Fernando Pádua : "A batalha contra o sal ainda não está ganha"

Fernando Pádua recebeu o Prémio Personalidade. O professor catedrático jubilado e presidente do Instituto Nacional de Cardiologia Preventiva contraria o ministro da Saúde ao afirmar que ainda não ganhou a batalha contra o consumo excessivo de sal.
Fernando Pádua : "A batalha contra o sal ainda não está ganha"
Pedro Simões
João D'Espiney 11 de outubro de 2018 às 16:00
O professor do coração, como gosta de ser chamado, admite que as universidades ainda estejam "um bocadinho fechadas" nas suas torres de marfim e lembra, citando Einstein, que" o saber é muito importante mas mais importante é compreender".

Acha que as pessoas, de uma forma geral, têm seguido a sua máxima de que a saúde é demasiado importante para deixar só aos médicos?
Tenho a certeza de que sim. O grande sucesso da nossa campanha contra a hipertensão foi no dia 7 de Abril de 1972. Dia Mundial da Saúde, em que a OMS escolheu a hipertensão e pela primeira vez tive coragem de ir para a rua falar com as pessoas porque antes os próprios médicos achavam que era um gaiato que vinha da América com americanices e queria só protagonismo. Havia outra máxima do Paul White [cardiologista pioneiro e um dos professores de Pádua nos EUA], é que as universidades não se podem fechar nas suas torres de marfim. As pessoas querem saber. Lembro-me nessa altura - reconheço que grande parte do sucesso da minha campanha pública contra a hipertensão se deveu à Maria de Lurdes Modesto, que entrou num curso de seis lições na televisão. Soubemos que houve pessoas que chegaram a comprar transformadores para puderem ver o programa na taberna da vila. A Lurdes Modesto tem metade do êxito, se não mais, no que foi a luta contra a hipertensão. Eu falava na hipertensão e nos cuidados a ter e ela depois ensinava a cozinhar. E, citando Einstein, o saber é muito importante mas mais importante é compreender.

As universidades já estão a fazer esse papel ou ainda estão nas torres de marfim?
Ainda estão um bocadinho fechadas. Mas como são independentes, há umas que avançam mais do que outras.

"Estamos formidavelmente mais saudáveis. [Mas] começámos há poucos anos."

"É possível ganhar a guerra [do açúcar] mas não estamos no bom caminho na obesidade." 

A esperança média de vida tem aumentado nas últimas décadas, mas estaremos mais saudáveis do que no tempo em que começou a exercer?
Nitidamente, formidavelmente mais saudáveis. O que acontece que é começámos a ser saudáveis há poucos anos. A mortalidade por doenças cardio-cérebro-vasculares é neste momento menos 70% do que era. A baixa da mortalidade na década de 70/80 foi tão grande que colegas meus lhe deram o nome no Hospital de Santa Maria de "década gloriosa".

Mas há vários estudos que dizem, por exemplo, que as crianças não têm uma alimentação saudável.
Está a tocar num problema. Por isso digo que é preciso cuidar dos sub-20, se querem chegar aos 120 anos vivos, alegres e saudáveis. O Ministério da Educação já introduziu o tema dos estilos de vida saudáveis, mas não basta só tirar o sal e medir a tensão. É preciso fazer exercício físico, parar de fumar, reduzir o sal e o açúcar. No outro dia, o ministro da Saúde disse: "O prof. Pádua ganhou a batalha do sal, eu vou ganhar a batalha do açúcar."

Ganhou mesmo?
Já se reduziu bastante o consumo de sal, mas ainda não está ganha.

E a guerra contra o açúcar?
O ministro é que deve responder. Nós ajudamos. Mas é possível ser ganha. No entanto, a coisa que mais impressão me faz é ver tanta gente gorda nas praias.

"Este movimento antivacinação é em grande parte uma idiotice."

"Já aumentei a fasquia. Em vez de esperar até aos 120 anos vamos para os 142." 

Em relação à obesidade, não estamos a evoluir no bom sentido.
Não, não estamos. Porque o não comer açúcar é uma coisa, outra coisa é comer vegetais e ter uma dieta mediterrânica. É preciso reduzir as calorias e aumentar o exercício. A obesidade é um factor de risco muito importante para várias doenças crónicas e não é só para a diabetes. Como não dói, as pessoas pensam que é só um problema de silhueta, mas é uma doença grave.

Como vê este movimento antivacinação?
Em grande parte é uma idiotice. Pode haver alguma vacina que tivesse dado algo de errado, como aconteceu no passado, mas a necessidade de dar vacina é inquestionável. O nosso grande sucesso na diminuição da mortalidade infantil foi de facto a vacinação a seguir ao 25 de Abril. n

pERFIL

O professor do coração 

Fernando Manuel Archer Moreira Paraíso de Pádua nasceu em Faro em 1927. Foi o melhor aluno do liceu e licenciou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa - onde também foi o melhor aluno do seu curso - e graduou-se em Cardiologia pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Aos 39 anos, já era o mais novo professor catedrático do país. Actualmente, é professor catedrático jubilado e presidente do Instituto Nacional de Cardiologia Preventiva, onde ainda dá consultas, e da fundação com o seu nome. Grande parte dos seus últimos 60 anos foram dedicados ao estudo, ao ensino, ao exercício da cardiologia e à defesa da cardiologia preventiva. 



"O agradecimento das pessoas é o mais importante"

Está quase a fazer 92 anos. Olhando para trás, de que é que mais se orgulha?
Encontrar pessoas na rua que me agradecem: "Ai sôtor desde que falou no tabaco o meu marido parou de fumar e está tão melhor". O agradecimento das pessoas é o mais importante.

E há alguma coisa de que se arrependa?
Ter parado 20 anos porque sentia a crítica acesa dos meus colegas. Talvez pudesse ter sido mais inteligente e ter começado mais cedo a falar [sobre a medicina preventiva] com os colegas.

Houve algum sonho que tenha ficado por realizar ou que ainda tencione concretizar?
O meu sonho tem sido desde sempre haver um canal saúde. A transmissão pela televisão tem muita força. O ministro da Saúde já me disse: "Esteja descansado que vai ter o seu canal de saúde." Ando a lutar por isso desde os anos 70.

Já disse que tenciona viver até aos 120 anos. Até quando tenciona trabalhar?
Trabalho todos os dias.

Chegou a dizer numa entrevista que agora até trabalha mais do que quando se "reformou" aos 70 anos.
Exacto. Agora tenho aqui o horário o dia inteiro quando antes tinha só até às quatro da tarde. E depois tinha o consultório. Mas cheguei a trabalhar até às três da manhã no consultório.

Será possível que a esperança média de vida possa vir a subir pelo menos para os 120 anos?
Outro dia a revista Time tinha conselhos sobre medicinas comportamentais. Na primeira página estava um miúdo que eles diziam que, com o conhecimento que há neste momento, já se pode pôr como tabela este bebé pode viver até aos 142 anos. Pelo que já aumentei a fasquia. Em vez de esperar até aos 120 vamos para os 142 [risos].

Acha mesmo queum dia será possível?
Há um caminho em que não estou directamente ligado. O professor Sobrinho Simões, o nosso melhor patologista, mundialmente reconhecido, tem uma esperança enorme na genética e que, mexendo nos cromossomas, se possa prevenir a doença ainda antes mesmo do nascimento. Outro dia numa conferência ele dizia: "Eu só falo até ao nascimento, depois é com o prof. Pádua." Ou seja, está a contribuir também para que o tal bebé possa viver até aos 142 anos.

Como é que gostava de ser reconhecido nos livros de História?
Como o professor do coração.

Alguma vez teve o coração partido?
No curso de Medicina, tive um amor e quando cortei com ela, porque achei que ela gostava mais de outro, sei que sofri o suficiente para ter o único 16 no meu curso. Tudo o resto foram 17, 18, 19 e 20.

Há cura para os corações partidos?
Arranjar outro. [risos]





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