Manuel Caldeira Cabral 08 de Maio de 2008 às 13:59

Angola pode ganhar estas eleições

Em Angola a pergunta mais interessante sobre os dois próximos actos eleitorais não é quem vai ganhar, mas sim como as vai ganhar. Será pelo medo e pela repressão ou será que o MPLA e José Eduardo dos Santos vão abrir as mãos e fazer chegar uma maior fatia

Os próximos meses vão ser cruciais para o futuro de Angola. A estratégia que o MPLA e o actual presidente seguirem para ganhar o confronto nas urnas vai ditar o destino democrático do país, a sua estabilidade de longo prazo e as possibilidades de Angola se poder desenvolver para além dos ciclos do petróleo.

Os actuais detentores do poder podem seguir uma estratégia mais aberta, distribuindo uma maior parte da riqueza, dando maior margem ao investimento estrangeiro e à iniciativa privada, tolerando a oposição e permitindo uma maior liberdade à imprensa, ou podem seguir uma estratégia mais fechada, apostando na repressão, no controle da imprensa local e estrangeira e na manutenção de uma teia de distribuição dos ganhos do petróleo apertada que só beneficie quem colabora.

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Esta teia é hoje o maior espartilho ao desenvolvimento económico de Angola. A malha apertada de corrupção e tráfico de influências, apoiada por leis que obrigam as empresas a ter parceiros angolanos (de preferência da família de algum governante), tem dissuadido muitas empresas de se instalarem em Angola, reduzindo o potencial de criação de emprego e desenvolvimento. A sua manutenção impede que o país desenvolva sectores diferentes do petróleo, diamantes e construção. Sectores, como a agricultura, em que o país podia ter um enorme potencial exportador. Os actuais detentores do poder não só ficam com todo o bolo do petróleo, como não deixam que outros produzam a sua própria riqueza noutros sectores.

O crescimento económico actual, alimentado pela continuação do aumento do preço do petróleo e pela descoberta de novas jazidas nos últimos anos, permite aos actuais detentores do poder ganhar as eleições com base na popularidade, se estiverem dispostos a alargar a distribuição dos ganhos pela população. Se metade do crescimento deste ano e do próximo fossem redistribuídos pelos 95% mais pobres isso poderia significar um duplicar do seu rendimento, ao mesmo tempo que a minoria que controla o poder continuaria a melhorar a sua situação. Este dinheiro extra pode ajudar a subir a esperança de vida, que é actualmente de 41 anos (menos seis anos do que a média do continente africano) e a reduzir uma taxa de mortalidade infantil 50% acima da média africana, que todos os anos condena mais de cem mil crianças. Pode também ser determinante para os que vivem com menos de dois dólares por dia (a maioria) a comprar alimentos, cujo preço está a aumentar.

A tentação de manter tudo como está será grande, mas este seria um enorme erro. O crescimento económico baseado nos preços de recursos não renováveis não dura sempre. Mesmo que os preços se mantenham altos, estes poderão descer para um patamar abaixo do actual, o que seria suficiente para reduzir fortemente o crescimento de Angola. Se a economia angolana não se abrir e começar a procurar outros sectores para puxarem pelo seu crescimento no futuro e se não apostar em ser mais equilibrada, fica exposta a que flutuações do preço do petróleo ou dos alimentos, ou a morte de algum dirigente, lancem o país na instabilidade.

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Este é o momento certo para os dirigentes angolanos promoverem uma maior abertura na economia e na sociedade angolana. A oportunidade que estas duas eleições em clima de paz e prosperidade económica trazem pode não se repetir. O legado de José Eduardo dos Santos será determinado nos próximos dois anos e poderá ser o de um país que começa a traçar um caminho para um desenvolvimento mais justo e estável, ou o de um país onde a continuação das teias da corrupção e a repressão vão continuar a manter na pobreza a maioria da população até ao dia em que esta se revoltar. Se esse dia acontecer, como já aconteceu tantas vezes em tantos países africanos, todos vão perder. As elites angolanas e os investidores internacionais incluídos.

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