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André Macedo 03 de Junho de 2018 às 20:20

A defesa de todos os accionistas na EDP

Tem razão a gestão de António Mexia sobre o preço oferecido pela China Three Gorges para concretizar a OPA sobre a EDP. É baixo e terá de subir.

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Nos próximos dias ouviremos as explicações do CEO da empresa, os múltiplos que justificam um preço mais alto, não apenas o valor médio das ações nos últimos seis meses -  influenciado pelo possível interesse da Gas Natural, o que subindo a média também confirma o valor de mercado da companhia -, mas a cima de tudo a extraordinária pegada internacional da EDP. Assim de cabeça: que outras multinacionais temos em Lisboa com esta valorização e potencial de crescimento mundial? A resposta diz tudo.


Poderia ter corrido muita coisa mal a António Mexia ao longo destes anos. A entrada em força na Renováveis, no final da década passada, implicou uma torrente de novos accionistas com impacto na governança e nas relações com o exterior, além de um esforço financeiro (endividamento) que muitos contestaram, antecipando o armagedão. A entrada e exploração de novos mercados, entre eles o complexo Brasil, a protecionista Espanha e a competitiva América, provocaram impactos regulatórios evidentes e a necessidade de gerir a empresa nestas múltiplas frentes, com ritmos e dinâmicas nem sempre sincronizadas e com singularidades que obrigam António Mexia a uma gestão, digamos, capilar das várias circunstâncias. Parece fácil, mas não é.


A juntar a este tríptico já bastante exigente, o contexto económico-financeiro português foi ao tapete durante a troika - com impacto direto no negócio nacional da EDP -, renascendo quatro anos depois debaixo das permanentes nuvens ideológicas e de um governo que incrivelmente ainda considera adequado manter a contribuição extraordinária sobre o setor energético, apesar de ter normalizado a relação com as pessoas - as justas devoluções - e até com algumas empresas, como é o caso da baixa do IVA da restauração. Não entendo: porque beneficiar uns e não outros? Qual o critério? Qual o preconceito? O governo por acaso já o explicou?


Investigação judicial à parte, os famosos CMEC não justificam (implicitamente, moralmente, politicamente) a imposição e manutenção desta taxa que penaliza o balanço da empresa e sobrecarrega os clientes domésticos e empresariais. É ver as contas. De acordo com o gabinete de estatísticas da União Europeia, Portugal está no segundo lugar da tabela dos preços mais altos da electricidade expressos em paridade do poder de compra. Convém no entanto notar que mais de metade do que se paga na conta da luz em Portugal (52%) corresponde a taxas e impostos. Um Estado em apuros, como é o caso português, depende de fontes de receita extremas, mas a diabolização da EDP e da Galp - a outra rara multinacional com sede em Lisboa - que tem sido levada a cabo ao longo dos últimos anos revela um aberrante tiro no pé do interesse nacional.


Os chineses, definição onde, ao contrário do que se diz, cabe muita coisa de origem diferente, terão então de subir o preço e pagar o justo valor pela companhia se a querem realmente controlar de fio a pavio. Fosse outro o gestor à frente da empresa, talvez corrêssemos o risco de o ver abraçar languidamente os desígnios do maior accionista sem olhar um segundo para trás. Afinal, o mandato de António Mexia acaba de ser prolongado e ele poderia mostrar-se agradecido.


Em vez disso, o CEO considera o preço baixo, defendendo assim o investimento de todos os accionistas, incluindo os mais pequenos, entre eles milhares de portugueses, e pelo caminho elevando a fasquia a um patamar poucas vezes visto por estas bandas. Goste-se ou não de Mexia, não é realmente comum acontecer isto numa empresa portuguesa. Por cá, embora não apenas por cá, as equipas de gestão revelam tantas vezes uma docilidade lastimável como se viu na incestuosa relação entre Ricardo Salgado, Zeinal Bava e Henrique Granadeiro. O que estamos a assistir na EDP é o contrário: a gestão não se deixou capturar, comprar e amedrontar. Há falta de uma OPA concorrente, e é uma lástima que ela não apareça, algum valor vai nascer no meio desta luminosa refrega empresarial.

 

 Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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