A profissão que está por trás do negócio dos seguros

Um actuário é um profissional que gere o risco e a incerteza. É uma das profissões mais globais, com padrões internacionais e claros de formação para o seu exercício, mas "relativamente desconhecida em Portugal" como diz Maria de Lourdes Centeno.
A profissão que está por trás do negócio dos seguros
José Manuel Mendinhos é o Presidente do Instituto dos Actuários Portugueses.
Filipe S. Fernandes 28 de março de 2017 às 09:46
"Seguros e Fundos de Pensões não existem sem actuários. Mas também não há Segurança Social sem eles, ou pelo menos, Segurança Social credível" diz José Manuel Mendinhos, presidente do Instituto dos Actuários Portugueses (IAP), criado em 1945. Mas na sua opinião há outras áreas em que se faz sentir a necessidade de um dos mais de 300 actuários que existem em Portugal. É o caso do desenho de benefícios nas empresas ou no sistema público, no Serviço Nacional de Saúde, na definição de políticas públicas sustentáveis, na avaliação de questões ambientais, como o estudo da frequência e prejuízos de desastres naturais, em grandes empresas ou outras instituições na avaliação de riscos e no aconselhamento sobre opções futuras. E "nos bancos está à vista que são necessários nos comités de crédito (a avaliar riscos) bem como a construir produtos financeiros" conclui.

O actuário nos seguros

Nos seguros, o actuário, também conhecido como o "matemático dos seguros", tem duas grandes áreas de intervenção: "pricing" (tarifação, precificação) e "reserving" (cálculo de reservas), como refere José de Sousa, CEO da Liberty Seguros. Desenvolve produtos e determina os prémios das apólices atendendo às características do risco, utiliza modelos matemáticos para a revisão dos prémios, tendo em conta a sinistralidade passada, calcula as reservas que as companhias devem deter, de modo a fazer face aos riscos assumidos, e avalia o impacto do resseguro nas carteiras das companhias.

Como refere Maria de Lourdes Centeno, responsável pelo mestrado de Ciências Actuariais do ISEG, a função actuarial é uma das quatro funções estabelecidas pelo regime Solvência II. "O actuário passa a estar envolvido em decisões de gestão, o que não acontecia anteriormente, pronunciando-se em particular sobre a política global de subscrição das companhias e sobre a adequação dos acordos de resseguro. Contribui ainda decisivamente para o cálculo do requisito de capital, de solvência e do requisito de capital mínimo, bem como para a autoavaliação do risco e da solvência" refere a catedrática do ISEG.

As máquinas que fazem seguros

A tecnologia pode facilitar a vida dos actuários através de ferramentas: as simulações, os testes, a programação, mas não o vai substituir. "Hoje em dia, 95% dos preços que damos no seguro automóvel vêm directamente da máquina. Os parâmetros e os cálculos subjacentes aos parâmetros de tarifação foram dados pelos actuários. Os cálculos depois podem ser programados para saírem automaticamente do computador" refere José de Sousa, que ainda se recorda do tempo em que o actuário tinha o poder absoluto na seguradora e era "a única pessoa que dava preço e permitia que as áreas comerciais fechassem negócios".

Nos bancos está à vista que são necessários actuários nos comités de crédito, bem como a construir produtos. José Manuel Mendinhos
Presidente da IAP

A tecnologia, como diz Gastão Taveira, CEO da i2s, vai permitir que o actuário se "concentre nas tarefas de maior valor acrescentado - concepção, criação e inovação de produtos de seguros. A acção humana centrar-se-à mais na área criativa". Esta empresa de software para seguros também tem na equipa "pessoas com forte formação actuarial" e que é fundamental para "conceber ferramentas modernas de configuração de produtos, que depois serão usadas por outros actuários, nos nossos clientes".

O actuário responsável

O quadro normativo que resulta de Solvência II deu um grande protagonismo à figura do actuário responsável. A lei portuguesa criou a figura do actuário responsável, independente da função actuarial, para efeitos de certificação, explica Maria de Lourdes Centeno. José de Sousa contesta este entendimento diferente de muitos países da União Europeia. Considera que trouxe custos acrescidos para as seguradoras, "mas nenhuma melhoria prática, ou maior garantia de isenção, ou melhor prevenção de potenciais problemas. O nosso actuariado mantém-se, aliás foi reforçado, mas os requerimentos obrigam-nos a gastar dinheiro adicionalmente em consultores externos, os tais 'independentes'".

O actuário responsável é um agente essencial em todo processo. Como refere Nuno Sapateiro, advogado da PLMJ, "um dos traços do novo regime legal prende-se com a necessidade de exponenciar a eficiência dos sistemas de governação e gestão de riscos bem como dos processos de supervisão e controlo interno e é nesse âmbito que se insere o esquema de divisão de tarefas e o reforço dos requisitos de qualificação, independência e idoneidade".

Os actuários responsáveis emitem pareceres sobre a conformidade dos cálculos com as disposições legais aplicáveis, sobretudo no que se refere às provisões técnicas, aos montantes recuperáveis de contratos de resseguro e às componentes do requisito de capital de solvência.

José Manuel Mendinhos considera que a sua função deveria abranger campos "como a adequação dos investimentos às responsabilidades e a participação nos resultados, que é uma questão muito importante na relação das seguradoras do ramo vida com os seus clientes". Refere que o seu estatuto de independência devia ser idêntico ao dos revisores oficiais de contas. A ASF entende que o actuário responsável não deve ter "dependência hierárquica da função actuarial ou de qualquer outro departamento a auditar".

Depois de terem passado por um júri, estão certificados pela ASF 18 actuários responsáveis para o ramo Não Vida e 15 para o ramo Vida. Segundo José Manuel Mendinhos, "não foi exigido que os candidatos falassem e entendessem a língua portuguesa. Penso que não haverá outro país da Europa onde uma função de tanta responsabilidade possa ser exercida por quem não compreende a língua em que os relatórios são elaborados." 





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