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Henrique Neto: "Vão avisando os portugueses que a crise não acabou"

Henrique Neto veio à Redacção Aberta do Negócios no passado dia 28 de Outubro. Não evitou temas.

Negócios 05 de Novembro de 2015 às 00:01
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"Talvez seja um socialista utópico." Diz que se candidata a Presidente da República por causa da "admiração enorme" que tem pelos portugueses. Henrique Neto, o primeiro dos candidatos a Belém a participar na Redacção Aberta do Negócios, não evitou qualquer tema.
Nem mesmo o de a Iberomoldes, empresa de que foi sócio, ter sido apanhada na Operação Furacão. Defende que um Presidente "tem de unir" e "deve ter um cuidado enorme na defesa do interesse nacional e dos valores da ética".


Porque é que os portugueses o devem eleger para Presidente da República? "Acho que tenho mais condições do que qualquer outro candidato para mudar a orientação do país, no sentido correcto, porque me treinei para isso e tenho experiência empresarial, nacional e internacional, e política", argumenta
"Uma das razões por que não compreendo muito bem o dr. António Costa é porque se estivesse no lugar dele, como líder partidário, deixaria este Governo em paz."
Henrique Neto
Henrique Neto.

Face aos seus adversários,  as hipóteses de chegar a Belém parecem ínfimas, mas o empresário, de 79 anos, não desarma e retorque que os portugueses precisam de saber quem  ele é e o que defende. "Se a comunicação social não me der a conhecer, se aquilo que eu estiver a dizer aqui não puder dizer um pouco por todo o país, se não tiver meios ou recursos para o fazer, é evidente que não posso ganhar. É obrigação de cada cidadão fazer o melhor pelo país e é isso que estou a fazer."

Henrique Neto, que gosta muito de "prever o futuro", diz que é a hora de o Presidente da República "colocar à discussão pública a organização estratégica do país". "Apostámos tudo no Estado e desprezámos a actividade privada", constata.

Uma mudança de posicionamento do Presidente da República que, segundo Henrique Neto, não precisa de ser respaldada numa revisão da Constituição. "Estou muito contente com os poderes do Presidente e acho que os posso usar muito melhor do que têm sido usados. O país está em  dificuldades e eu espero que o vosso jornal vá avisando os portugueses que a crise não passou."

Para este candidato a Belém, contudo, Portugal enfrenta dois grandes problemas que merecem uma tratamento imediato: uma "dívida absurda" e o desemprego, os quais só se resolvem com "crescimento económico". "Estes são os nossos problemas, não vamos torná-los ainda mais complicados do que eles já são." E  o sonho. "Vamos promover o desenvolvimento do país para pagar a  dívida. E quando chegarmos aos 60% das exportações, dizemos  nunca mais. Não dependemos deles, vamo-nos governando."



As exigências a Costa. Um Governo sólido que não crie problemas lá fora

Igual a Cavaco Silva só a indigitação de Passos Coelho. No resto, o candidato Henrique Neto teria agido de forma diferente do actual Presidente na abordagem ao impasse político que resultou das eleições de 4 de Outubro. "Teria começado por chamar todos os partidos com assento na Assembleia da República para ouvir em primeira mão qual a disposição de cada um para contribuir para a estabilidade política". De seguida "se as respostas dos partidos fossem aquelas que era previsível, teria convocado os líderes dos dois principais partidos, PSD e PS, que representam 70% do eleitorado, e reponsabilizá-los-ia pela estabilidade governativa".



Henrique Neto afirma, por comparação com Cavaco Silva, que seria mais proactivo na busca de uma solução. "Não ficaria de fora e disponibilizar-me-ia para ajudar a construir uma maioria estável, porque as alternativas que existem são complicadas".


Agora que se criou o cenário de um Governo à esquerda, Henrique Neto explica o que pediria a António Costa se estivesse em Belém. "Exigiria um acordo formal, naturalmente escrito e muito claro sobre o programa do Governo que iria existir. Não concordo nada com o que tem sido dito de que o acordo é apresentado à Assembleia da República e não ao PR. O Presidente tem de julgar se o Governo que o dr. António Costa apresentará é sólido, responde às necessidades do país e não levanta problemas, quer na UE, quer no sistema financeiro internacional".


Enganado por alemães, saiu da Iberomoldes

Henrique Neto era um dos principais rostos da Iberomoldes, empresa de moldes da Marinha Grande. Mas vendeu a sua posição em 2009. "Porque fui enganado." "Simplesmente." E por quem? Por um dos sócios: o alemão que "começou a desnatar a empresa". É isso que leva Henrique Neto a desabafar: "Quando se diz que os alemães são muito rigorosos... aquele aprendeu rapidamente como se fazem em Portugal algumas coisas e desnatou a empresa para fugir aos impostos e outras coisas." Foi Rosário Teixeira, o procurador que é o rosto do combate ao crime económico, que lhe explicou o que se passava. "Achei que era melhor reformar-me e passar a escrever livros."

O que se passava nessa empresa, que não era dirigida por Henrique Neto, é que esteve na malha da Operação Furacão, no âmbito da qual acabou por ser
"Fui eleito deputado porque o eng. Guterres engraçou com a minha cara.
Se ele não tem engraçado, não tinha sido deputado." 
Henrique Neto
constituído arguido, mas sem depois ser acusado. Acredita, no entanto, que esse envolvimento pode vir a ser usado na campanha. "Acho que sim, mas não tenho problema nenhum com isso. Claro que era mais fácil lerem os papéis da Procuradoria-geral da República, que foram arquivados, mas se me quiserem fazer perguntas, tudo bem, responderei com toda a calma e placidez. Não é uma coisa de que me orgulhe."

Ainda que não estivesse na administração da empresa, passou por ela como sócio e não viu o que se passava. "Talvez devesse ter visto, ainda que eu andasse desconfiado, mas por outras razões." Henrique Neto explica: os alemães começaram a comprar moldes a outros e "comecei a verificar que estava a sair muito dinheiro para outros países. Nessa altura comecei a preocupar-me, mas não sabia de nada."


"Devemos admirar os empresários portugueses" 

No cimo da serra da Lousã, encontrou uma fábrica com 350 pessoas e um engenheiro filósofo "com letreiros na parede, automação, robótica, a exportar para todo o mundo, do melhor que há".

Em Cantanhede, visitou "uma fábrica de fazer batatas fritas completamente inovadora, a exportar com uma complexidade de produção e com tecnologias inimagináveis há 10 anos".

Em Alcácer do Sal, encontrou cinco mulheres a venderem camarões pequenos que se queixaram da perseguição da GNR. "Tiram-lhes as redes e as caixas e não as deixam pescar", porque a União Europeia interfere com este modo de sobrevivência. "O Presidente da República não se deve preocupar com isto?", pergunta. 
Nunca concordaria
com a venda da TAP
nas condições em que
foi definida.
Henrique Neto


São histórias como esta que Henrique Neto invoca para justificar a sua candidatura presidencial. A "admiração enorme" pelo que se faz e a necessidade de chamar a atenção da União Europeia para a necessidade de mudança, em assuntos só aparentemente menores como as vendedoras de camarão alcacerenses. "O facto de sermos um país pequeno não nos impede de termos uma voz forte, mostrando os caminhos do futuro, também na União Europeia, que está bem precisada disso", afirma. Por isso, "fico sempre um bocadinho chateado quando vejo pessoas a dizer que o problema é a classe empresarial".

Henrique Neto evoca , em favor da sua tese, o período em que passou pela Assembleia da República (1995-1999), durante o qual "davam como morta e enterrada a  indústria do calçado" e em que deputados europeus "diziam que investir na indústria era uma perda de tempo e de dinheiro".

"Escrevi na altura uma história de uma página para mostrar qual seria o futuro. Previ que seria diferente, foi diferente e foram os empresários que fizeram essa história do calçado que toda a gente admite. Houve pessoas importante, o Manuel Carlos e o Fortunato Frederico, um que inovou e outro que foi agente de mudança. Devemos admirar os empresários portugueses."
Curriculum Vitae
Henrique José de Sousa neto nasceu em Lisboa a 27 de Abril de 1936. Fez o Curso Industrial em Lisboa e o Curso Comercial na Marinha Grande, terra de origem da sua família e para onde se mudou aos 14 anos. Iniciou-se na política em 1968, ano em que se tornou militante do PCP, partido do qual se desfiliou em 1975. Nesse mesmo ano fundou a Iberomoldes, que acabou por se transformar na "holding" de um grupo industrial com 12 empresas e mais de 1.000 trabalhadores. Saiu em 2009, tendo vendido a sua posição ao co-fundador da Iberomoldes, Joaquim Menezes. Em 1993 aderiu ao Partido Socialista a convite de Jorge Sampaio, foi eleito deputado em 1995, tendo abandonado a política activa no fim da legislatura. Anunciou a sua candidatura a Presidente da República a 23 de Março de 2015.  


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