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"Somos quase um serviço de custo zero"

Além de todas as outras dificuldades com que se deparam os centros de saúde portugueses, o de Mogadouro tem ainda a sua situação geográfica que o coloca a uma hora do hospital mais próximo. Criou um arquivo para encurtar distâncias.

Raquel Godinho rgodinho@negocios.pt 06 de Julho de 2015 às 11:22
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O que tem o Mogadouro em comum com a Austrália? Aparentemente nada. Mas foi no interior deste país que o centro de saúde daquela localidade portuguesa se inspirou para desenvolver o projecto de teleradiologia. Em Mogadouro, o hospital mais perto fica a 86 quilómetros, ou cerca de uma hora de distância. Uma situação geográfica que encarecia as deslocações e prolongava os tempos de espera. Nada que um arquivo comum de exames não ajude a superar.

O centro de saúde de Mogadouro cheira a novo. E, de facto, é recente. Recente é também o serviço de imagiologia que iniciou a sua actividade em 2006. O nome parece complexo, mas refere-se essencialmente às radiografias e ecografias. É um serviço muito semelhante ao de outras unidades de saúde mas, neste caso, serve os utentes quer do centro de saúde quer das urgências. E tem outras diferenças. "O que nos distingue não é a tecnologia em si, mas o arquivo de imagem" activo desde Fevereiro de 2013, conta Manuel Lobo.

O responsável pelo serviço de imagiologia conta que os exames aqui realizados são colocados num arquivo comum ao qual podem aceder, além do hospital de Bragança, Mirandela e Macedo de Cavaleiro, a dez centros de saúde. Um modelo retirado de um projecto semelhante desenvolvido no interior da Austrália. "Normalmente está tudo disperso. Ou não há arquivo de imagem ou está separado das outras instituições", conta. Os exames ficam assim disponíveis para todos os médicos a nível nacional, através da plataforma da saúde.

Parece um desenvolvimento simples. Mas as vantagens são mais do que muitas. E para todos. Em primeiro lugar, diminuiu a repetição de exames, com as vantagens que isso representa para a saúde dos utentes que não voltam a ser expostos às radiações desnecessariamente. "Os utentes quase nem se apercebem da vantagem, mas antes andavam com as radiografias em películas e perdiam-nas e depois perdia-se também informação e tinham que repetir exames", adianta Manuel Lobo. E, por outro lado, é possível fazer uma comparação temporal entre os exames do mesmo utente e, com isso, garantir um "diagnóstico mais precoce e mais atempado". "Desta forma, as pessoas não precisam de ir para os hospitais congestionar as urgências e gastar recursos porque são devidamente acompanhadas aqui em cuidados de saúde de maior proximidade", garante este que foi um dos técnicos que acompanhou o desenvolvimento deste projecto.

"Através de toda esta complementaridade, conseguimos esbater o isolamento a que esta zona, por circunstâncias geográficas, está vetada", explica Manuel Lobo. E, assim, "conseguimos prestar cuidados de maior qualidade e de maior especificidade para os utentes e conseguindo racionalizar recursos", realça o responsável pelo serviço.



O serviço de imagiologia de Mogadouro conta actualmente com quatro técnicos de radiologia. Aqui podem ser realizados exames radiológicos programados ou de urgência. Isto porque o serviço é comum ao centro de saúde e ao serviço de urgência básica. Estão inscritos cerca de nove mil utentes. Contudo, são atendidos, em média mais de 12 mil utentes por anos em Mogadouro.


Como se racionalizam os recursos? Com este arquivo, o número de deslocações caiu significativamente. Uma evolução que pode ser constatada através do número de utentes reencaminhados para o hospital. Se antes era de cerca de 10% de todos aqueles que chegavam às urgências, no ano passado, foi inferior a 1%, em média. Sempre que são realizados exames, os médicos dos hospitais do distrito podem confirmar se a situação clínica requer um encaminhamento para Bragança e posterior internamento ou se pode ser resolvida localmente. "Antes, de todos os utentes que vinham para o serviço de urgência, 10% eram encaminhados para os hospitais e, a partir da introdução deste sistema, passou a ser menos de 1%, a média do ano passado foi 0,52% dos utentes", explicou Manuel Lobo.

Com a queda significativa das deslocações aos hospitais do distrito, quem ganhou foi o orçamento do centro de saúde e serviço de urgência básica. Em 27 meses, a poupança só em deslocações ascendeu a 140 mil euros, sendo que se estima que, em média, sejam poupados 69.911 euros todos os anos.

"Somos quase um serviço de custo zero para o Estado", orgulha-se Manuel Lobo. Os gastos resumem-se à manutenção de equipamentos, salários, carros de serviço e gastos convencionados. Os resultados já alcançados fazem-no acreditar que esta solução poderia ser aplicada a outros pontos do país.

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