Conferência: Evitar a inovação que é moda e inútil

A saúde deve ser cada vez mais centrada no doente. Caminha-se para a co-responsabilização como forma de garantir a sustentabilidade e caminhar para os ganhos em resultados.
Conferência: Evitar a inovação que é moda e inútil
Inês Gomes Lourenço
Filipe S. Fernandes 11 de outubro de 2018 às 15:40
Na administração Obama foram definidos vários desafios para a saúde, a começar no custo, a demografia, os acessos aos cuidados de saúde, a variação na prática clínica, o insuficiente uso da informação, os cuidados fragmentados vs. os cuidados integrados, a duplicação, a medicina defensiva e o desperdício e, finalmente, o atraso na adopção da inovação, assinalou Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos, na conferência "Desafios e Contributos para uma Saúde mais Sustentável em Portugal", e que se realizou no âmbito do Prémio Saúde Sustentável.

O primeiro desafio, na sua opinião, deve ser "centrar a saúde no cidadão", o que significa dar-lhe informação, capacidade e poder de decisão. Tudo para "poder discutir com os profissionais de saúde, e sobretudo os médicos, para serem tomadas as melhores opções para a sua situação clínica".

Joana Camilo, presidente da Associação Dermatite Atópica Portugal (ADERMAP), concordou que o doente deve estar no centro da saúde, mas sublinhou que "o doente é um actor secundário nas práticas de saúde e nas políticas públicas de saúde". O que levou Maria de Belém Roseira a aduzir que "o sistema de saúde, constituído pelo SNS, privado e social, tem como único objectivo a centralidade dos doentes, o que tem sido esquecido à medida que os sistemas crescem tanto nas prioridades definidas como na organização dos serviços".

O ecossistema de saúde está a evoluir para uma abordagem mais personalizada, centrada na pessoa em todas as fases da sua vida, desde a prevenção até ao pós-tratamento, defendeu Francisco del Val, director-geral da Sanofi. "Estamos a evoluir de uma abordagem terapêutica para uma preventiva em que as pessoas têm um papel cada vez mais activo nas decisões de saúde", declarou.

"A medicina é cada vez mais personalizada, é cada vez mais feita para um doente", anuiu Miguel Guimarães. Deu o exemplo dos medicamentos que vão passar a ser para grupos de doentes. "Vão ser mais focados na situação que se quer tratar." "Cada vez se ouve mais falar de uma medicina e cuidados personalizados e centrados no doente", acrescentou Joana Camilo, que defendeu que a "co-responsabilidade na decisão" pode ser um factor de sustentabilidade e de ganhos em saúde "não só individualmente, mas na saúde colectiva".

Este papel desenrola-se a vários níveis, como o processo de decisão clínica e na gestão da doença. Mas, ainda, pela contribuição "para a competitividade do país, por exemplo, no recrutamento de doentes e sua manutenção nos ensaios clínicos, e na colaboração no desenho da investigação de uma forma informada e capacitada", concluiu Joana Camilo.

O demónio da inovação

A inovação é um dos grandes demónios dos orçamentos, o bicho-papão que tudo devora e leva a que a dívida às farmacêuticas atinja quase os dois mil milhões. Para João Norte, vice-presidente da Ordem dos Farmacêuticos, não se deve cair na tentação de que o aumento da despesa na saúde se deve "à utilização da inovação, pois há outros factores relevantes, como o envelhecimento da população, a má utilização e o desperdício de recursos técnicos e pessoais, que se evitaria utilizando sistemas em rede e em conjunto".

"A inovação na saúde é que está a permitir que tenhamos uma grande esperança de vida", garante Miguel Guimarães. Dá um exemplo da sua área de especialização. Há vinte anos, tratava uma doente com incontinência urinária de esforço com uma cirurgia de uma hora, a doente ficava com uma incisão de 10 cm, e era internada durante dez dias, a taxa de cura andava pelos 60 a 65% e a taxa de complicações nos 10%. Hoje com uma nova tecnologia, é operada em cinco minutos, em ambulatório, a taxa de cura é de 98% e a taxa de complicações é inferior a 1%.

A útil e a moda

Portugal tem há muito tempo um sistema em que a "a avaliação é feita a priori, baseia-se nos benefícios esperados com a evidência que existe antes da generalização da utilização", diz João Norte. Para este farmacêutico, "o essencial na inovação é garantir metodologias de avaliação transparentes, céleres, para não prejudicar quem possa beneficiar com o acesso rápido".

"Temos um modelo que acolhe a inovação, tanto a útil como a dispensável, porque só faz desperdiçar recursos, embora se pague tarde e a más horas à indústria farmacêutica", sentenciou Francisco Ramos, presidente do IPO de Lisboa. O que se explica "porque falta afinar os mecanismos de avaliação para evitar utilizar a inovação que é moda, mas que não é útil".