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Pastelaria Fabridoce: Fios compensam veto burocrático à exportação de ovos moles

A maior fabricante de ovos moles de Aveiro espera há três anos a autorização da técnica de ultracongelação para aumentar as vendas no exterior, que já valem 20% do negócio.

António Larguesa alarguesa@negocios.pt 09 de Fevereiro de 2015 às 11:38
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Rui Miguel Almeida, formado em Engenharia Informática, assumiu aos 32 anos a direcção da empresa de Cacia.

 


Os fios de ovos estão a adoçar o negócio da Fabridoce em Espanha, onde a empresa de Aveiro está a "roubar alguma quota de mercado" aos fabricantes locais. As 1.400 lojas da rede Mercadona, o El Corte Inglés e o Lidl são os maiores clientes dos "huevos hilados" no país vizinho e representam o grosso das exportações da firma especializada em doçaria conventual, que garante 20% do negócio no exterior.


Além dos fios de ovos, também os ovos moles, pão-de-ló, trouxas, lampreias e castanhas de ovos produzidos na fábrica de Cacia ultrapassam as fronteiras rumo ao "mercado da saudade". São sobretudo os emigrantes em França, Luxemburgo, Bélgica, Holanda, Inglaterra - agora também em Angola e Moçambique, para onde segue por via aérea - os principais consumidores externos da gama conventual. "Os nossos produtos são demasiado portugueses. Além de haver pouco conhecimento sobre eles lá fora, têm um paladar muito próprio", detalha o director-geral, Rui Miguel Almeida.


Dentro dessas limitações - "um alemão ou um chinês come ovos moles e até lhe começa a crescer cabelo", brinca o gestor -, alargar a base da exportação para o Brasil é uma aposta da Fabridoce, que emprega 40 trabalhadores fixos. É do outro lado do Atlântico, sobretudo no Sul, que há "real potencial de consumo da doçaria portuguesa". Os argumentos são históricos, mas também o "paladar doce" do brasileiro. As "brutais" barreiras à entrada de produtos com matéria-prima animal são ainda um obstáculo. "Põe barreiras à entrada de doces com ovos cozidos e mandam para cá carne fresca", ironiza.

 

No Brasil há  "real potencial de consumo" da doçaria nacional, mas tem "brutais barreiras" à entrada.


Banho-maria comunitário
Há outro "travo amargo" para o maior fabricante de ovos moles: o prazo de validade de apenas 15 dias dificulta a exportação deste produto com certificação IGP (Indicação Geográfica Protegida). Um estudo da Universidade de Aveiro, para a associação de produtores locais, provou que as características não são afectadas pela ultracongelação, que alargaria a validade para seis meses.


No entanto, a alteração do caderno para incluir a rubrica da ultracongelação, e assim potenciar a exportação, está em "banho-maria" há três anos, explica Almeida. "Ainda não temos autorização. Colocámos o processo na Direcção-geral de Alimentação e Veterinária, que enviou para a União Europeia e a coisa tem andado ali embrulhada em burocracias. Porque falta uma frase, falta não sei quê, falta sempre mais qualquer coisa. E de cada vez que vai [a Bruxelas] são mais seis meses. Enfim, é o que temos", desabafa o empresário.


A Fabridoce fechou 2014 com uma facturação de 3,5 milhões de euros, metade assegurados pelo conventual: os fios de ovos são os mais vendidos e os ovos moles valem 15% do total. O crescimento homólogo de 15% deveu-se sobretudo à gelataria que abriu em Aveiro e à gama de gelados de sabores típicos nacionais, que juntou no ano passado ao portefólio - inclui também uma gama de pastéis e outra de biscoitos - e direccionou para o canal turístico.

 

 

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Perguntas a Rui Almeida
Director-geral da Fabridoce


"Aprendi a ser empresário numa empresa falida"


Rui Almeida alterou os processos da fábrica para produzir mais com menos custos, reduziu o número de gamas e mudou a embalagem por causa da imagem e validade.


Como é que um engenheiro informático, que trabalhava na Vodafone, entra nesta empresa?
Quando veio de Angola, o meu pai criou um negócio de distribuição de ovos e era fornecedor da empresa. Depois as coisas começaram a andar um bocadinho torcidas e em 2002 o meu pai fica com isto por causa das dívidas [era credor], juntamente com outro sócio. O meu pai pensava que isto estava de uma maneira e afinal estava de outra. Em 2004, comprei a quota desse sócio e vim para cá aprender a ser empresário numa empresa falida, com três milhões de euros de passivo, o que é sempre uma coisa interessante. Na altura eu tinha 32 anos e quase não sabia assinar um cheque. Enfim, foram uns três meses iniciais muito mal dormidos. Não há cursos de empresário!


Teve de aprender com a prática.
Sim. E perceber onde estava o problema, que era basicamente na produção, para o atacar. Aí utilizei realmente alguns conhecimentos de engenharia que me deram muito jeito. Não alterámos a receita - para se ter um produto final de excelência não se pode aldrabar na matéria-prima -, mas mudámos alguns processos. Éramos uma empresa grande, mas com processos de fabrico iguais a quem faz [muito menos quantidade]. Fazíamos 400 quilos de ovos moles exactamente da mesma forma de quem faz 20. Em muitos casos tivemos de inventar as máquinas, pois não há máquinas para fazer ovos moles, fios de ovos ou pães-de-ló.


E quais foram os efeitos?
Conseguimos produzir mais com menos custos, aumentámos a capacidade de produção. Depois reduzimos também o número de produtos, concentrámo-nos nas gamas em que éramos melhores, melhorámos a imagem das embalagens e adoptámos tipos de embalamento que permitiram aumentar a validade do produto, sem juntar conservantes. 

 

Aos 32 anos, mal sabia assinar um cheque, tornou-se dono da firma com três milhões de passivo.

 

 

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Notas rápidas


Clientes grandes e concorrência indirecta


Dos hipermercados às áreas de serviço
Os maiores clientes são da grande distribuição, tem alguns distribuidores, nomeadamente para o canal Horeca, duas lojas em Aveiro e trabalha directamente com outros, como lojas de aeroporto, "gourmet" e áreas de serviço.


Do Ferrero Rocherao doce de Alfeizerão
Os concorrentes são indirectos, já que não há outras firmas a fabricar 500 quilos de ovos moles/dia. Mas se comprar Ferrero Rocher não compra ovos moles; ou se comprar pão-de-ló de Alfeizerão não come o de Ovar, apontou o gestor.

 

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