A ameaça dos seguros peer-to-peer

Este novo modelo de negócios ainda não chegou a Portugal mas as seguradoras mais tradicionais deverão adaptar-se para não correr o risco de perder quota de mercado.
A ameaça dos seguros peer-to-peer
Jesús Núñez sublinha que o modelo de negócio das seguradoras se baseia no risco.
Filipe S. Fernandes 11 de abril de 2019 às 12:00
A indústria seguradora em Portugal ainda não está totalmente preparada para este novo modelo de distribuição P2P (peer-to-peer) mas esta situação terá de mudar rapidamente", diz Eugénia Branco, responsável pelo departamento de comunicação e marketing da Prévoir-Vie.

"Antecipo que a indústria ainda esteja a olhar para este fenómeno com alguma reserva, uma vez que é uma realidade que ainda não se materializou no nosso mercado e que carece de uma análise mais aprofundada em termos de cumprimento dos requisitos legais e regulatórios aplicáveis", considera Nuno Luís Sapateiro, associado coordenador da área de Seguros de PLMJ.

É essencial que a relação das seguradoras com os seus clientes seja cada vez mais interativa e não se restrinja a meras trocas de recibos de prémios. nuno luís sapateiro
Associado coordenador da área de seguros da PLMJ

Adianta Eugénia Branco que "são novas formas de concorrência que descartam a intervenção direta das seguradoras e dos seus intermediários (agentes) na gestão dos seguros. Assim, as seguradoras mais tradicionais deverão adaptar-se para não correr o risco de perder quota de mercado".

As novas plataformas permitem que os consumidores se unam na procura e na gestão de seguros comuns e específicos, onde o interesse mútuo tem como consequência natural a redução de custos. Como Eugénia Branco afirma "os custos de riscos e os eventuais cash-back de ausência de risco influenciarão diretamente os prémios que cada elemento do grupo irá suportar. A procura deste tipo de seguros é feita por um novo tipo de clientes muito familiarizados com o negócio online e que procuram respostas rápidas e concretas para as suas necessidades".

Relação com o cliente

"As simulações ajustadas, o nível de prémios, a emissão rápida de apólices e o prazo de tratamento de sinistros serão pontos de diferenciação no momento de escolher a forma de subscrição do seguro", sublinha Eugénia Branco e não tem dúvidas de que os "consumidores são cada vez mais exigentes, mais informados, mais hábeis no manuseamento de tecnologias, pelo que exigirão ofertas mais customizadas e adaptadas às suas situações particulares, familiares e financeiras".

Para Nuno Luís Sapateiro, associado coordenador da área de Seguros de PLMJ, "é essencial que a relação das seguradoras com os seus clientes seja cada vez mais interativa e não se restrinja a meras trocas de recibos de prémios e transferências bancárias".

Hoje, os clientes têm mais poder de decisão, sabem o que querem, como o querem e o momento em que o querem.  Jesús núÑes
Director de marketing e experiência da Liberty Seguros

Mas não tem dúvidas de que as seguradoras, à medida que se for "consolidando um novo modelo de negócio com vendas mais céleres e interativas, produtos mais ajustados ao interesse do consumidor e sinistros geridos de forma mais eficiente e transparente, as seguradoras irão, necessariamente, aproximar-se dos seus clientes e potenciar os níveis de confiança no mercado segurador. E potenciar a venda de produtos a consumidores que, hoje em dia, se limitam a contratar seguros para cumprimento de obrigações legais".

É a partir destas premissas que, como diz Jesús Núñez, diretor de marketing e experiência da Liberty Seguros, se "procura que o cliente possa eleger, em qualquer momento, como pretende relacionar-se com a sua seguradora". Pode ser pela plataforma online de clientes, enviar um e-mail, uma mensagem por WhatsApp, telefonar ou encontrar-se com um agente para poder obter a melhor assessoria.

Ramos mais afetados

Os ramos e os produtos em que esta concorrência mais se poderá fazer sentir são os seguros automóvel, seguros de viagem e multirriscos habitação. "São ramos onde já existe a venda online e onde o aconselhamento pessoal não é tão necessário para a venda", explica Eugénia Branco.

No ramo vida, a venda de proximidade é importante, tanto mais que a Diretiva de Distribuição dos Seguros também impõe uma venda aconselhada e orientada. "Em momentos menos bons, em caso de sinistro, o papel do agente é valorizado, na medida em que este presta também um serviço pós-venda local", refere Eugénia Branco.

"Diria que o modelo P2P tem um maior potencial de penetração nos denominados riscos de massas, em que está em causa a contratação de seguros por consumidores individuais com interesses convergentes. De qualquer forma, o modelo P2P também deverá desempenhar um papel importante na transição dos denominados seguros de massas para seguros taylor-made vocacionados para as necessidades de grupos mais restritos de consumidores", admite Nuno Luís Sapateiro.

Vantagens e desvantagens do modelo P2P

Segundo Eugénia Branco, responsável pelo departamento de comunicação e marketing da Prévoir-Vie, existem várias vantagens neste modelo de negócio. Refere a contratação rápida de seguros e um menor grau de burocracia, e atribuição de um valor social ao seguro: transformação da motivação para a subscrição do seguro. A que acrescenta a possibilidade de se tratar da subscrição do seguro sem intermediários, pelo que haverá redução do custo final do seguro e, em alguns casos, de recuperar uma parte dos prémios pagos, pois elimina-se a noção de "seguro a fundo perdido", a responsabilidade limitada em caso de sinistro, uma taxa de sinistralidade em princípio mais baixa, uma vez que os segurados pensarão duas vezes antes de acionar o seguro e uma maior transparência das coberturas contratadas.

No polo oposto, Eugénia Branco diz que "poderemos assistir a uma desumanização do negócio, a uma menor fidelização dos consumidores que irão comparar mais as ofertas e mudar de empresa de seguros e poderá haver tendencialmente uma redução dos distribuidores tradicionais".




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