Sem o Estado não há poupança de longo prazo em Portugal

Os portugueses poupam pouco, cerca de 4% contra 12,5% na Zona Euro, e os indicadores revelam que 20% das famílias são responsáveis por cerca de 80% da poupança. Por isso o Estado tem de estimular a poupança.
Sem o Estado não há poupança de longo prazo em Portugal
Giampiero Prester, director-geral Vida da Generali, defende incentivos fiscais à poupança de longo prazo.
Filipe S. Fernandes 11 de abril de 2017 às 10:56
No terceiro trimestre de 2016, a taxa de poupança das famílias em Portugal foi de 4%. Desde o primeiro trimestre de 2003 que a taxa de poupança se tem situado abaixo dos 11% e foi raro o trimestre que atingiu os 10%. Na Zona Euro, a taxa de poupança média reduziu-se ligeiramente desde 1999, de cerca de 14% para os actuais 12,5% como assinala Carlos Maia, partner da PwC. "Se queremos mesmo estimular a poupança, e em especial a poupança de longo prazo, a actuação do Estado é fundamental. Sem o Estado não é possível revolucionar a poupança de longo prazo em Portugal" diz Giampiero Prester, director-geral Vida da Generali.

Segundo este gestor há uma conjugação de factores para a reduzida poupanças das famílias: "a carga de impostos em Portugal é das mais elevadas da União Europeia, o que contribui para que o rendimento disponível seja um dos mais baixos". Além disso, "o serviço da dívida das famílias absorve também uma importante parcela do rendimento disponível" e a expectativa sobre a economia e as taxas de juro também não ajudam.

Estado devia reactivar PPR

Paula Neto, directora responsável da Direcção de Design e Gestão de Produto da Liberty, refere não só o "baixo rendimento disponível (devido à reduzida remuneração bruta e, essencialmente, à elevada carga fiscal) mas também "a facilidade de crédito (restringida no auge da crise económica, mas que começa de novo a reacender-se), bem como uma cultura de consumo enraizada há décadas na sociedade portuguesa".

A política fiscal não deve ser a 'alavanca' principal da promoção da poupança, É essencial alterar atitudes. Paula Neto
Direcção de Design e Gestão de Produto da Liberty

Para promover a poupança em Portugal, segundo Giampiero Prester, pode-se reduzir a carga de impostos sobre as famílias ou criar incentivos à poupança, nomeadamente à poupança de longo prazo, através de benefícios fiscais. A sua solução preferida seria "a conjugação equilibrada entre estas duas medidas, permitindo atingir não apenas objectivos de curto-prazo, como também de longo prazo". Refere que se olhar para o passado e para o regime fiscal dos PPR, com incentivo à entrada, que foi uma medida que teve o condão de mobilizar a criação de poupança. "O Estado devia olhar para este exemplo, que foi de sucesso, e procurar reactivá-lo ou renová-lo", diz Giampiero Prester.

Sedução das novas gerações

"É possível e faz todo o sentido actuar em várias áreas com o objectivo da promoção de um maior índice de poupança em Portugal. São estratégias que não têm geralmente efeito imediato, levam o seu tempo, mas que são fundamentais para uma evolução positiva no futuro" diz Paula Neto. A gestora da Liberty aposta nas alterações culturais das novas gerações. Estas devem adoptar uma atitude mais equilibrada e racional na gestão das suas poupanças, e revelar uma maior literacia financeira com mais conhecimentos em relação às opções de poupança disponíveis no mercado.


Carlos Maia é mais céptico. Considera que "a geração que actualmente entra no mercado de trabalho, tem uma maior propensão para o risco, menos preocupações com o futuro e a reforma e, consequentemente, menos propensão para poupar". Além disso, como adianta Giampiero Prester, os indicadores revelam que 20% das famílias são responsáveis por cerca de 80% da poupança.

Paula Neto refere também que deve haver uma aposta mais acentuada em soluções de médio e longo prazo, em detrimento de aplicações financeiras de curto prazo e incentivos fiscais claros às aplicações de médio e longo prazo, quer à entrada quer à saída (tributação favorável sobre o juro). "A política fiscal não deve ser a 'alavanca' principal da promoção da poupança, isso passa essencialmente por alteração de atitudes e questões comportamentais, mas pode proporcionar uma importante ajuda", sublinha Paula Neto. Carlos Maia também defende que o incremento da poupança em Portugal "passará, sobretudo, pela promoção de uma maior cultura de poupança, complementada por eventuais incentivos fiscais".






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