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Adolfo Mesquita Nunes - Advogado 19 de Março de 2018 às 19:42

As reformas que faltam

A digitalização da economia exigirá formação nova, trazendo oportunidades sem fim. Uma transformação tão brutal como esta só pode ser acautelada, aproveitada, se a reconhecermos, se nos prepararmos para ela.

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Podemos olhar para este Governo procurando analisar o que ele faz, o que ele reverte, o que ele anuncia, o que ele propõe. Há motivos de sobra para fazer essa análise, porque há vários sinais preocupantes na sua atuação, a começar pela opção radical, derradeira, total, de fazer a consolidação orçamental através da sangria dos serviços públicos. A consolidação, essencial, vital, podia ser feita equilibrando tanto quanto possível os sacrifícios nos salários e nos serviços, mas este Governo, sabemos hoje e bem, optou por carregar todo o esforço nos serviços, na esperança de que ninguém perceba que o caos que por lá se vive é deliberada opção orçamental das finanças.

 

Mas o principal legado deste Governo não está tanto aí, no que se vê e sente, no que faz, mas antes no que, por pressão da esquerda, por cobardia ou por preguiça, o Governo não faz. É no que não se vê, no que fica por fazer, que está o legado deste Governo, um legado preocupante se tivermos em conta que vivemos num mundo em mudança permanente e que está a transformar a economia, as relações laborais, a ciência e a investigação, o território, as nossas vidas.

 

Num mundo em constante mudança, como explicar que tudo permaneça na mesma? Que os paradigmas na educação sejam os mesmos há décadas, que a regulação económica presuma validação prévia da inovação, que as prestações sociais não estejam desenhadas para eventualidades novas e até mais frequentes, que ainda não tenha havido uma transformação digital da formação profissional?

 

O risco desta inação do Governo não é perdermos o comboio da moda, não aderirmos ao fascinante mundo da robótica ou da inteligência artificial, ficarmos ao largo do sexy mundo da nova economia. É que não vai ser possível ficar ao largo, a mudança invade-nos o dia a dia, impondo às empresas e aos trabalhadores, às famílias e aos indivíduos, desafios novos que precisam de ser vencidos se queremos ter a quem vender, a quem comprar, para quem trabalhar, subir na vida. O tsunami é imparável e global. 

 

Veja-se o que está a ocorrer no mundo. Os "knowmads", pessoas dispostas a trabalhar a qualquer hora e em qualquer lugar do planeta, serão a regra. A economia "gig", com base na procura, impõe a transformação das relações laborais. O número de trabalhadores independentes e freelancers aumentará de forma muito substancial. E a digitalização da economia exigirá formação nova, trazendo oportunidades sem fim. Uma transformação tão brutal como esta só pode ser acautelada, aproveitada, se a reconhecermos, se nos prepararmos para ela, se apetrecharmos os mais vulneráveis e dermos asas aos mais dinâmicos.

 

O risco desta inação do Governo é por isso o de deixarmos os mais vulneráveis absolutamente desprotegidos, impreparados, apenas porque não quisemos reconhecer o que aí vinha, agarrados ao passado, a querer perpetuar a velha economia, na esperança de que a podemos manter por decreto. Mal ou bem, os sectores mais dinâmicos da sociedade conseguirão furar as contingências, dando o litro quando não emigrando. Mas a sociedade portuguesa não é feita apenas desses sectores, como sabemos. Nenhuma é, aliás, e, portanto, quem mais vai sofrer com a inação do Governo são os mais vulneráveis.

 

Quererá isto dizer que o Governo não quer saber dos mais desprotegidos? Nada disso. O que sucede não é desinteresse, mas a errada convicção de que o mundo não vai mudar assim tanto, e que podemos aplicar à nova economia exatamente a mesma fórmula e regras que aplicamos à velha. É nesta inação, desejada pela esquerda que se assusta com a mudança, que reside o pior legado deste Governo.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo acordo ortográfico

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