Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 27 de janeiro de 2020 às 19:24

Congresso do CDS

E o resultado deste debate, para além da perda de tempo já que no fim do congresso ninguém mudou as suas posições sobre coisa nenhuma, é quase sempre o mesmo: sem líder incontestado, ganha o idealista.

Não tenho problema em ser derrotado. Se o tivesse, tinha ido para outro partido. Aliás, digo muitas vezes isso a jornalistas que querem perceber o CDS: não é possível fazer uma análise do partido no pressuposto de que este se rege pelo critério do poder. Os militantes do CDS não querem perder eleições, mas se o objetivo maior fosse ganhá-las, teriam ido para outro lado.

 

É por isso que o CDS é muito vulnerável a questões de identidade política. Se alguém aparece a dizer que o partido está a transformar-se, a perder a sua identidade, logo o partido se preocupa, logo o debate se espalha, desfocando o partido.

 

Foi sempre assim, há muitos congressos a demonstrá-lo, e só Paulo Portas conseguiu enterrar esse debate com sucesso e resultados.

 

Nada diz que Francisco Rodrigues dos Santos não consiga fazer o mesmo, apesar de, ou com a legitimidade de, ter chegado a presidente provocando o debate identitário à exaustão. Se souber não ceder às pressões das tendências que acolheu, se souber descobrir em si outra vocação que não a de representante de valores, isso não será impossível, sendo certo que a tendência para o debate identitário pode intensificar-se à conta da concorrência dos partidos emergentes (uma expressão feliz de Francisco Rodrigues dos Santos).  

 

Para observadores externos, isto pode parecer estranho, porque o CDS mudou muito ao longo dos anos, e alguns dos seus valores fundacionais (centrismo, federalismo, por exemplo) são abertamente repudiados pelos cultores dos valores fundacionais. Para esses observadores, é estranho que um partido que evoluiu, que se aclimatou, que progrediu, se comova tanto com esse debate.

 

O que esses observadores não entendem é que esse debate é emocional, não é racional. A mera suspeita de que o CDS se transformou num partido igual ao PSD, a mera acusação de que o CDS se vendeu, é o suficiente. O concreto, no fim do dia, vale pouco.

 

Se repararmos bem, o essencial das ideias que nos últimos quatro anos laboriosamente permitiram criar a candidatura do novo presidente do CDS passaram ao lado: falou-se muito de valores em abstrato mas já não se falou de aborto nem de casamento nem de adoção, tudo varrido para debaixo do tapete (para uns, isso não está na moção e por isso não se preocupem; para outros, não está na moção mas vocês sabem o que eu penso e por isso não se preocupem - uma estratégia nada má para quem cresceu a apontar o relativismo moral dos outros).

 

E o resultado deste debate, para além da perda de tempo já que no fim do congresso ninguém mudou as suas posições sobre coisa nenhuma, é quase sempre o mesmo: sem líder incontestado, ganha o idealista. Digo idealista e não conservador, porque é essencial perceber isto: o que conta neste debate identitário é a proposta ideológica, não tanto o seu conteúdo.

 

É por isso que me parece simplista a análise do congresso com base em mudança versus renovação (a lista dos vencedores mostra bem a renovação…) ou decretando o fim do portismo (confundindo-se com federação de descontentamentos com listas eleitorais), escapando do essencial: sempre que o debate ideológico se instala, ganha quem faz o papel de idealista.

 

O que fica então deste congresso, para além dessa cíclica vitória do idealismo?

 

É cedo para dizer, e Francisco Rodrigues dos Santos não o esclareceu no seu primeiro discurso.

 

Não sabemos, por exemplo, se a narrativa dos valores foi apenas a narrativa que lhe serviu para chegar ao congresso (como juram os seus apoiantes pouco dados aos assomos identitários do Francisco) ou se, ao invés, será a narrativa do seu mandato (como juram os seus apoiantes que não esperam outra coisa que não a consequência de tanta retórica sobre o relativismo).

 

Não sabemos, por exemplo, se o CDS vai em busca do eleitorado urbano, jovem, de classe média, que marcou o nosso crescimento em 2009 e 2011 (em 2011 só o Bloco tinha eleitorado mais jovem do que o CDS) e que nos abandonou em 2019 (foi nessas populações que mais descemos) ou se, ao invés, vai buscar um outro eleitorado, distinto, alterando o perfil eleitoral do CDS.

 

Não sabemos, por exemplo, se a integração de dirigentes profundamente conservadores (um deles acha que a minha orientação sexual pode ser curada, por exemplo; só não me ofereço como cobaia para o provar errado porque tenho coisas melhores para fazer) é mero arranjo de listas ou se, ao invés, importa para o discurso da direção esse conservadorismo de quem considera Aristides Sousa Mendes um agiota de judeus. Não sabemos se quem foi contra um partido catch-all se vai sentir bem numa direção que vai do mais profundo conservadorismo ao liberalismo: uma direção catch-all, no fundo.

 

Não sabemos, por exemplo, se o Chega é visto como um perigo, algo que queremos travar, ou se, ao invés, é uma tentação, algo que chegou antes de nós e que está a dizer o que há muito já devíamos estar a dizer.

 

Não sabemos, por exemplo, se o vigor, a determinação, e as palavras fortes que Francisco Rodrigues dos Santos pôs no seu discurso ao longo dos quatro anos em que preparou (e foi ajudado a preparar) o seu projeto (ingenuidade pensar que chegou agora por causa dos 4%) são apenas estilo, forma, ou sinais derradeiros de uma convicção inabalável no CDS contra o relativismo moral.

 

Sem saber nada disto, resta a dúvida e o seu benefício (surpreende-me sempre a facilidade com que se caricatura uma pessoa, de fascista para baixo, quando ela disse tão pouco - e afasto-me desse género de considerações).

 

Uma nota final para dizer que não é a primeira vez que discordo de uma estratégia nem de um discurso nem de um rumo, mas há uma coisa que tenho como certa e que pus sempre em prática: quando tiver de falar, falarei por mim, assinando as minhas palavras e pondo nomes próprios na hora de me dirigir a alguém e não andarei pelos jornais em voz-off manifestando desacordos ou criando narrativas sem identificar pessoas; ao mesmo tempo, há momentos e sítios para dizer as coisas, pelo que escusam de confundir silêncio com assentimento, ou lealdade com anuência.

 

Advogado

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