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Os enigmas da queda da taxa de poupança

A taxa de poupanças das famílias está em queda histórica. Mas a poupança bruta da economia estava em 16,5% no terceiro trimestre de 2017, um valor superior à média histórica em Portugal. O que pode ser bom ou mau.

Filipe S. Fernandes 21 de Março de 2018 às 09:45
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"A taxa de poupança das famílias, medida em percentagem do rendimento disponível, atingiu o valor mais baixo de sempre em Portugal, 4.3%, no ano terminado no terceiro trimestre de 2017. A poupança no terceiro trimestre, que não é corrigida de sazonalidade, foi negligenciável, cerca de 60 milhões de euros ou seja 0,2% do rendimento disponível trimestral" refere João Borges de Assunção. Mas o professor associado da Católica Lisbon Business & Economics, adverte que "é difícil dar uma explicação satisfatória e os dados são bastante estranhos e têm sido sujeitos a revisões importantes pelo INE, pelo que é mais prudente não os sobre interpretar".

Os factores mais directamente relacionados com a baixa poupança em Portugal são para Paulo Ferreira, responsável dos produtos Vida da Direcção de Design e Gestão de Produto da Liberty Seguros, o baixo rendimento disponível, devido à reduzida remuneração bruta e, essencialmente, à elevada carga fiscal, a facilidade de crédito, e uma cultura algo exagerada e irracional de consumo. "A "mistura explosiva" destes aspectos tem de facto contribuído para uma das taxas de poupança mais reduzidas da Europa" conclui. Giampiero Prester, general manager da Generali Vida aduz que "as atuais baixas taxas de juro dos bancos são dissuasoras de poupança", e que a "elevada confiança das famílias faz com que o sentimento de incerteza em relação ao futuro seja reduzido, o que conduz a um aumento do consumo privado, em detrimento da poupança".

Os riscos da reduzida taxa de poupança

Para João Borges de Assunção, "a queda da taxa de poupança das famílias é um dos puzzles da situação actual". Explica que o puzzle resulta do facto de enquanto a taxa da poupança das famílias diminui, ao mesmo tempo, dá-se uma subida da poupança bruta da economia no seu conjunto, que estava em 16,5% no terceiro trimestre de 2017, um valor superior à média histórica em Portugal.

"Em termos contabilísticos o que está a acontecer é que a poupança negativa do Estado (ou seja o défice público) está a diminuir e as empresas não financeiras também estão a poupar". Se a descida do défice público é muito positiva, a poupança das empresas já não é tão louvável. "O ideal seria que a poupança viesse das famílias e do Estado (até atingir o equilíbrio orçamental) e o investimento dessas poupanças seria feito pelas sociedades não financeiras em projectos rentáveis. A contribuição das empresas para a poupança na economia é um dos elementos do nosso puzzle da poupança" refere João Bordes de Assunção.

Na sua análise, "a explicação benigna é que a menor poupança das famílias está a ser compensada com uma maior poupança do Estado. A explicação maligna é que quando as empresas começarem a investir de modo normal haverá uma insuficiência de poupança interna para suportar esse investimento. E a economia portuguesa continua sem capacidade para sustentar mais endividamento externo".

Em defesa do consumidor

"O aspecto central na Directiva dos Mercados de Instrumentos Financeiros II é o novo equilíbrio entre a protecção dos investidores e do sistema financeiro, e os custos administrativos para investidores, instituições financeiras e reguladores" diz João Borges de Assunção. "A complexificação jurídica dos novos produtos financeiros constitui-se como um novo custo de benefício incerto".

Para Giampiero Prester, "a DMIF II veio facilitar a comercialização de produtos financeiros. Hoje, sendo um produto aceite num país, pode ser comercializado em todo o espaço europeu". Acrescenta que "vem reforçar o papel dos players enquanto conselheiros dos seus clientes".

O Regulamento dos PRIIPs (Pacotes de produtos de investimento de retalho e de produtos de investimento com base em seguros) instituiu o Documento de Informação Fundamental (KID), que se tornou obrigatório desde o passado dia 1 de janeiro. Este informa acerca dos riscos, custos e potenciais retornos e permite a comparação. 

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