Dar resposta a problemas sociais com a comunidade

A USF da Baixa, em Lisboa, lançou o primeiro projeto de Prescrição Social em Portugal. Uma metodologia que, mais do que a situação clínica, procura arranjar soluções para os problemas sociais dos utentes em estreita ligação com a comunidade local.
Dar resposta a problemas sociais com a comunidade
Vítor Mota
João D'Espiney 29 de outubro de 2019 às 13:00

Tudo começou em outubro de 2017 numa conversa de corredor na Unidade de Saúde Familiar (USF) da Baixa entre o médico de família Cristiano Figueiredo e a assistente social Andreia Coelho. Um ano e várias reuniões depois, a conversa resultou no primeiro projeto de Prescrição Social (PS) em Portugal, uma metodologia que procura dar resposta aos problemas sociais e necessidades dos utentes, através da articulação entre as equipas dos centros de saúde (médicos, enfermeiros e assistentes sociais) e as organizações da comunidade local.

Cristiano Figueiredo é o primeiro responsável pela implementação da Prescrição Social em Portugal. “Se queremos resultados diferentes, temos de fazer as coisas de forma diferente”, defende este médico de família, que trabalha na Unidade Local de Saúde do Martim Moniz desde 2017.
Cristiano Figueiredo é o primeiro responsável pela implementação da Prescrição Social em Portugal. “Se queremos resultados diferentes, temos de fazer as coisas de forma diferente”, defende este médico de família, que trabalha na Unidade Local de Saúde do Martim Moniz desde 2017.
Sérgio Lemos

"Quando cheguei à USF já vinha com a ideia da PS e quando me cruzei no corredor com a Andreia, uma ou duas semanas depois, começámos a discutir e a perceber que fazia todo o sentido importar o conceito do Reino Unido", conta Cristiano Figueiredo, recordando que contactou pela primeira vez com esta nova metodologia em 2015 quando fez um estágio em Londres, na altura ainda a dar os primeiros passos no Reino Unido.

É necessário ir à raiz do problema e tentar perceber qual é o contexto social, o que está a perturbar o utente e o que podemos fazer em termos de resposta em articulação com a comunidade. E se isto for resolvido, a longo prazo a pessoa vai utilizar menos consultas e urgências médicas, e vai tomar menos psicofármacos." Cristiano Figueiredo, médico de família responsável pelo projeto de Prescrição Social na USF da Baixa


As pessoas, diz o médico de família, não têm noção de que todo o contexto social em que os utentes vivem "tem um impacto de 70% na sua saúde" e "acham que vai ser o médico ou enfermeiro que vai dar resposta aos seus problemas receitando medicamentos. Mas há muitas situações que não se resolvem com medicamentos", defende. Em situações de saúde mental, muitos dos problemas como as depressões e as ansiedades têm uma causa social, como o isolamento, o desemprego, o sedentarismo, entre outras situações, frisa o clínico geral, salientando que as pessoas estavam muito focadas num tipo de respostas "mais convencionais e não noutro tipo de respostas mais holísticas, mais abrangentes".

"Nós acreditamos que a atuação médica é essencial, no entanto, é necessário ir à raiz do problema e tentar perceber qual é o contexto social e o que a está a perturbar e o que podemos fazer em termos de resposta em articulação com a comunidade. E se isto for resolvido, a longo prazo aquela pessoa vai utilizar menos consultas médicas, menos urgências, vai tomar menos psicofármacos, calmantes, etc.", diz, suportado em alguns estudos já realizados no Reino Unido.

A importância da assistente social

Nesta nova metodologia, o/a assistente social é uma figura central da Prescrição Social, pois é quem faz a ponte entre os profissionais de saúde e as entidades locais.

"Anteriormente, o assistente social nos cuidados de saúde primários era sobretudo solicitado para situações muito burocráticas como a isenção das taxas moderadoras, atribuição do CSI e toda uma série de prestações sociais no âmbito da Segurança Social", diz Cristiano Figueiredo.

Com este projeto "mudou-se o paradigma" e desmistifica-se "a imagem" que os utentes têm dos assistentes sociais nos cuidados de saúde primários", garante Andreia Coelho, 43 anos, a trabalhar nesta USF desde 2016.

Andreia Coelho é uma das assistentes sociais que trabalham na USF da Baixa e teve um papel fundamental para que este projeto avançasse. A assistente social admite que houve algumas resistências, mas que neste momento até já há várias entidades de diversas zonas do país com vontade de replicar esta nova metodologia.
Andreia Coelho é uma das assistentes sociais que trabalham na USF da Baixa e teve um papel fundamental para que este projeto avançasse. A assistente social admite que houve algumas resistências, mas que neste momento até já há várias entidades de diversas zonas do país com vontade de replicar esta nova metodologia.
Sérgio Lemos

Além da junta de freguesia e da câmara, a rede é composta por cerca de 30 associações recreativas e culturais, instituições de solidariedade social e outras organizações não governamentais.

Apesar de Lisboa ser uma cidade "rica em respostas sociais na comunidade", a oferta "está subaproveitada", pois as "equipas de saúde não as conhecem e não têm uma metodologia de trabalho partilhada e em rede", lamenta Cristiano Figueiredo.



130
Utentes
O projeto de Prescrição Social da USF da Baixa (Lisboa) envolve mais de 30 entidades locais e já referenciou 130 utentes em seis meses.



Depois de uma primeira reunião em fevereiro de 2018 com os potenciais parceiros da comunidade, os dois profissionais da USF da Baixa confirmaram que havia um "match" não preenchido entre as necessidades sociais identificadas nas consultas e as respostas disponíveis das entidades locais. Andreia Coelho conta que depois de muitas reuniões, o projeto avançou "com toda a força" em setembro de 2018 com os primeiros utentes referenciados. Em seis meses, e de acordo com o primeiro balanço já disponível, foram referenciados cerca de 130 utentes. "Não estávamos à espera de tantos. O facto de ser uma novidade suscitou muita curiosidade", admite.

Desde então têm mantido reuniões mais ou menos mensais com os parceiros do projeto, em que são apresentadas as situações dos utentes referenciados e os parceiros partilham as respostas que estão a dar e as novidades que estão a acontecer na comunidade. "Nós descobrimos muita coisa que não conhecíamos. Mas um dos nossos objetivos é que a própria comunidade entenda que é importante criar uma solução" para determinado problema social, defende a assistente social, admitindo que não estava habituada a falar a um utente sobre os sítios onde pode fazer hidroginástica para combater o sedentarismo, por exemplo.

Alojamento local tem gerado isolamento social

Cristiano Figueiredo diz que o "isolamento" social é o grande motivo de referenciação neste projeto-piloto. E uma das razões tem que ver com a febre do alojamento local. "40% do alojamento da freguesia de Santa Maria Maior é destinado ao alojamento local e estes bairros históricos estão a colapsar. Muitos dos nossos idosos partilham o prédio apenas com alojamento local, não têm família perto, e os vizinhos que conheciam foram despejados, o que tem gerado problemas de isolamento social", lamenta o médico de família.


A figura
Cristiano Figueiredo
Médico de família responsável pelo projeto

Cristiano Figueiredo, 32 anos, é o médico de família responsável pelo projeto de Prescrição Social da USF da Baixa. Depois de tirar o curso de Medicina na Universidade Nova de Lisboa fez um estágio no Reino Unido e foi aí que conheceu dois médicos que trabalhavam nesta área e que lhe "abriram os horizontes sobre o que era a Prescrição Social". "Fiquei curioso, pois achei que poderia dar resposta a muitos dos problemas que tínhamos em Portugal." De regresso ao nosso país, e depois de passar pela USF Ribeirinha mudou-se para a USF da Baixa, na qual começou a trabalhar em outubro de 2017, onde já estava Andreia Coelho, a assistente social que o ajudou a implementar o projeto.

Mais mulheres e 13 nacionalidades

O primeiro balanço deste projeto-piloto concluiu que, em seis meses, a grande maioria (70,8%) dos 130 utentes referenciados são mulheres. Os grupos etários mais representados são entre os 25-29 anos (16), os 65-69 (15) e os 84-89 (12), sendo que o mais velho tem 95 e o mais novo 17 anos. Em termos de nacionalidades, mais de metade (71) é portuguesa, seguida pelo Bangladesh (24) e o Nepal (11). Há ainda utentes do Paquistão, Ruanda, dos vários PALOP, Índia, Espanha, China e Bulgária. Cristiano Figueiredo não ficou surpreendido na medida em que 30% dos utentes da USF são migrantes. O "isolamento social", com 49 utentes, é o principal motivo da referenciação, seguido pela "imigração/integração social’ com 42, o "exercício físico/sedentarismo" com 40, "saúde mental" com 31 e o acesso a benefícios sociais com 27.




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