Os riscos para a mutualização nos seguros

Com a hipersegmentação dos riscos e a consequente hiperpersonalização dos seguros, pode estar em causa o aspeto social destes, com a provável de exclusão de segmentos de clientes.
Os riscos para a mutualização nos seguros
Gastão Taveira diz que o caminho para as seguradoras é o de digitalizar e agilizar os seus processos de negócio.
David Martins
Filipe S. Fernandes 23 de julho de 2019 às 13:00
"Com o crescimento exponencial do volume de dados, e consequentemente de variáveis tarifárias possíveis, chegamos à possibilidade de uma tarifa individualizada, colocando em questão o princípio da mutualização", refere Gastão Taveira, CEO da i2S.

A essência dos seguros reside na mutualização de riscos, como mostra a sua história. "Quando uma seguradora analisa um determinado risco e fixa um preço, fá-lo segundo critérios baseados em estatística, agrupando e segmentando os riscos em grandes conjuntos de riscos similares. A mutualização assenta no cálculo atuarial sobre ‘riscos homogéneos’, implicando uma segmentação do universo de segurados potenciais", explica Gastão Taveira, para mostrar o eventual desequilíbrio do sistema.

Acrescenta que, no mercado concorrencial, "o marketing e a publicidade têm contribuído para que este aspeto colaborativo dos seguros tenha passado para segundo plano".

O caminho é atual, graças ao crescimento exponencial de tecnologias de recolha de dados, com o acesso a dados de "lifestyle" e mesmo genéticos, conjugados com ferramentas de big data e data science. "Tornou-se possível avaliar os riscos de forma muito mais atomizada", diz Gastão Taveira. O corolário lógico é a "hiperpersonalização dos seguros", em que se ajustam "as coberturas daquilo que corresponde aos riscos de determinada pessoa - no limite, de forma distinta de todas as outras".

Para Gastão Taveira, esta hipersegmentação, conjugada com a digitalização e tecnologias de "trust" descentralizado, como blockchain, permite o desenvolvimento de uma economia colaborativa e desintermediada. Havendo grupos de "afinidade", estes podem agrupar-se e "mutualizar-se" de forma autónoma. Podem, também, explorar incentivos do tipo "peer pressure" para a redução do risco. Estes modelos só fazem sentido quando existem algumas dimensões de "afinidade".

Na sua opinião tem sido este "o campo de ação das insurtechs", afirma Gastão Taveira. Através do uso intensivo de tecnologias digitais, muitas vezes recorrendo a bots e inteligência artificial, conseguem facilmente construir estes agrupamentos de riscos afins, fazer a subscrição, gerir os incentivos para redução do risco e fazer a gestão de sinistros de forma ágil e digitalizada.

A outra face

A outra face desta hiperpersonalização é a hipersegmentação dos riscos e respetivo preço, colocando um prémio muito mais ajustado ao risco de cada um. "Esta hiperpersonalização dos riscos e correspondente hipersegmentação dos preços, pode pôr em causa o aspeto social da ‘mutualização’", adverte Gastão Taveira.

Alude ao facto de haver pessoas, atividades, empresas, cujo risco é demasiado elevado ou difícil de estimar para poderem entrar nestes modelos hipersegmentados. "Uma vez que dispõem de um universo menor para dispersar o risco, o preço do seu risco particular pode ser incomportável, colocando assim em causa a função social dos seguros", conclui Gastão Taveira.

Há o exemplo dos "jovens condutores" em que os reguladores de alguns países intervieram para limitar os preços dos prémios nesta categoria. Noutros casos, as próprias seguradoras fazem auto-regulação, apostando numa perspetiva de mais longo prazo ou de agrupamento familiar na avaliação do risco.

Gastão Taveira alerta, contudo, para os seguros de saúde quando existem testes genéticos, que podem aumentar extraordinariamente a previsibilidade de diversos riscos. "Neste campo, existem também outras complexidades, como a assimetria de informação (que pode jogar nos dois sentidos), potencial de seleção negativa, exclusões, etc. Para mais, influenciados pelos sistemas públicos de saúde, com regulamentação crescente", concluiu Gastão Taveira.

O que as seguradoras podem fazer

A explosão das tecnologias e as técnicas de data science vêm colocar desafios importantíssimos à indústria seguradora e ao seu papel fundamental na sociedade e na economia. "Vivemos num período em que estas tecnologias colocam a tensão entre mutualização e segmentação (atualmente, hipersegmentação) a novos patamares", diz Gastão Taveira, CEO da i2S.

O caminho para as seguradoras é, segundo Gastão Taveira, "digitalizar e agilizar ao máximo os seus processos de negócio. Prepararem-se para lidar com uma quantidade e riqueza de informação como nunca antes existiu. E para serem capazes de analisar volumes de dados imensos quase em permanência".

Acrescenta que "uma coisa parece certa, quem estiver de posse de dados mais relevantes, em maior quantidade e for capaz de atuar agilmente sobre eles, ficará a ganhar".

Leitura

Estas questões vão ter "um extraordinário impacto na configuração do setor segurador, nas próximas décadas", refere Gastão Taveira. Recomenda, para quem quiser entender melhor esta temática, o paper de Arthur Charpentier, professor da Universidade do Québec, "Segmentation et Mutualisation, les deux faces d’une même pièce?".



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