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IPO do Porto troca a "condenação" pela esperança

Venda de ensaios clínicos, de informação a farmacêuticas, serviços de radioterapia ou tratamentos a estrangeiros são algumas armas do instituto de oncologia para atenuar o "estrangulamento" financeiro do accionista Estado.

António Larguesa alarguesa@negocios.pt 28 de Maio de 2014 às 14:41
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O serviço de quimioterapia do IPO do Porto acolhe cerca de 250 doentes por dia para a realização de tratamentos, que podem chegar a demorar oito horas cada um. É um trabalho que exige "muita gestão emocional" à equipa de 32 enfermeiros liderada por Alice Monteiro. O que não pode faltar? "Um sorriso", responde a chefe do serviço.

 

 

"Em todas as lágrimas há uma esperança". A citação da filósofa existencialista Simone de Beauvoir é uma das 70 que decoram os corredores do Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto, escolhidas em segundo recurso por um utente que nos poetas só encontrava melancolia e desgraças. "Isto não é uma casa de condenação, é uma casa de esperança", reclama o presidente, Laranja Pontes, que se recusa a ceder também às amarras do financiamento público encolhido de 150 para 108 milhões de euros entre 2010 e 2014.


Aberto como uma pequena extensão de Lisboa a uma semana do 25 de Abril de 1974 - por isso não chegou a ter inauguração oficial -, o instituto chega à ternura dos 40 como o maior prestador de cuidados nacionais de oncologia, com dez mil novos doentes, 260 mil consultas e nove mil cirurgias por ano, empregando dois mil profissionais. O "check-in" electrónico dá as boas-vindas de modernidade aos doentes, que entre os espaços de consulta "super-especializados" por patologia (divididos em dez clínicas) e os locais de tratamento circulam por um corredor de arquitectura semelhante ao dos aeroportos.


Uma das "mangas" conduz ao hospital de dia, onde se realiza a quimioterapia, mas onde a dureza dos tratamentos, aos olhos dos visitantes, só pode ser adivinhada ao cruzar-se com os doentes de aspecto mais debilitado. É um espaço "clean", com capacidade para 65 cadeirões, onde o material necessário para cada tratamento chega em sistema de vácuo dos serviços farmacêuticos em minuto e meio - um funcionário demorava antes dez minutos a fazer esse circuito.

 

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Investimento, em milhões de euros, na reconstrução e no equipamento da área de radioterapia, que dispõe de oito aceleradores de partículas.

 

É por umas longas escadas rolantes que se acede ao centro de radioterapia, equipado com oito aceleradores lineares de última geração e construído de raiz há dois anos num investimento de 27 milhões de euros com capitais próprios. O amplo espaço de espera, semelhante a uma sala de embarque, pode remeter os mais iludidos para um cenário cinematográfico de ficção científica, mas é bem real a capacidade de satisfazer todas as necessidades internas da instituição e ainda vender serviços de "alta diferenciação" a outros hospitais.


Eficiência e mais dinheiro em caixa
O serviço de "call center", em que um assistente contacta regulamente os doentes - "não interessa só saber se está vivo, mas se consegue lavar-se e comer sozinho, se consegue ir trabalhar, se está deprimido ou feliz", detalha o vogal da administração, Francisco Gonçalves - é outra das inovações recentes, que aumenta o acompanhamento e trará poupanças, como a redução do número de consultas ou do custo dos medicamentos. E recursos como a informação recolhida, que ainda esta semana provou o seu valor económico, com uma empresa farmacêutica a propor ao IPO o fornecimento de dados sobre epidemiologia: uma amostra representativa da comunidade que servirá para essa multinacional planear melhor investigação e vendas.

 

 

Ser uma instituição pública é um ponto de estrangulamento. Se fossemos privados estaríamos a concretizar outros investimentos para satisfazer a procura, conquistar outros mercados, contratar mais gente.
José Laranja Pontes, Presidente do IPO do Porto

 


O 'pipeline' está afinado para o doente não ter que esperar e, às vezes, é no dia a seguir [ao diagnóstico]. Há dias, um amigo que teve um funcionário referenciado para cá até me ligou: 'ele deve estar mesmo a morrer porque foi ontem ao médico e hoje já lhe estavam a marcar a consulta'.
Francisco Gonçalves, Vogal do conselho de administração do IPO do Porto

 


Os nossos problemas devem ficar lá fora. É desagradável estar a fazer tratamentos destes e ter à frente um enfermeiro com uma cara pouco agradável. E os doentes reconhecem o nosso sorriso.
Alice Monteiro, Enfermeira-chefe do Hospital de Dia

 


Esta é uma fonte de receitas que se juntará em breve a outras, como aquelas provenientes do centro de produção de ensaios clínicos, que já está inclusive a exportar esse trabalho especializado e de alto valor acrescentado. Ou ao dinheiro em caixa que estão a trazer os primeiros doentes estrangeiros, provenientes sobretudo da Europa de Leste e de África, que, atraídos pelos mesmos indicadores de efectividade clínica e os preços mais baixos, vêm ao Porto fazer tratamentos ao cancro ou transplantes de medula óssea, que aqui custam 150 mil euros e em Paris ascendem a 350 mil euros. Contas feitas, em conjunto, as receitas próprias já valem 10% do total, ajudando a atenuar o "estrangulamento" da expansão provocado pelas insuficiências financeiras do accionista Estado.

 

José Laranja Pontes, especialista em cirurgia plástica, lidera desde 2006 o conselho de administração do IPO do Porto. Durante o seu mandato remodelou por completo a organização do atendimento à volta dos doentes e avançou para a remodelação das instalações e do parque tecnológico nas áreas da radioterapia, quimioterapia e cirurgia.

 

Com uma taxa de ocupação superior a 85%, Laranja Pontes orgulha-se de, apesar da especialização em oncologia, liderar o hospital da região Norte com "mais baixos custos-padrão por doente tratado", que justifica com a "elevada eficiência" nas operações clínicas e no controlo da estrutura de custos. Não escondendo a satisfação também por cerca de 60% dos doentes estarem vivos ao fim de cinco anos, contribuindo para que Portugal tenha estatísticas de sobrevivência semelhantes às de países como a Suécia e Finlândia, como demonstrou o estudo "Eurocare 5".

 

 

 

 

Caso de inovação


Bem-me-ker
Quiosques electrónicos


Desde o final de 2012, os utentes deixaram de precisar de se "encostar ao balcão" e esperar na fila de um "guichet" de atendimento quando chegam às instalações do IPO do Porto. Há dezenas de quiosques electrónicos, desenvolvidos em parceria com a PT e baptizados como "Bem-Me-Ker", nos quais o doente insere um documento de identificação e fica a saber qual o gabinete onde será atendido, pode imprimir uma declaração de consulta para entregar no trabalho ou até proceder ao pagamento de taxas moderadoras, entre outras aplicações. Isto possibilitou diminuir as necessidades de atendimento personalizado, libertando recursos administrativos para áreas de negócio, como os ensaios clínicos e o departamento de efectividade clínica, que normalmente não estão na "malha organizacional" dos hospitais e em que o IPO está a apostar para aumentar as receitas próprias.

 

 


A figura

 

Alice Monteiro
chefe do "Hospital de Dia"


O Hospital de Dia, onde 250 pessoas fazem todos os dias tratamentos de quimioterapia - podem demorar de 30 minutos a oito horas -, é descrito por todos como o local "mais pesado" do IPO, pois exige maior gestão emocional e delicado contacto humano. A equipa de 32 enfermeiros é dirigida por Alice Monteiro, 48 anos, que passou por todas as áreas de oncologia, sempre nesta instituição. "Os nossos problemas devem ficar lá fora. É desagradável estar a fazer tratamentos destes e ter à frente um enfermeiro com uma cara pouco agradável. E os doentes reconhecem essa simpatia, o nosso sorriso", referiu a enfermeira-chefe, que tem especialidade em Saúde Mental. Ainda assim, admitiu, "somos pessoas, acaba-se por viver alguns problemas dos doentes e há situações que tocam e vai-se a pensar nelas no caminho para casa".

 

 

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