem qualquer dúvida e, em primeiro lugar, as pessoas. Em segundo, a estratégia que definimos para a empresa, baseada no conhecimento do negócio. Este feito de vigilância permanente e assertiva do negócio automóvel e da forma como se movem os players, aliado ao conhecimento tecnológico, quer a nível de engenharia de produto quer a nível de processos industriais.
Com as pessoas certas, a tecnologia de ponta e uma estratégia bem focada, foi possível produzir com acrescido grau de diferenciação e mais inovação nos produtos e processos. Isto resultou num maior valor acrescentado, tornando a empresa mais competitiva e sobretudo com notoriedade na indústria automóvel. Em alguns anos, a TMG Automotive passou de "smart follower" a "trend-setter". 

O grupo TMG

Esta área de negócios começou a germinar quando, nos anos 1960, a Têxtil Manuel Gonçalves, fundada em 1937, começou a fazer tecidos plastificados e telas para oleados e tendas militares. Como a tecnologia de plásticos era incipiente em Portugal, Manuel Gonçalves (1914-1998) contratou um engenheiro na Catalunha. Em 1971 a TMG forneceu assentos para a marca SAAB Monaco, a que se juntou já no fim da década de 70, a Volvo.
Em 1986 o grupo reorganizou a sua fileira têxtil, verticalizando por áreas, e nasceu a TMG Automóvel. No virar do milénio especializou-se na indústria automóvel, mas ainda fez sacos de golfe, telas e balões insufláveis como a piscina do Fluvial no Porto até 2004/2005, quando se passou a denominar TMG Automotive.
A TMG foi accionista de referência do BCP, em que o tio, António Gonçalves foi durante anos o presidente do Conselho Superior, e do Grupo Espírito Santo. Já no século XXI diversificou negócios com a Lightning Bolt, a HeliPortugal, em parceria com Pedro Silveira do Grupo Sil, a produção de energia hídrica e de cogeração, as Caves Transmontana e a Casa de Compostela, e tem 14% da Efacec Power Solutions, detida em 72% pela Winterfell, controlada pela empresária Isabel dos Santos e em 14% pelo Grupo José de Mello.
Em 2017 actividade têxtil da TMG Tecidos e a TMG Malhas, e comercial Lightning Bolt, facturam cerca 41 milhões de euros e contam com 550 pessoas. 


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