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Adolfo Mesquita Nunes - Advogado 28 de Maio de 2018 às 21:00

Não, Dr. Carlos César, o PS não é aceite à direita

PS sai deste Congresso com a convicção de que é o partido central do regime, do sistema, o único que pode governar porque é o único que logra entender-se ora com a esquerda ora com a direita.

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Isso mesmo disse o presidente do PS, Carlos César, numa declaração de meridiana clareza: "O PS é o único partido aceite à esquerda e à direita."

 

Como sucede isto, como se diz isto, quando o PS governou os últimos três anos por acordo de comunistas e trotskistas, duas famílias políticas que se afastam, e muito, do modelo de economia ocidental que inspira o centro político?

 

Tal só é possível porque o PSD se dispôs a aproximar-se dos socialistas, em gestos sucessivos e progressivos, legitimando a frase de César.

 

Mas não é isto positivo, afinal, resgatar o PS das mãos daqueles partidos, como já têm defendido alguns sociais-democratas? Não, e por várias razões simples de explicar.

 

Em primeiro lugar, porque o PS não se pretende afastar dos partidos à sua esquerda. Pedro Nuno Santos foi claro: "Não é com o PSD ou com o CDS que vamos proteger o sistema público de pensões. O mesmo com a Educação, o mesmo com a Saúde." Augusto Santos Silva foi lapidar: "Os atuais parceiros parlamentares não são instrumentos descartáveis."

 

Se o PS não tenciona desviar-se do beco à esquerda em que decidiu encostar-se, esta aproximação do PSD tem um sentido inverso: não é o PS que se centraliza, é o PSD que se encosta à esquerda.

 

Em segundo lugar, porque o PSD aceita a repartição de temas imposta pelo PS. Pedro Nuno Santos foi novamente claro: coisas boas, de dar prestações e apoios, são decididas com a esquerda, coisas tecnocráticas são decididas à direita.

 

Se o PS afirma que a direita não serve para decidir o nosso modelo social, esta aproximação do PSD tem um sentido perverso: confirma o preconceito de que a esquerda que se preocupa com os mais pobres enquanto a direita protege os ricos.

 

Em terceiro lugar, porque esta circunstância permite ao PS assumir-se como o partido-charneira sem o qual não há Governo, o partido para o qual confluem todos os outros à procura de legitimidade, o partido que consegue anestesiar a extrema-esquerda enquanto seduz os sociais-democratas.

 

Se o PS se posiciona como o único partido que pode conseguir estabilidade para governar, esta aproximação do PSD tem um sentido adverso: o novo voto útil como que passa a ser nos socialistas.

 

Em quarto lugar, porque o país precisa de uma alternativa de Governo que acredite, com convicção, no reformismo, na economia de mercado, na liberdade de circulação, na iniciativa privada, na liberdade económica que está na base da economia dos países com níveis de vida superiores aos nosso.

 

Se o PS se posiciona como um partido que acredita nisso como acredita no seu contrário, esta aproximação do PSD tem um sentido converso: coloca a social-democracia portuguesa na banda dos que desconfiam da economia de mercado, dos que aceitam acreditar nela apenas aos dias pares, converte-o definitivamente à esquerda.

 

A frase de Carlos César está por isso incorreta: o PS pode ser aceite pelo PSD, mas não é aceite pela direita.

 

E não há mal nenhum nisto, que não há país nenhum da Europa que não conviva com duas visões alternativas, ambas fundadas na democracia, uma de esquerda e outra de direita, que juntas vão construindo, com os consensos que se impõem, o presente e o futuro do país.

 

Do PSD não posso falar, só posso ver; do CDS já posso falar, e com conhecimento de causa, e por isso afirmo: a nossa função não é recolher votos para depositar no bolso dos socialistas, é construir uma alternativa que, agora sem memorandos herdados pelos socialistas, nos ponha a crescer como a Irlanda. E isso não se consegue fazendo acordos com socialistas que citam Marx nos seus congressos.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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