Bragança combate insucesso escolar com diagnósticos no pré-escolar

O serviço de Medicina Física e Reabilitação da Unidade Local de Saúde do Nordeste trabalha desde 2011 na identificação de dificuldades de desenvolvimento das crianças do pré-escolar.
Bragança combate insucesso escolar com diagnósticos no pré-escolar
Paulo Duarte
Sónia Santos Pereira Paulo Duarte - fotografia 03 de junho de 2016 às 11:21
Todas as crianças entre os 4 e 5 anos que frequentam os jardins-de-infância do distrito de Bragança são alvo de um rastreio de medicina física e de reabilitação. A medida é pioneira no país e tem como objectivo identificar dificuldades de desenvolvimento que possam comprometer a aprendizagem das crianças quando ingressam no 1º ciclo de ensino. O sucesso da iniciativa, que arrancou em 2011 e se realiza todos os anos, é indiscutível para todos os envolvidos: médicos, terapeutas, educadoras, encarregados de educação.

No ano passado, o rastreio incidiu sobre 681 crianças, de um total de 767 inscritas nos jardins-de-infância dos 12 concelhos que integram o distrito de Bragança. As maiores dificuldades observadas respeitam às áreas da fala e linguagem (80%) e motricidade fina e percepção visual (30%). Muitas conjugavam vários problemas. Como realçou Abílio Silveira, director do serviço de Medicina Física e Reabilitação (MFR) da Unidade Local de Saúde do Nordeste, "mais de metade das crianças observadas no rastreio apresentavam problemas de motricidade fina ou global ou alterações articulatórias".

Os números são reveladores e elevados. Contabilizaram-se 149 crianças com necessidades de acompanhamento directo, ou seja, consulta de fisiatria e intervenção terapêutica e 204 foram sinalizadas para reavaliação. Nesse ano, 22% das crianças demonstraram dificuldades que poderiam comprometer a aprendizagem. Com base nesses dados, obtidos através dos rastreios efectuados pelos terapeutas do serviço MFR nos jardins-de-infância, as crianças identificadas foram orientadas para sessões de terapia.


Sandra Neves, terapeuta vocacional do serviço de MFR, diz com evidente orgulho: "Hoje é muito raro que nos enviem da escola primária uma criança que não tenha sido já rastreada". Abílio Silveira frisa que cinco anos é a idade considerada ideal para a realização do rastreio: as crianças estão suficientemente desenvolvidas para se identificar eventuais dificuldades e na altura correcta para intervir com sucesso. "Há algumas perturbações que nesta idade se podem resolver de forma espontânea", sublinha.

Ganhos estão na prevenção

Embora os ganhos desta medida possam ser intangíveis (pelo menos até esta data não foi possível contabilizá-los), a política implementada pelo serviço de MFR é considerada pelos envolvidos no projecto passível de réplica em todo o país. Abílio Silveira destaca que, antes da implementação do rastreio, havia pacientes com sete, oito e nove anos, já em plena escola primária, que apresentavam dificuldades a estes níveis e, nessas idades, mais difíceis de corrigir, reduzindo as possibilidades de um trajecto escolar de maior sucesso.


"Vimos crianças em idade escolar em que se percebia que havia já algum compromisso no rendimento escolar", recorda Ana Rodrigues, fisioterapeuta e coordenadora do serviço de MFR. "Se a criança não entender os fonemas, não vai conseguir aprender a escrever", diz Sandra Neves. Como exemplo, aponta as dificuldades de crianças na articulação da letra L. "Com 7 ou oito  anos, essas crianças precisam de 30 sessões de terapia da fala, mas com cinco anos pode-se, em muitos casos, reduzir a terapia para três sessões", diz.


681
Rastreios
Em 2015, foram alvo de rastreio 681 crianças dos jardins-de-infância dos doze concelhos que compõem o distrito de Bragança.


Deficiências ao nível da motricidade fina impedem a criança de pegar correctamente no lápis e, portanto, de escrever, desenhar, sublinha ainda. Já Ana Rodrigues frisa que a correcção dessas dificuldades permite diminuir o "deficit de atenção e concentração", consequentemente, aumentar o nível de sucesso na aprendizagem, combater o 'bullying'. Com base nesta realidade, o serviço entendeu que "era preciso montar algum sistema para que não se chegasse já tarde nas intervenções", explica.

A identificação precoce destas insuficiências nas crianças antes da entrada na escola primária permite ganhos de saúde incomensuráveis. "Despistar alterações do desenvolvimento psicomotor em idade pré-escolar e acelerar o processo de tratamento das crianças afectadas para que possam enfrentar a escolaridade com o mínimo de desvantagem é uma boa política de saúde", frisa Abílio Silveira. 




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