Outros sites Cofina
Notícia

Passos: "Instabilidade governativa é um risco grande para o país e não o devíamos correr"

Pedro Passos Coelho veio à Redacção Aberta “sem respostas preparadas para perguntas de algibeira”. “Por acaso não disse isso”, retorquiu com ironia, quando confrontado com a hashtag “por acaso foi ideia minha”, que tomou conta das redes sociais, quando disse ter contribuído para a solução do impasse grego. De seguida contou a história. Toda. Durante 1h50, o líder do PSD explicou porque é que quer uma maioria absoluta, disse que a dívida é sustentável e mostrou-se preocupado com a CGD.

Negócios 30 de Julho de 2015 às 00:01
Miguel Baltazar
  • Assine já 1€/1 mês
  • ...

Pedro Passos Coelho considera sensato o aviso lançado pelo Presidente da República de que Portugal deve ter um governo maioritário. Na declaração ao país, em que marcou as eleições legislativas para 4 de Outubro de 2015, Cavaco Silva apelou à necessidade de uma estabilidade governativa.Segundo o actual primeiro-ministro e líder do PSD este aviso é "perfeitamente compatível não apenas com a função do Presidente da República como, penso eu, com o mínimo de prudência e realismo que devemos ter nos próximos anos".

O primeiro-ministro diz que já fez uma parte: "um compromisso antes das eleições para fazer Governo. Em 2011, não foi assim".

Passos Coelho, que esteve na Redacção Aberta do Negócios, alerta para os riscos resultantes de uma instabilidade governativa, tanto mais porque no próximo ano será inevitável um aumento das taxas de juro e a subida do preço do petróleo. "É muito provável que o contexto externo seja menos favorável durante esse período do que foi neste último ano, ano e meio. Se isso acontecer e andarmos aqui a ver como é que arranjamos soluções de governabilidade, em vez de estarmos a governar, estamos a tratar de suprir as insuficiências de natureza política que resultam das eleições. Acho que esse risco é grande para o país e não o devíamos correr", avisa.

O líder do PSD acrescenta que uma solução governativa estável irá melhorar o rating de Portugal e isso é "essencial para que possamos trazer para a nossa economia muitos investidores. Não só investidores de dívida pública, mas também investidores qualificados que só podem entrar decididamente no nosso mercado se a notação portuguesa for revista."

Questionado sobre a necessidade de uma aliança com o PS, caso a coligação PSD/CDS não tenha maioria absoluta, Passos recusa-se a fazer essa cenarização. "Bater-me-ei nestas eleições para ter um resultado que seja tão próximo quanto possível da necessidade de ter um governo estável".



Declaração ao país de Cavaco Silva a marcar as legislativas para 4 de Outubro
"Confesso que não assisti à comunicação. Reporto-me às principais mensagens que foram divulgadas." 

"É perfeitamente legítimo que um Presidente da República, que convoca as eleições, chame a atenção dos eleitores para a necessidade de haver um governo maioritário."


"E nós não tivemos crise? A crise foi só para o PS?"


A referência à crise mundial, muitas vezes invocada  por José Sócrates para explicar o aumento do desemprego, irritou o líder do PSD. "Está a falar da de 2009 ou da de 2011? E nós não tivemos crise? A crise foi só do Partido Socialista?".

Para Passos Coelho a resposta é simples: "o desemprego que se gerou em Portugal até 2012 resultou de um modelo económico insustentável que foi aplicado determinadamente pelo Governo do PS", enquanto o "modelo económico" que o Governo tem seguido "resolve o problema". E mais uma pergunta. "A crise e o desemprego que eu herdei em 2011 resultou das decisões que eu  tomei?"

O primeiro-ministro recorda a  fórmula usada  pelo PS para combater a crise e diz que a mesma teve efeitos perversos. "O que é que se fez? Baixou-se o IVA, aumentou-se os funcionários públicos e anunciou-se um conjunto de obras muito importantes que dinamizariam muito a nossa economia. Esta foi a receita. E a receita gerou desemprego, crise e insustentabilidade".

Passos Coelho lembra que um ano depois  de ter chegado ao poder, fruto das políticas do Governo anterior, a taxa de desemprego chegou quase a 18% e que agora  está nos 13%. "Vir dizer que a grande responsabilidade do desemprego gerado é das políticas de austeridade é tão míope como não perceber que o modelo económico que se seguiu durante anos em Portugal estava profundamente errado, era insustentável e levaria o país a pedir assistência externa", afirma.

Segundo Passos Coelho, o actual líder do PS, "aparece com a mesma proposta" do anterior Governo do PS. E por isso questiona, "não é legítimo que eu queira sublinhar as diferenças entre uma coisa e outra?". Diferenças que constata na diminuição do desemprego, no desendividamento do país e da economia e na criação de emprego. "E vêm-me dizer que não posso usar estes números porque os do PS, coitadinhos, foram muito afectados pelo período da crise. Santo Deus! Haja um bocadinho de honestidade intelectual na maneira como as questões são colocadas".

"O PS foi governo de 2005 a 2011 e o desemprego aumentou consideravelmente apesar de se viver nesse período
um tempo de ‘vacas gordas’."
Pedro Passos Coelho
Primeiro-ministro


A sustentabilidade de uma dívida elevada


"Eu acho que a dívida portuguesa é sustentável". A convicção do primeiro-ministro é respaldada pelo que diz serem as opiniões do Fundo Monetário Internacional (FMI), Comissão Europeia e Banco Central Europeu (BCE). "Ainda não ouvi nenhuma instituição relevante, mesmo de mercado, não ter a mesma opinião". É sustentável, mas assume-o muito elevada e prejudicial para os níveis de "rating" do País. Não tinha a expectativa que as notações retirassem o país da classificação de lixo. "Enquanto não estiver resolvida a questão da certeza quanto ao caminho futuro de um país com um rácio de dívida bruta superior a 120% do PIB – esperamos no final deste ano chegar a pouco menos de 125% – e que tem um rácio de dívida líquida de 118%, tem essa pressão junto dos mercados". "Ou é muito determinado quanto às políticas que vai prosseguir do ponto de vista económico e financeiro ou o risco de a coisa descambar é elevado. Eu se estivesse no lado das agências raciocinaria exactamente nos mesmos termos". Reafirma: "eu julgo que as principais agência de ‘rating’ estão à espera de ver os resultados das eleições para decidir se fazem ou não uma revisão de notação para Portugal". Quanto à dívida, Passos Coelho acredita que há condições para começar a diminuir o seu peso, apesar do "azar" com a desvalorização do euro que pesa na dívida em dólares. "Mas a entrada daqueles investidores norte-americanos foi muito importante para dar uma âncora de estabilidade aos leilões". Para o IGCP, no entanto, vão só elogios.

"Uma economia que se endivida à razão de 10% ao ano, durante 10 anos,
é insustentável."
Pedro Passos Coelho
Primeiro-ministro



O grande desafio dos jornais para este ano

Se a coligação ganhar, Passos Coelho quer acelerar a aprovação do Orçamento do Estado para 2016. "O tempo conta e nós queremos que ele [Orçamento] esteja em vigor logo no início do ano". Esta foi a resposta à pergunta, que considerou de algibeira, sobre a primeira medida que adoptará se ganhar as eleições. Tendo em mente que o Parlamento estará dissolvido até meados de Outubro há outras matérias que carecem de aprovação parlamentar que terão de ficar para depois. Quanto ao Orçamento, se for governo avançará com propostas já previstas, em alguns casos, no programa de estabilidade apresentado pelo actual Governo: desagravamento do IRC e da sobretaxa de IRS; aplicação de novo quociente familiar em sede de IRS que progride para 0,4. "Estas são as questões mais simbólicas que, creio eu, todos estarão à espera de ver concretizadas nesta proposta de Orçamento". Acrescem "pequenas alterações em matéria fiscal, que não estão ainda estudadas, mas que espero ter grandemente adiantadas até ao final de legislatura", para "não perder grande tempo com a discussão dentro do Governo sobre o articulado da proposta de Lei do orçamento". Passos Coelho reconhece que "será um desafio grande" mas para os jornais que "este ano não têm acesso antecipado a essa proposta de articulado tão desenvolvida".

"Se o Tribunal Constitucional não aceitou [reduções nas pensões
em pagamento mais elevadas], dificilmente aceitará propostas parecidas. Não vou fazer esse tipo de experiências com o Tribunal Constitucional. Não quer, não quer. Está o caso arrumado".
Pedro Passos Coelho
Primeiro-ministro

CV de Pedro Passos Coelho
Pedro passos coelho nasceu a 24 de Julho de 1964 em Coimbra, viveu até aos 9 anos em Angola e passou a sua adolescência em Vila Real. Em 2001 licenciou-se em Economia pela Universidade Lusíada. É caso com Laura Ferreira e pai de três filhas. Entrou cedo na política e no final da década de 80 assumiu o cargo de vice-presidente da Juventude Social-Democrata (JSD), tendo posteriormente sido presidente desta organização por mais de seis anos.  Em 1991 desempenhou as funções de vice-presidente e porta-voz do PSD na Assembleia da República, em 2010 foi eleito presidente do partido e tomou posse como primeiro-ministro a 21 de Junho de 2011. No sector privado passou, entre outras, por empresas como a Quimibro, foi consultor da Tecnoforma e administrador do Grupo Fomentinvest.




Mais notícias