Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 16 de julho de 2018 às 20:35

Profundamente europeísta e convictamente antifederalista 

Se a União Europeia tivesse resolvido parte das suas questões existenciais, estaria hoje em condições de responder a Trump com a autoridade de quem conhece o seu estatuto, tem o seu rumo e não tolera provocações.

Mas se há coisa de que a União Europeia carece é de isso mesmo, de autoridade: algures a meio caminho de qualquer coisa, a perder competitividade, a ser ultrapassada pelas novas economias, sem discurso e sem chama. O que somos, afinal, enquanto União? Uma União Política, uma União Federal, uma União de Nações? E temos os instrumentos para atuar em conformidade num mundo global?

 

Não é tarefa fácil, diga-se, a de resolver estas questões.

 

Nunca o seria numa comunidade de vinte e oito Estados, cada um com a sua História, a sua cultura, os seus heróis, os seus problemas estruturais, a sua identidade. É uma ilusão pensar que uma comunidade assim se transforma com facilidade numa entidade capaz de ter voz única e própria em todos os assuntos. Pode ser possível, admito, mas não é coisa que suceda com naturalidade numa comunidade de Estados democráticos cujos governos se sujeitam a votos. Se nem os portugueses estão todos de acordo sobre assuntos estruturantes, como imaginar que vinte e oito eleitorados estarão?  

 

Menos o seria num tempo de mudança vertiginosa, com o medo à espreita: medo de perder o lugar, medo da concorrência, medo do futuro, medo medo medo (e é com o medo, e pelo medo, que os populistas se afirmam). Se a globalização transformou muito positivamente os nossos níveis de vida, também é verdade que ela trouxe uma dimensão de mudança a que não estávamos habituados. E a mudança gera o medo de perder alguma coisa com ela. E nesse momento, a tendência para nos fecharmos, aderirmos ao que sempre foi nosso, impedirmos o outro e os outros, é uma resposta provável, ainda que errada. Não é isso que sentimos, tanta gente a pedir muros e fronteiras e proteção?

 

E menos ainda o seria num clima em que parece não haver espaço para uma reflexão que obrigue a perspetivar e a avaliar tudo, como se só pudesse haver espaço para dois lugares: os que estão a favor da Europa, e não questionam quase nada, ou os que, questionando alguma coisa, estão contra. É esse o clima em que vivemos, empurrando para fora todos aqueles que têm dúvidas, rotulando-os de eurocéticos num mundo de europeístas. Que debate sério pode fazer-se num clima destes, que esperança de regeneração pode existir quando excluímos, rotulamos, todos os que fazem perguntas?

 

Se não é tarefa fácil, é tarefa essencial, porque o Mundo está a mudar e o nosso lugar depende da resolução dessas questões existenciais. E para isso é preciso dar espaço e voz a todos aqueles que, como eu, são profundamente europeístas e convictamente antifederalistas: sem dar espaço a estas vozes, legítimas, se não maioritárias, negando-lhes o epíteto de europeístas apenas porque não federalistas, estaremos a abrir o flanco para radicais e populistas, a minar por dentro um dos mais admiráveis projetos de progresso e desenvolvimento e paz que o Mundo já viu. Vamos ter eleições europeias para o ano, seria bom que houvesse verdadeiro debate, sem rotulagens dessas.

 

Mas o que é ser profundamente europeísta e convictamente antifederalista? Infelizmente, parece que é preciso explicar o que parece explicar-se por si próprio: acredito profundamente nas liberdades de circulação que fundaram a Comunidade Económica Europeia, no livre comércio, na abertura dos mercados e na simplificação das trocas comerciais, e acho que o reforço dessas liberdades faria muito mais pelo progresso, crescimento, competitividade e paz do que a quadratura do círculo que consiste em transformar vinte e oito (ou sete) países numa União Política; e surpreendo-me sempre que vejo Bruxelas a perder mais tempo nessa quadratura do que em reforçar o que mais progresso nos trouxe.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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