João Rodrigues Pena: Portugal está no "top 5" mundial dos transplantes

João Rodrigues Pena é um dos pioneiros dos transplantes em Portugal e constituiu a unidade do Curry Cabral que já fez quase 2.500 cirurgias deste tipo. Foi ele o galardoado com o prémio Personalidade.
João Rodrigues Pena: Portugal está  no "top 5" mundial dos transplantes
Miguel Baltazar
Bruno Simões 16 de junho de 2016 às 12:14
A transplantação em Portugal deve muito a João Rodrigues Pena. Foi este cirurgião que criou a unidade de transplantação do hospital Curry Cabral, que é hoje uma referência a nível mundial, e que participou nos primeiros transplantes bem-sucedidos de rim e fígado. Pena também fez parte da equipa que conseguiu transplantar o primeiro fígado na Europa, em Cambridge. Um percurso agraciado com o Prémio Personalidade da Saúde Sustentável.

Formou-se em Medicina. Quando é que decidiu enveredar pela transplantação?
Depois de ser mobilizado [para a Guerra Colonial], voltei para Lisboa, para os Hospitais Civis, e fui trabalhar com um colega meu para o Instituto de Fisiologia da Gulbenkian, o Hugo Gil Ferreira. Ele precisava de um cirurgião que o ajudasse numas preparações fisiológicas e eu lá fui, uma vez por semana. Entretanto surgiu uma bolsa no laboratório. Eles não tinham nada nem ninguém, e o meu colega convenceu-me a aproveitar essa bolsa. Foi aí que surgiu a oportunidade de ir para Cambridge.

Foi nessa altura que contactou com uma área totalmente diferente, em 1967.
Sim. Com alguma relutância e depois de um ano de dedicação lá aceitei ir para Cambridge trabalhar em transplantação renal. Tive uma surpresa logo na resposta muito amável do professor Roy Calne. Ele disse-me que a melhor altura seria quando um australiano que lá estava saísse, e ele queria-me no lugar dele, e além de fazerem transplante renal em clínica estavam a fazer transplante hepático experimental. Para mim foi uma maravilha. Fui para lá e caí na equipa de uma pessoa que era professor catedrático, dois anos mais velho que eu, e era muito fácil o contacto. A equipa era muito pequena, quatro cirurgiões, de modo que tive todas as oportunidades da vida durante aqueles dois anos. Estive em 18 transplantes de fígado, e um deles foi o primeiro na Europa, em 1968. Também fiz seis transplantes de rim lá.

Como foi esse primeiro transplante de fígado?
Não demorou muito. O Calne era rapidíssimo, deve ter durado três horas, três horas e meia.

Como é que, hoje, Portugal compara com o resto do mundo na transplantação?
Está bastante bem. Chegámos a estar à frente, mas estamos entre os cinco primeiros, muito perto uns dos outros.

Quem lidera essa lista?
Espanha colhe muitos órgãos mas transplanta menos. Andamos ela por ela com Espanha e França. Inglaterra nem tanto.

Em Portugal, só em 1992 é que se conseguiu fazer o primeiro transplante hepático. Porquê?
Quando voltei a Portugal tinha muita experiência de transplantação. Era o mesmo que eu ser um herege, um proscrito. Não queriam que um interno dos Hospitais Civis tivesse uma experiência superior à dos directores (risos). O doutor Júlio Machado Vaz até me disse: "tem cuidado, não venhas, deixa-te ficar por aí". Mas eu pensei que o melhor seria preparar as coisas desde o regime jurídico, as pessoas, os laboratórios para se poder começar os programas [de transplantação] com alguma dimensão.
Perfil Um benfiquista que está feliz João Rodrigues Pena tem 84 anos e viveu praticamente toda a vida em Lisboa, tirando os dois anos que passou em Cambridge (Reino Unido). É casado e tem dois filhos e três netos. Uma das suas filhas seguiu-lhe as pisadas e é médica cirurgiã, fazendo transplantes de rim. O filho é engenheiro, tirou um MBA e foi gestor na Rioforte, empresa do grupo Espírito Santo para o sector não financeiro. Rodrigues Pena é benfiquista e admite que ter sido campeão nesta temporada teve um sabor único. "Dava este campeonato por dois! Este foi muito especial". Eduardo Barroso, com quem trabalhou, não deve achar o mesmo.

O primeiro transplante em Portugal não correu bem, não é?
Foi em 1969, foi no dia em que um homem chegou à Lua pela primeira vez. Com um dador vivo, o doutor Linhares Furtado fez o transplante. Infelizmente o doente teve uma reacção anafiláctica a um produto injectado e veio a falecer um ou dois meses depois. Veja lá que a última sessão da Assembleia Nacional, a 24 de Abril de 1974, estava a discutir o transplante de órgãos. Mas a lei não resolvia nada, num dos artigos era proibido o transplante de órgãos "contra a moral e os costumes" (risos). Devia ser por causa de um filme italiano dessa altura [Frankenstein 80] em que havia o transplante de um órgão sexual… e a lei portuguesa acautelou logo essa situação.

E o primeiro transplante bem-sucedido, foi em 1980?
Sim, um em Lisboa e outro em Coimbra. Em 1975 foi publicado um decreto-lei, num Governo provisório, que esboçava, de maneira bastante positiva, e que veio influenciar a Europa, na obtenção de órgãos vitais para transplante. Só cinco anos depois é que foi possível reunir pessoas e condições, sob égide da fundação Gulbenkian, para iniciar um programa nacional de transplante renal, que é o mais urgente e é onde há mais prevalência. Passados 10 anos tínhamos feito 1.000. Era um programa bem estruturado, bem preparado e feito com qualidade.

Só depois se viraram então para o transplante de fígado.
Sim. Foi até num doente renal, com um tumor hepático, que ninguém aceitaria para transplante, mas que insistiu sobretudo junto do Eduardo Barroso, que trabalhava comigo. Dissemos: "vamos tentar pôr um fígado no homem". Era um jornalista da Madeira, um rapaz que teve azar: foi por uma questão de milímetros que o órgão não arrancou. Teve demasiado tempo de isquémia, esteve fora do dador um bocadinho de tempo a mais e o líquido de preservação não terá sido o mais adequado, de modo que o fígado não arrancou, e não há maneira de substituir o fígado quando ele não arranca.

Quando é que isso aconteceu?
Deve ter sido por volta de 1987. Aquilo foi muito publicitado, eu tive que ir à televisão explicar qual era a situação, qual era a urgência, porque é que as coisas não tinham resultado. E resolvemos rever toda a tecnologia do transplante hepático, que tinha entretanto evoluído, e começar de novo. Eu próprio fui para os EUA logo que pude, estive lá três meses com o professor Starszl. Trouxe de lá todos os apontamentos e todas as referências tecnológicas.

Isso permitiu que em 1992 se fizesse o primeiro hepático.
A fundação deu-nos todo o equipamento e em 1992 estava tudo pronto. "Vamos a isso!" E o primeiro transplante hepático foi feito nessa altura, e com sucesso, o que foi óptimo. Fizemos depois toda uma progressão no [transplante de] fígados que foi quase como o rim.

"Competição entre público e privado faz sempre bem" João Rodrigues Pena defende que a existência de privados na saúde promove a qualidade dos serviços públicos. E aponta algumas críticas ao Serviço Nacional de Saúde.

Os privados são essenciais para o SNS?
Essenciais não direi, mas dão uma ajudinha. É óptimo que seja possível às pessoas socorrem-se de um serviço privado.

Houve uma degradação da saúde com a troika?
São mais as vozes que as nozes. As pessoas falam mais e empola-se o que é negativo. Na transplantação a qualidade manteve-se de certeza, embora a quantidade tenha descido um bocadinho. Deixou de haver a possibilidade de haver escalas mais activas e numerosas em termos de pessoal. Nas outras especialidades, há listas de espera. Suponho que é esse o problema.

Aí é que os privados podem dar uma ajuda.
Gostam imenso de dar! (risos)

Mas tem que ser assim ou seria possível fazer tudo no público?
Para o utente é igual, e para mim, enquanto clínico, acho que a competição faz sempre bem. Juntar tudo num mesmo comando às vezes é perigoso, as pessoas desleixam-se. Inglaterra é um bom exemplo disso, não há um bom serviço de saúde. Todas as pessoas se queixam.

Como vê a evolução do SNS? Há coisas a melhorar?
Há passos que foram mais compridos que a perna. Um deles foi a medicina de família como especialidade. Outra, os cuidados continuados. Os hospitais querem ver-se livres dos doentes muito cedo, em alturas muito precoces, e isso não é muito apropriado. Mas a medicina evoluiu muito e os cuidados melhoraram imenso. n





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