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André Macedo 08 de Abril de 2018 às 20:31

A corte de Rui Rio

A ideia de ter um governo-sombra, como quer Rui Rio, revela-se sempre melhor no papel do que na realidade por um motivo evidente: em Portugal, a oposição não recebe informação de qualidade em tempo útil. Conhece os números do INE ao mesmo tempo que o comum dos mortais.

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Acontece o mesmo com os relatórios que detalham a execução orçamental e também com o imenso bricabraque de considerações sobre a marcha do marcador orçamental e o futuro que aí vem.


A nossa organização política estabelece um muro intransponível entre quem manda e quem fiscaliza politicamente essas decisões. O governo sabe tudo, a oposição navega à vista, não conhece nada com rigor. O governo gere a informação à medida das suas conveniências. Faz e desfaz o calendário. Marca a agenda. A oposição, sempre atrasada e às escuras, joga à cabra cega: anda ali ridiculamente aos apalpões a tentar perceber e agarrar um assunto de carne e osso.


O ar de escândalo permanente em que vivem o PSD e o CDS explica-se por esta razão prosaica. Querem parecer que conhecem o que ignoram quase completamente. O desconhecimento obriga-os a um sobressalto público constante para contrariarem o atraso crónico em que tragicamente se encontram. Não sabem, então imaginam. Agarram-se às primeiras informações para elaborar imediatas deduções e condenações. A oposição não faz política, promove mau jornalismo: tem umas ideias vagas e com isso faz grandes alaridos e confusões.


Um exemplo. O ar certeiro de António Costa contrastava com o desfasamento temporal de Passos Coelho. O antigo primeiro ministro parecia amarrado a um tempo que já era. Mas além da amargura evidente - ressentimento é como beber o veneno e esperar que seja outro a morrer -, o que sobressaía mais era a incapacidade para medir a realidade e calibrar o discurso. Pura e simplesmente, Passos não sabia, não tinha informação e, talvez por soberba e orgulho, também não a procurava junto de quem a tinha. Carlos Moedas, em Bruxelas, ou os membros do Conselho de Estado, onde incrivelmente optou por não sentar-se, poderiam ter dado uma mão, mas o presidente do PSD ainda se julgava rei quando perdera o trono e a coroa. Resultado: definhou enquanto esperava que as novidades lhe batessem à porta.


Acontece que, por cá, o líder da oposição não só não recebe informação como a informação foge dele como o diabo da cruz: num país pequeno, ninguém quer ser visto a dar trunfos contra o governo. Os riscos de represália, verdadeiros ou imaginados, convidam ao segredo. Na Austrália, o líder da oposição recebe outro tratamento. Quando há uma visita de Estado ao país tem acesso formal ao visitante, mergulha na realidade, o que o impele a ter informação sólida e o obriga a ser mais consequente.


Daí que um governo-sombra de Rui Rio, sendo uma boa ideia no papel, confronta-se com limitações tão profundas que neutralizam a sua capacidade de pensar e fazer política. Acresce a isto a dificuldade em construir uma equipa com força para projetar um futuro governo. As primeiras pessoas escolhidas por Rio têm quase todas acima dos 60 e até dos 70 anos. Não há ninguém, para já, com menos de 50. As mulheres ficarão inevitavelmente em lugar folclórico. Não há ninguém vindo de fora do círculo habitual: não é a corte de Lisboa, é a corte de Rio.

A experiência é bem-vinda, é fundamental - não há como não reconhecer talento e saber a Ângelo Correia e a David Justino, além de que há muita gente nova por aí com cabeça de velha carcaça. Sim, a ditadura da juventude é igualmente limitadora. Mas quando não há espaço para um fio que seja de ar fresco neste governo-sombra, como parece não haver, então é porque qualquer coisa está a falhar neste prometido ctrl+alt+del do PSD.


Este artigo está em conformidade com o novo acordo ortográfico

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