Em Viseu não precisa de faltar ao trabalho para ir à consulta

Todos os médicos da USF Grão Vasco, em Viseu, trabalham, uma vez por semana, das 8 às 20, para que os seus utentes possam ir à consulta sem faltar ao trabalho. E dedicam meia hora diária para atendimentos inesperados.
Em Viseu não precisa de faltar ao trabalho para ir à consulta
Bruno Simões 29 de maio de 2014 às 11:19

Unidade de Saúde Familiar (USF) Grão Vasco, em Viseu, tem um lema. "Não faças aos outros aquilo que não queres que te façam a ti". A frase não está directamente à vista de todos, mas reflecte-se nas acções diárias da equipa de 20 pessoas que assegura o funcionamento desta unidade, que é finalista do prémio Saúde Sustentável. É por isso que os oito médicos de família que a compõem "têm um horário alargado, uma vez por semana, das 8 da manhã às 8 da noite", para que as pessoas "que entram às 9 e querem uma consulta antes das 9 ou que saem às 6 ou às 7 e querem consulta até às 20", conta a coordenadora, Graça Martins.


Mas é também por isso que, apesar de cumprir todos os objectivos contratualizados com o agrupamento de centros de saúde (ACES) Dão Lafões, "não deixámos de tratar bem os utentes". Entre as várias poupanças e ajustamentos que foi necessário fazer, o nível de cuidados prestados não diminuiu, assegura Graça Martins, que recebe o Negócios no seu gabinete. Pintado de rosa pastel, é pequeno mas é o maior da unidade. "Este edifício foi feito por arquitectos que não tiveram em conta as necessidades médicas", lamenta a coordenadora.


As situações mais urgentes, os "agudos", são vistas no próprio dia. A triagem é feita por uma enfermeira, que decide se é necessário o utente ser visto ou não. Os médicos dedicam meia hora da manhã e da tarde para esses atendimentos.

 

A USF está pintada com cores suaves e tem vários animais, plantas e estrelas nas paredes. A sala de espera, onde está o quiosque que já serviu para pagar consultas (essa função está agora avariada, serve apenas para dispensar senhas), tem uma pequena área para as crianças brincarem. O acompanhamento dos doentes com diabetes, em especial das maleitas provocadas pela má circulação, evitou a necessidade de fazer amputações nestes doentes.

 

As consultas são marcadas sempre num prazo de cinco dias úteis, conta a enfermeira, que traz uma pequena galinha de peluche no bolso da bata. O centro de saúde onde está a USF Grão Vasco foi construído no ano 2000. A então ala de saúde materna e infantil foi transformada nesta USF em 2006. Em 2008, esta unidade passou a modelo B. As USF são unidades diferentes dos centros de saúde tradicionais porque só lá vão utentes com médico de família. "O ideal era só haver USF, mas não sei se será possível", atira a coordenadora.


Há médicos que atendem antes da hora
As diferenças face aos antigos centros de saúde - agora designados de Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP) - são flagrantes. "Não temos filas de espera, por isso a taxa de cobertura é muito maior", sublinha. Um papel afixado na parede mostra o tempo de espera médio de cada um dos oito médicos. O mais rápido atende 16 minutos antes da hora, e a mais demorada fá-lo 21 minutos depois do horário estipulado.

 

 

Temos conseguido sempre atingir os objectivos, desde o início. Não somos uma unidade muito gastadora mas não deixamos de tratar bem os utentes. Porque somos diferentes? Trabalhamos no sentido sempre da qualidade clínica.
Graça Martins, Médica e coordenadora da USF Grão Vasco

 


Aqui não há nenhum utente sem as vacinas em dia. Fazemos três avisos por telefone e, ao quarto, vamos ao domicílio do utente para saber por que razão a pessoa não veio à USF.
Cristina Seixas, Enfermeira

 


A satisfação pessoal e profissional por trabalhar aqui é muito maior do que no centro de saúde. É uma outra maneira de abordar a saúde.
José Rodrigues, Secretário clínico

 


Quando Cristina Seixas, uma das enfermeiras, chega de manhã ao centro de saúde, tem sempre entre "10 a 15 pessoas à porta". Mas "nenhuma é para aqui". O centro de saúde Viseu III integra a USF Grão Vasco, a USF Viriato e a USCP D. Duarte. É para esta última que vão as pessoas que chegam mais cedo. "Os nossos utentes não vêm para cá antes da hora", porque não é preciso.


As três unidades estão bem apetrechadas, com valências que raramente se encontram em centros de saúde, como raio-x, médico dentista e até fisioterapia.


Os utentes confirmam que estão satisfeitos com este modelo. Mais do que quando eram tratados por estes mesmos médicos, mas no centro de saúde. "A marcação de consultas é mais rápida e estou muito satisfeita", conta-nos uma utente que, com a pressa para ir buscar a filha, se esquece de dizer o nome. Na sala de espera, onde está um moderno quiosque digital onde, em tempos, era possível pagar as consultas sem ter de consultar os secretários clínicos, está sentado Miguel, de 11 anos, com a caderneta dos cromos do Mundial na mão. Irá ao médico? "Não, vim com as minhas tias". A caderneta já tem muitos cromos, e Miguel até tem 16 repetidos, que se disponibilizou ali a trocar.

 

30

 

Todos os dias, os médicos dedicam 30 minutos a consultas não programadas, para atenderem casos urgentes.

 

A USF Grão Vasco está acreditada pelo Ministério da Saúde desde 2011 e isso deve-se, em grande parte, ao manual de qualidade desenvolvido pela equipa da Qualidade, de que fazem parte Graça Martins, Cristina Seixas e a secretária técnica Glória Murça. Cada uma representa as três categorias profissionais da USF. O manual "descreve o que cada um deve fazer em determinada situação", explica Graça. "Por exemplo, se chegar aqui um funcionário novo e quiser saber como fazer a recepção ao utente, vem aqui e está descrito o que deve fazer em cada situação". O documento, disponível em todos os computadores, é útil "quando há dúvidas" quanto ao que fazer e é "permanentemente actualizado" com as leis e despachos que saem.

 

 

 

Caso de inovação


Manual de qualidade
Autoria de três profissionais


O manual de qualidade da USF Grão Vasco é o documento que mais orgulha as três mulheres da equipa da Qualidade. Graça Martins, médica e coordenadora, Cristina Seixas, enfermeira, e Glória Murça, secretária técnica, já trabalham neste guia de procedimentos desde que estão no centro de saúde - antes da USF, ou seja, ainda antes de 2006. O documento, disponível informaticamente, lista diversas situações na prestação de cuidados, na gestão e nas questões técnicas. "Serve para orientar qualquer membro da equipa que chegue, e para nós consultarmos, na dúvida", explica Graça Martins, que exemplifica: "Se alguém diz que é assim que se faz e outro diz que é assado, vamos ao manual tirar a dúvida". "Toda a gente pode dar sugestões", acrescenta Cristina Seixas. Quando os procedimentos mudam, qualquer funcionário pode avisar. A equipa depois aprova as alterações.

 


A figura

 

Graça Martins
Médica Coordenadora da USF Grão Vasco

 

Como líder da equipa de 20 profissionais da USF Grão Vasco, Graça Martins é a principal figura desta unidade de saúde. Além de ser uma das médicas de família, esteve na origem da transformação desta ala do centro de saúde Viseu III na USF Grão Vasco. Faz parte da equipa da Qualidade, responsável pela elaboração do manual de procedimentos. Graça, na casa dos 50 anos, formou-se em Medicina na Universidade de Coimbra, em 1976. Obteve a especialização em medicina geral e familiar em 1981. Durante um ano esteve no Sátão, e depois foi para o centro de Saúde Viseu I, "que já nem existe". Mudou-se para o Viseu III porque Lino Ministro foi convidado para dirigir essa unidade. Mais tarde, Graça Martins ficou a coordenar (e não dirigir) a USF.