Maria de Belém Roseira: Precisamos de uma nova AP na saúde

Ex-ministra defende uma gestão mais flexível, dinâmica e adaptativa. Mas para isso é fundamental ter profissionais motivados.
Maria de Belém Roseira: Precisamos de uma nova AP na saúde
Mariline Alves
Filipe S. Fernandes 11 de outubro de 2018 às 15:30
A ex-ministra da Saúde e presidente da comissão nomeada pelo Governo para elaborar uma proposta de nova Lei de Bases da Saúde defende que a nova gestão no sector terá de ser flexível, dinâmica e adaptativa, por causa das evoluções constantes. "O trabalho em saúde é muito complexo e difícil, as pessoas têm de estar muito motivadas, mas para isso temos de ter os melhores e os instrumentos necessários para os gerir", assinalou Maria de Belém Roseira durante a conferência.

Salientou que a proposta vai ter em conta novas soluções organizativas no SNS, que deve ter "uma prestação integrada, de continuidade e ao longo de todo o ciclo de vida". Para isso, acentuou que "são necessários profissionais bem preparados e com novas competências, mas sobretudo profissionais muito motivados". Para a ex-ministra da Saúde, a administração pública não é toda igual, e quando se trata por igual o que é diferente cometem-se erros e injustiças.

Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos, considerou que "há muita pressão por causa da questão dos custos, dos orçamentos, e temos cada vez menos tempo para estar com os doentes". Mas esta situação não é um exclusivo de Portugal. Esta ameaça à relação médico-doente não se deve apenas a estas condicionantes, "mas também pela evolução da tecnologia, que é muito importante para os médicos, no entanto começa-se a criar uma barreira importante entre a relação entre médico e doente".

Graça Freitas, directora-geral da Saúde, concorda que "há um desafio relacional para o futuro, que envolve as formas como os seres humanos se vão relacionar e se vai repercutir na relação médico-doente, que tem sido estável ao longo do tempo".

Como disse Miguel Guimarães, "nas doenças curáveis a evolução é grande. Nos indicadores em que podemos intervir, temos dado passos de gigante. Onde é que temos falhado? A partir dos 65 anos, temos maior esperança de vida, mas com uma carga de doenças crónicas. Estamos a falhar na promoção da saúde e na prevenção da doença."

Em Portugal, a partir dos 65 anos vive-se sem doenças, em média, 5,6 anos, enquanto nos países nórdicos a média sobe para 16 anos. Para Graça Freitas, o grande desafio da promoção da saúde e da prevenção da doença "é estar vivo muito tempo com saúde e empurrar a morbilidade o mais próximo possível da mortalidade".

O envelhecimento traz-nos as doenças não transmissíveis, que são crónicas, e que têm uma duração relativamente longa. "Podem surgir precocemente, muito antes de cumprirmos a nossa esperança de vida e implicam várias coisas. Além do sofrimento, da dor, um consumo enorme de recursos, mas também uma enorme fragilidade humana, perdem autonomia, ficam dependentes."

A proposta de lei de bases, como referiu Maria de Belém Roseira, tem como pressuposto a articulação entre os sectores público, privado e social, os desafios em sede de regulação e as disrupções que os sistemas de informação vão trazer.

Para Francisco Ramos, presidente do IPO Lisboa, "temos feito algumas coisas bem feitas como generalizar o sistema e os serviços a toda a população, fazendo com que na prática os nossos serviços funcionem cada vez melhor, e sobretudo sem barreiras financeiras".





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