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O Porto mudou, mas quem vem continua a atravessar o rio

Estrangeiros e emigrantes ocupam os seus lugares nos barcos que sobem e descem o Douro. As caves, as pontes e os monumentos continuam a atrair curiosos à cidade, que nos últimos anos voltou à ribalta.

Alexandra Noronha anoronha@negocios.pt 29 de Agosto de 2013 às 09:00
Paulo Duarte/Negócios
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Ao lado da ponte D. Luís há um relíquia do passado, que tem já um toque de futuro. É um dos pilares da antiga ponte pênsil, desmontada ainda no século XIX e onde agora fica uma moderna esplanada, quase em cima do Douro. O Porto reinventado é um íman de turistas, novos e velhos, que enchem hotéis, hostels e alugam quartos na cidade. Muitos vêm de carro, outros de avião "low cost" e, para quem ainda pode, em voos de companhias aéreas regulares.

Alguns metros ao lado, o "Cenários do Douro", um dos barcos da Douro Azul está prestes a partir. A embarcação leva os turistas, com vista privilegiada para as duas cidades ribeirinhas: Porto e Vila Nova de Gaia.

Zé Manel e Maria são dois nomes bem portugueses, mas este casal, o único no barco numa manhã cinzenta de Agosto só está cá de férias. Vivem em Paris há mais de 40 anos. "Já fizemos esta viagem antes. É muito bonito". O barco vai até à Afurada, terra de pescadores, e dá a volta. À direita, o edifício da Alfândega do Porto contrasta com os modernos prédios de habitação do outro lado do rio.

Há 40 anos em França, Maria e Zé Manel têm um português praticamente perfeito. Ele é canalizador e ela gerente num centro logístico. Vieram de carro até à Póvoa do Varzim, a terra natal dos dois. "Já fomos às caves, já vimos tudo", explicam. A conversa rapidamente passa a ser sobre a crise. "Em França os impostos são cada vez mais elevados", confessam os emigrantes. Mas para Zé Manel e Maria, o Porto continua igual a si mesmo.

Onde comer uma francesinha?

No Cais de Gaia, os cafés e restaurantes alinham-se junto ao rio e tapam a vista para os edifícios mais antigos onde ficam as caves do vinho de Porto que são visitadas por milhares de turistas. O quiosque da Bluebus (e Blueboats) fica junto à saída dos barcos e está apinhado de gente a pedir informações. Catarina Silva vai tentando esclarecer as dúvidas. "Uma das principais perguntas que fazem é onde comer uma francesinha", adianta. O ex-libris gastronómico do Porto continua a despertar o interesse dos turistas.

É neste preciso lugar que pára o BlueBus, uma das três "tours" que existem na cidade para turistas e curiosos. Faz parte do famoso modelo "hop on, hop off", em que o passageiro pode entrar e sair do autocarro onde quiser durante um dia. Além do azul, há um autocarro amarelo e outro vermelho.

Patrícia Maia já está habituada à confusão que as três companhias por vezes causam nos turistas. Explica calmamente ao casal que entra no seu autocarro que aquele bilhete só dá para a linha vermelha.

A motorista só está há um mês na empresa, mas diz que estas perguntas acontecem com regularidade. Saiu de uma empresa privada de transportes para trabalhar no autocarro turístico.

"Ontem isto estava cheio de gente. O bom tempo ajudou. À tarde vêm mais pessoas", explica, justificando o reduzido número de ocupantes do veículo naquela manhã parcialmente cinzenta.

O autocarro atravessa o rio pela ponte D. Luís e vira à direita em direcção ao Palácio do Freixo, onde fica a Pousada do Porto, passeando pela avenida ribeirinha.

Pelo caminho, os audioguias dos turistas vão debitando informações sobre os locais por onde passa o autocarro, em 16 línguas. No rio ergue-se a velhinha ponte D. Maria, onde dantes os comboios atravessavam as duas margens do Douro. Esta obra emblemática da cidade data, como a ponte D. Luís, do século XIX e manteve-se em funcionamento, ainda que em condições precárias, até ao início dos anos 90. A moderna ponte S. João ditou o encerramento da D. Maria, que passou a ter um estatuto de monumento da cidade. O futuro da ponte permanece, contudo, incerto.

"Ainda há muitos outros sítios onde queremos ir"

Na parte da frente do autocarro viaja um casal, já idoso e bem comportado, agarrado aos mapas e a ouvir com atenção o audioguia. Talvez por isso, a interrupção do passeio para umas perguntas não seja muito bem-vinda. Desconfiado, John (que está acompanhado pela esposa Jennifer) revela que são australianos, a viajar pelo Porto pela primeira vez. "Gostamos muito, é muito bonito", explica.

A conversa é interrompida pelo barulho dos carros na estrada. John diz que em seguida irão visitar França. E estão dispostos a voltar? "Hmmm não sei" diz o australiano, com uma sinceridade anglo-saxónica. "Ainda há muitos outros sítios onde queremos ir".

Atrás, vai apenas uma família espanhola que está a prestar menos atenção ao que diz o audioguia e mais à paisagem. O autocarro inverte a marcha e segue em direcção ao centro histórico do Porto. Saindo do túnel em direcção à Rua do Infante e depois à Rua Nova da Alfândega, é impossível não reparar no edifício imponente do Palácio da Bolsa do lado direito. Novamente junto ao rio, vira em direcção à Cordoaria, em que muitos turistas se aglomeram à volta da Torre dos Clérigos e da cadeia da Relação, onde esteve preso Camilo Castelo Branco.

O autocarro desce depois para a Avenida dos Aliados, numa zona que é o centro da "movida" portuense. Por todo o lado, as esplanadas de rua vão enchendo à medida que o Sol aparece. É um fenómeno relativamente recente na baixa do Porto que veio trazer outra dinâmica a uma zona que, em certos locais, continua degradada. É quando o calor aperta que o autocarro pára, com vista privilegiada para a Câmara do Porto. Nos Aliados, já houve um jardim. E uma feira do livro, que, este ano, não se realizou. O futuro é feito de concertos na Casa da Música, exposições em Serralves e festivais de música no Parque da Cidade. Mas os autocarros às cores hão-de parar sempre na Baixa.

 
Turismo: Dormidas subiram 14,7% até Junho

O turismo no Porto registou um aumento de quase 15% até Junho, face a igual período de 2012. Segundo dados da Associação de Turismo do Porto, foi atingido um "contínuo incremento no número de dormidas de estrangeiros no Porto e Norte de Portugal, traduzindo-se presentemente num incremento de 14,7% comparativamente ao período homólogo de 2012". Os principais mercados são Espanha, seguida da França, Brasil, Alemanha e Reino Unido. Uma das vertentes do crescimento foi potenciada pelas "low cost", que fizeram aumentar os "City Breaks" na cidade (estadas de 2 a 3 dias). A Associação conta apresentar números ainda mais positivos no fim do ano.

 

 
Tours: Do Douro para o "BlueBus"

Os tours da Douro Azul, com a marca "BlueBoats" e "BlueBus" fazem o cruzeiro pelas seis pontes do Douro e depois pela cidade, num autocarro aberto de onde se pode sair e entrar sem restrições. Dois dias, com o passeio pelo rio e pela cidade, custam 16 euros, Um dia de cruzeiro no rio fica por 10 euros (o mesmo que o autocarro).

 

Quem quiser pode ainda visitar as caves ou mesmo o estádio do Dragão. A Douro Azul apostou na cor azul para se destacar das ofertas da concorrência (amarela e vermelha), tendo investido mais de um milhão de euros nos barcos rabelos. O turismo na cidade está em mudança, mas o Douro continua a ser uma constante. 

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