Enfermagem de reabilitação dá apoio aos “esquecidos”

O projeto da Unidade de Saúde da ilha de São Miguel é composto por cinco enfermeiras que asseguram que a iniciativa aumenta a qualidade de vida dos utentes e reduz custos ao serviço regional de saúde.
Enfermagem de reabilitação dá apoio aos “esquecidos”
Ana Diogo, Rafaela Almeida, Zélia Medeiros, Elisabete Lima, Vânia Viveiros e Sandra Guiomar são as enfermeiras deste projeto da unidade de saúde açoriana.
Rui Pedro Paiva Leandro Duarte - Fotografia 08 de novembro de 2019 às 14:26

Miguel tem onze anos e síndrome de Joubert, uma patologia caracterizada pela malformação do tronco cerebral, que leva a dificuldades respiratórias e a dificuldades no desenvolvimento motor. Vive com os avós em Santo António, uma freguesia rural do concelho de Ponta Delgada, que dista cerca de dezasseis quilómetros do hospital do Divino Espírito Santo, o único hospital da ilha de São Miguel, nos Açores.

Não têm carro, nem forma de se deslocar. E por isso era a ambulância dos bombeiros que ia buscá-los todos os meses: a frequência com que Miguel era internado. "Era internado mês a mês e agora já não é há mais de cinco anos", explica ao Negócios a enfermeira Sandra Guiomar, uma das cinco profissionais que integram o projeto "Enfermagem de reabilitação em contexto domiciliário", implementado a partir de 2011 pela Unidade de Saúde da ilha de São Miguel. O objetivo é "tirar o hospital de fora de quatro paredes", resume Ana Diogo, outra enfermeira da equipa.

Em vez de ficarem no hospital "à espera de novo internamento", deslocaram-se à casa do Miguel para fazer cinesioterapia. O resultado surpreendeu os próprios bombeiros, que habituados a ir buscá-lo regularmente, chegaram a temer o pior: "os próprios bombeiros pensaram que tinha acontecido alguma desgraça porque nunca mais tinham ido a casa dele", assinala a enfermeira Rafaela Almeida,.

Além da melhoria de saúde do Miguel, a família, que "passava dias inteiros no hospital" e que "geria as rotinas conforme a disponibilidade das ambulâncias", ganhou em qualidade de vida.

Estamos a falar numa redução cerca de 71% dos custos.  elisabete lima
Enfermeira responsável pela crição do projeto


Este é um dos exemplos apontados pela equipa para demonstrar o sucesso do projeto, que começou com o "intuito de colmatar as necessidades da população alvo da equipa de apoio integrado domiciliário" e que é definido como "uma equipa que vai ao domicílio fazer enfermagem de reabilitação, atuando na prevenção", segundo Rafaela Almeida.


75
Utentes
Número de pessoas que foram apoiadas em 2018. A equipa estima que reduziram os internamentos em 54,1%


Além dos benefícios para o utente e para a família, há vantagens financeiras na iniciativa. Com a atuação em 75 utentes em 2018, a equipa estima que conseguiu reduzir em 54,1% o número de internamentos, o que equivale a uma poupança de 43,6 mil euros para o serviço regional de saúde. Um internamento por infeção respiratória, por exemplo, custa cerca de 2.400 euros, enquanto que a intervenção preventiva de um enfermeiro custa, em 12 sessões, 704 euros. "Estamos a falar numa redução cerca de 71% dos custos", frisa Elisabete Lima, a enfermeira da equipa responsável pelos indicadores, que, além das vantagens na qualidade de vida do utente, aponta ainda a inexistência do risco de infeções hospitalares.

Elisabete Lima é a responsável pela criação deste projeto da unidade de saúde açoriana.
Elisabete Lima é a responsável pela criação deste projeto da unidade de saúde açoriana.

Estes números fazem parte do conjunto de dados que constituem uma das "vertentes" do projeto, que está "apoiado em indicadores concretos", que "permitem a reformulação constante" e a "adaptabilidade às necessidades dos utentes". Entre os indicadores, está o grau de satisfação dos utentes e das famílias com a prestação dos serviços, que em 2018 teve uma média de 94%.

Nós vamos precisamente ter com os que não têm voz, com os esquecidos, com aqueles que só são relembrados quando entram outra vez no serviço de urgência.  Sandra Guiomar
Enfermeira


A outra "vertente", destaca Vânia Viveiros, é a "proximidade". "Eles tratam-nos como família", desenvolve a enfermeira, explicando que existe sempre uma chamada telefónica aquando de uma data especial ou uma fatia de bolo quando um dos utentes faz anos. "Somos muito mimadas", confessa.

Alargar as áreas de atuação

Apesar do caso do Miguel, a criança de 11 anos é uma exceção nas características da maioria dos utentes do projeto, composto por uma população" maioritariamente idosa", com um "conjunto de debilidades", sobretudo "patologias do foro respiratório", e com um "grau de dependência de total a severo". Tendo em conta que os doentes que se conseguem se deslocar ao hospital são, "à partida, utentes com mais capacidade de mobilidade e deslocação", os grandes beneficiários do projeto acabam por ser os idosos, com poucas condições de deslocação e que vivem em zonas rurais e isoladas dos centros urbanos da ilha. "Nós vamos precisamente ter com os que não têm voz, com os esquecidos, com aqueles que só são relembrados quando entram outra vez no serviço de urgência", aponta a enfermeira Guiomar, que faz questão de frisar que "Ponta Delgada não é só a cidade" e que existe uma parte significativa da população que "com a sua ruralidade e dificuldades económicas, de literacia e compreensão" está afastada dos principais polos de saúde.

A enfermeira Rafaela dá o seu exemplo: nesta semana foi três vezes aos Mosteiros, freguesia que fica a mais de 30 quilómetros do hospital. Foi tratar de um doente "idoso que tem como cuidador outro idoso". "É preciso muita resiliência, nós também procuramos formar e ajudar os cuidadores", salienta Ana Diogo.

Apesar da distância, a freguesia ainda pertence a Ponta Delgada, mas existem muitas outras zonas na ilha onde (ainda) não conseguem chegar. O projeto tem uma taxa de implementação na ilha de São Miguel de 20%, abrangendo Ponta Delgada e Lagoa, dois dos seis concelhos da ilha.

Por isso, para o futuro, o objetivo passa por alargar as áreas de atuação, para continuar a dar voz aos esquecidos. "Se um utente que está em Ponta Delgada já tem essas dificuldades de deslocação, imagine nos outros concelhos mais afastados", aponta a enfermeira Elisabete, mostrando que "a sua maior satisfação" (e da restante equipa) era o projeto ser alargado a toda a ilha e depois replicado em toda a região. Para isso, é preciso reforçar a equipa, porque, tal como reconhece a enfermeira-chefe Zélia Medeiros, os "recursos humanos são poucos". Apesar da equipa ser constituída por cinco enfermeiras, nem todas estão diariamente ao serviço do projeto. "O que garantimos é que por dia haja pelo menos duas", explica, justificando que, em 2018, a média de profissionais no projeto por dia foi de 2,5. As restantes tiveram de prestar serviços nos cuidados gerais, porque "nem sempre há enfermeiros em número suficiente".

No fim, deixam uma mensagem a justificar porque devem ganhar o concurso: "ganhos em saúde, para o utente e família, chegamos aqueles que não têm voz, temos tudo alicerçado em objetivos e indicadores e reduzimos os custos do serviço regional de saúde". Até porque é um projeto que, como diz Ana Diogo, que "caminha naquilo que deve ser o futuro da organização de serviços de saúde". Pode ser que nos Açores, o futuro dos cuidados de saúde domiciliário passe por elas.


A figura
Elisabete Lima
Responsável pelo projeto

Maria Elisabete Oliveira Lima, nasceu em 1983, na freguesia de São José, em Ponta Delgada. A mesma freguesia onde se encontra o hospital Divino Espírito Santo, onde, em 2006, iniciou o percurso profissional no serviço de cirurgia geral, e o centro de saúde de Ponta Delgada, onde trabalha desde 2008. No início, no centro de saúde, esteve na prestação de cuidados gerais. Aí trabalhou com idosos com um "grau de dependência elevado" e percebeu que "esta população carecia de cuidados de enfermagem de reabilitação". Decidiu especializar-se nesta área e no final de 2010, já com a especialidade concluída, iniciou a implementação do projeto. Em criança, queria ser professora: desde a infância que gosta de ensinar. A enfermagem permite-lhe exercer essa paixão, uma vez que "grande parte da intervenção do enfermeiro passa pela educação para a saúde". Tem dois filhos e o que mais gosta de fazer "é passear com a família". Para o futuro, deixa o desejo de que o projeto que fundou seja aplicado em toda a região.



"Os vídeos dos projetos finalistas ficam disponíveis, a partir de 22 de novembro, em www.premiosaudesustentavel.negocios.pt"




Marketing Automation certified by E-GOI