No projecto Smiling, sorrir é um direito

Smiling não é apenas sorrir. É o nome de um projecto, na área da saúde oral, que se traduz no bem-estar. Aqui, a Fundação Nossa Senhora do Bom Sucesso comprova que esta valência traz resultados na saúde. E não apenas na boca.
Inês Gomes Lourenço
pub
João Barbosa 06 de setembro de 2018 às 14:50

O projecto nasceu de números concretos, de um estudo desenvolvido pela Fundação em 2016. Com base nesse protótipo nasceu o Smiling, que tem vindo a promover resultados em saúde, tendo tido início em 2017.
Nada aparece feito por acaso. O trabalho e a vontade são os motores da mudança. O que começou por uma actuação geograficamente pequena, nas freguesias de Santa Maria de Belém e de São Francisco Xavier (1959-2013), é actualmente um dinamizador importante na saúde e com resultados claros.
Começar pelo começo
Corria o ano de 1951 quando Maud Queiroz Pereira, filantropa da Fundação Nossa Senhora do Bom Sucesso, se apercebeu de que o seu bebé mostrava uma melhor saúde do que um outro, nascido no seio de uma família de poucos recursos económicos.
Conjuntamente com amigos, Maud Queiroz Pereira avançou para um projecto de apoio. À época, essa área era habitada, sobretudo, por famílias economicamente desfavorecidas.
A Fundação, desde o começo, apostou na prestação de acção preventiva. Logo aí se iniciou algo, que, na altura, foi uma inovação. Paula Nanita, administradora executiva da Fundação, sublinha que a prevenção se sente em toda a sociedade e com menores custos.
A qualidade dos serviços prestados levou a que fossem fornecidas residências falsas, para que as suas crianças pudessem continuar a receber apoio. Com o desenvolvimento da cidade, os serviços estão hoje alargados à dimensão da capital.
Os resultados comprovam-se facilmente
A prevenção nos cuidados de saúde está no ADN da Fundação Nossa Senhora do Bom Sucesso. Os resultados são palpáveis, assim comprovam os números com o reconhecimento através da menção honrosa, na sétima edição do Prémio de Saúde Sustentável - Resultado em Saúde.

1.600
Crianças
O projecto Smiling, iniciado em 2017, pretende actuar nos cuidados de saúde oral de um universo de 1.600 crianças.

No início, assumiram-se as famílias como o foco da abordagem, sendo estas visitadas, com regularidade, por enfermeiras da Fundação. Algo muito inovador quando se pensa na abrangência dos cuidados de saúde, à data do começo. Essa actuação deu uma visão global dos beneficiários.
O acompanhamento na saúde oral inicia-se logo na dentição de leite. Desde o começo, é realizada uma observação de seis em seis meses. Quem é visto precocemente tem mais do que uma boa saúde oral durante a vida.
A convicção de algumas pessoas de que a dentição de leite não é uma prioridade a ter em atenção, porque depois virão os definitivos, está errada. Por baixo dos dentes de leite estão os outros.  Cláudia Pereira
Higienista oral e responsável pela realização de rastreios do Programa de Saúde Oral

Referindo um exemplo: a criança aprende como melhor deve escovar os dentes. Os jovens são acompanhados até aos 18 anos. Observa-se ainda que, quando acompanhadas precocemente, não sentem medo das consultas. "Na adolescência já vêm pelo seu próprio pé", informa Paula Nanita.

Maria do Carmo Ferin, enfermeira de saúde pública, salienta as vantagens dos trabalhos de rastreio. Além do mais, isso permite poupar dinheiro ao Estado, que reduz despesas em intervenções posteriores.
Um estudo realizado pela Fundação mostrou que o balanço, em termos de custos, indicou um retorno de sete euros por cada euro investido - apenas em saúde oral.
Os jovens são acompanhados até aos 18 anos. Na adolescência já vêm pelo seu próprio pé. Paula Nanita
Directora-geral da Fundação 

Contudo, o impacto da saúde oral é, noutras áreas da saúde, mais vantajoso, além daquele que se traduz ao longo da vida. Muito do que virá com o tempo pode ser prevenido.
O Smiling não surgiu por acaso
A Fundação realizou um protótipo, em 2016, abrangendo 158 crianças, divididas em número igual, dos 10 aos 13 anos. Concluiu-se que 98,7% das que foram acompanhadas precocemente não tinham cáries. Nas observadas após os 10 anos, a taxa é de 58,4%.
O Estado promove o absentismo laboral, porque os pais têm de faltar ao emprego para acompanhar uma criança com dores. Mafalda Lourenço
Assistente social na Fundação 

Cláudia Pereira, higienista oral, enumera algumas das vertentes em que a prevenção se traduz. Desde a saúde em geral às cáries, cáries ósseas, bem-estar psicológico, maior integração social - especialmente em crianças -, a melhor mastigação tem efeitos na digestão, no nível da fala - reflecte-se na aprendizagem -, na postura do corpo, na gravidez - formação e peso do bebé -, riscos de AVC, pneumonia, doença pulmonar obstrutiva crónica e diabetes tipo 2.
Mafalda Lourenço explica que o Estado gasta apenas no tratamento - cheque-dentista. Isso "promove o absentismo laboral, porque os pais têm de faltar ao emprego para acompanhar uma criança com dores", salienta.
A médica desmente "a convicção, de algumas pessoas, de que a dentição de leite não é uma prioridade a ter em atenção, porque depois virão os definitivos, está errada. Por baixo dos dentes de leite estão os outros." Em casos de obesidade, a Fundação pode acompanhar o apoio com a intervenção de nutricionistas.
É da herança que hoje a Fundação Nossa Senhora do Bom Sucesso se rege. Mantém o cuidado com as famílias e objectivamente encontram-se resultados em Saúde, categoria distinguida no Prémio Saúde Sustentável.
Os rostos do Smiling
O trabalho da Fundação Nossa Senhora do Bom Sucesso envolve cerca de 60 pessoas. Destas, duas são o motor do projecto Smiling, iniciado em 2017, e que tem mostrado resultados visíveis.
Cláudia Pereira licenciou-se em Higiene Oral, pela Faculdade de Medicina Dentária de Lisboa. Desde 2002 que trabalha na Fundação, sendo (é) responsável pela realização de rastreios do Programa de Saúde Oral e de educação, tanto na instituição como na comunidade.
Mafalda Lourenço é licenciada em Política Social, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Desde 1998, integra a equipa da Fundação, como assistente social.
Coordenadora do Gabinete de Desenvolvimento Social é responsável pela realização do Protótipo de Avaliação de Impacto Social do Programa de Saúde Oral, que está na base do Smiling.
Medir os resultados
O projecto Smiling tem como objectivo a medição de resultados em saúde, num universo de 1.600 crianças em vigilância de saúde oral. Visa comparar nas crianças que iniciam a sua vigilância aos três anos, com as que começam mais tardiamente e com as da população em geral.
Essa medição comprova que o investimento na prevenção vale a pena - tal como observado, através da prática, nas quatro décadas de trabalho da Fundação -, representando um quarto dos custos directos do tratamento.
O estudo indica que, nas crianças em vigilância desde os seis anos, a taxa sem cáries é de 74,2%. Desde os 12 anos baixa para 68,6%. As informações da Direcção-Geral de Saúde apontam para 54% e 53%, respectivamente.
A mais-valia da prevenção traduz-se na taxa de crianças sem cáries, quando acompanhadas desde os três anos. Uma boa saúde oral, desde a infância, tem também resultados positivos noutros domínios da saúde.

pub