USF Lethes: (Dor) crónica de uma consulta anunciada

Em Ponte de Lima criou-se uma “bússola” para resgatar todas as semanas os utentes com dores persistentes, que afetam um em cada três portugueses. Avaliação e gestão de expectativas estão a dar resultados nos sorrisos e no Excel.
USF Lethes: (Dor) crónica de uma consulta anunciada
Paulo Duarte/Negócios
Sabia que uma dor que persiste durante mais de três meses deixa de ser um sintoma e passa a ser uma doença? Assim definida na última classificação internacional de doenças, a dor crónica afeta um em cada três portugueses e, em média, demora quatro anos até ser diagnosticada. No entanto, apesar de ser uma patologia muito prevalente e uma queixa frequente nos cuidados primários, não havia uma resposta específica para esta situação.

Percebendo que estes doentes acabavam por estar perdidos no sistema público, a Unidade de Saúde Familiar (USF) Lethes, integrada na Unidade Local de Saúde do Alto Minho, resolveu criar em 2015 uma consulta específica para atender a este problema, que funciona todas as semanas às quintas-feiras à tarde. Contando com um total de nove médicos, este centro dá resposta a cerca de 16 mil utentes do concelho de Ponte de Lima.

Além da população idosa que vive cada vez mais tempo, as outras "vítimas" preferenciais da dor crónica são os trabalhadores que, perante o prolongamento da idade ativa, acabam por multiplicar vários problemas musculoesqueléticos, como lombalgias. As estimativas apontam para custos indiretos equivalentes a perto de 3% do PIB, sobretudo pelo absentismo e pelas perdas de rendimento laboral. E ao estarem espartilhados por vários serviços - por uma dor de costas vão à ortopedia, neurocirurgia, fisioterapia ou médico de família, por exemplo -, disparam também os custos com os cuidados de saúde.

"Já me dedico a esta questão desde que sou médico, há quase 15 anos. E fui-me deparando na prática clínica do dia a dia com estes doentes que andavam perdidos no sistema, estavam em várias especialidades ao mesmo tempo, recorriam imenso ao serviço de urgência e muitas vezes a medicação que estavam a fazer, que, tal como a fisioterapia, também não era o mais indicado", descreve Raul Marques Pereira.

O coordenador explica que "a dor é uma situação que exige uma avaliação apertada, como é visível nas escalas que são usadas, que precisa de tempo para ser avaliada e de um espaço próprio porque não se consegue avaliar a dor no meio de tudo o resto".

Avaliar e acompanhar
Aprovada pela coordenação da USF, os médicos passaram a enviar os doentes com suspeita ou dor crónica confirmada para serem avaliados nesta consulta, em que são aplicados questionários e escalas validadas para aferir o grau de dor, a incapacidade para as atividades do dia a dia, a qualidade de vida e outras variáveis relevantes, como a ansiedade e a depressão, muito associadas a contextos de dor crónica.

A partir daí, é delineado com o doente um plano específico para o tratamento. O protocolo manda que o doente seja visto a cada quatro semanas - é o tempo estimado para ver efeitos desta intervenção - até ter a dor controlada. Finalmente, quando está estabilizado, o doente volta para o acompanhamento normal do médico de família. "E cá estamos para o que fizer falta", assegura Raul Marques Pereira.

Felicidade no rosto e resultados no Excel
Esta consulta da dor envolve três médicos e uma enfermeira. Mafalda Cerqueira, recém-especialista de medicina geral e familiar, entrou na fase de revisão bibliográfica e de pesquisa de projetos semelhantes fora de Portugal, sobretudo na Holanda. Em contacto com os utentes, a jovem de 29 anos sente que "gostam da atenção que lhes é dada", até porque a maioria andou anos a fio com essa dor, sem conseguir vaga para as consultas hospitalares, e passou a ter esta oportunidade para melhorar a qualidade de vida.

"Sentem-se acompanhados, cuidados. Apesar de a consulta ser só uma tarde por semana, sabem que têm uma porta sempre aberta porque estamos cá todos os dias. E sentem as melhorias. Logo na primeira consulta é-lhes explicado que há um controlo da doença, e não a cura. Há essa desmistificação. A explicação ao doente é importante e valorizam isso. Mudamos a expectativa, que não pode ser a de ficar sem dor, mas sim de tê-la controlada. E todos os ganhos que vão tendo são valorizados", resume Mafalda Cerqueira, que era interna quando começou neste projeto.

Em quatro anos, a USF Lethes já fez cerca de duas mil consultas da dor a mais de 500 pessoas, com cerca de 80% dos doentes a reportarem um grau de melhoria significativo.

Raul Marques Pereira atribuiu este sucesso a "uma avaliação precoce e uma abordagem muito integrada e de proximidade" com os utentes. No quadro dos resultados coloca ainda os 70% de doentes que deixaram de recorrer a consulta aberta da USF por motivo de dor não controlada e a redução de quase 11 pontos percentuais na prescrição anual de anti-inflamatórios, que baixou para 29% em 2018.

Perguntas a Raul Pereira, Coordenador da consulta de dor da USF Lethes

"Doentes não tinham o melhor seguimento"

O impulsionador da consulta fala da reação dos colegas dentro e fora da instituição.

Como surge o seu interesse por este tema?
Desde o início da carreira que, na atividade privada, estou ligado aos cuidados continuados e paliativos, o que me despertou para esta realidade da dor. Percebi que há muitos internados com uma dor não controlada e que os doentes não tinham o melhor seguimento, estavam a consumir muitos recursos e a perder muito tempo sem terem a melhor resposta.

Como têm reagido os outros profissionais da USF?
Isto é uma mudança de paradigma, mas a generalidade dos colegas entende que é necessária esta consulta, até pelas questões muito técnicas que a dor tem. Temos a consulta cheia e se enviam os doentes é porque continuam a acreditar nela e a validá-la.

Esta iniciativa é facilmente replicável noutros centros de saúde?
Vários colegas de todo o país já nos pediram para conhecer o protocolo, assistir às consultas e estão a tentar iniciar isto noutras unidades, como em Lisboa ou no Alentejo. Com o protocolo, qualquer médico consegue perceber o que fazemos e fazer igual. A nível de estrutura de consulta é possível montá-la em qualquer sítio.




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